REUTERS/KCNA
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A liderança dos EUA na Ásia pode sobreviver ao governo Trump

Apesar de os países da região negociarem mais com a China, os americanos têm vantagens que durarão mais que uma presidência

JOSEPH S. NYE, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 05h00

Quando a Comissão Trilateral – um grupo de líderes políticos e empresariais, jornalistas e acadêmicos – reuniu-se recentemente, muitos manifestaram preocupação com o declínio da liderança americana na Ásia. Todos os países asiáticos agora negociam mais com a China do que com os EUA, muitas vezes numa margem de dois para um.

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Essa preocupação foi exacerbada pela recente imposição de tarifas e manifestações, do presidente Donald Trump, de desprezo pelas instituições multilaterais. Uma pergunta frequentemente ouvida em Cingapura: será que a liderança dos EUA na Ásia sobreviverá aos anos Trump?

A história fornece alguma perspectiva. Em 1972, o presidente Richard Nixon, unilateralmente, impôs tarifas aos aliados dos EUA sem aviso prévio, ignorou o sistema do Fundo Monetário Internacional e deu continuidade a uma guerra impopular no Vietnã. O medo do terrorismo disseminou-se e os especialistas expressaram preocupação com o futuro da democracia.

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No ano seguinte, David Rockefeller e Zbigniew Brzezinski criaram a Comissão Trilateral, que se reúne uma vez por ano para discutir tais problemas. Contrariamente às teorias da conspiração, a Comissão tem pouco poder; mas, como outros canais informais da diplomacia “Faixa II” (não oficial), ela permite que cidadãos particulares explorem meios de lidar com questões controvertidas. Os resultados podem ser encontrados em suas publicações e em seu site.

Em Cingapura, não houve consenso quanto à Ásia depois de Trump. Por exemplo, os membros indianos e chineses sustentaram posições diferentes sobre o papel dos projetos de infraestrutura da China, “um cinturão e uma rota (da seda)”. Alguns asiáticos e americanos divergiram quanto às perspectivas de sucesso para uma resolução da crise nuclear coreana, assim como quanto à questão mais ampla de saber se uma guerra China-EUA é inevitável. E alguns europeus indagam se a atual incerteza global reflete a ascensão da China ou a ascensão de Trump.

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Minha estimativa, que pode até estar errada, como alertei o grupo, é que os EUA podem recuperar sua liderança após os anos Trump se ele reaprender as lições de usar o poder em conjunto com os outros, assim como sobre os outros. Em outras palavras, os EUA terão de usar seu poder de persuasão (soft power) para criar redes e instituições que lhes permitam cooperar com China, Índia, Japão, Europa e outros países para lidar com problemas transnacionais – por exemplo, estabilidade monetária, mudanças climáticas, terrorismo e cibercrime – que nenhum país pode solucionar unilateralmente. Isso exigirá a superação das políticas e atitudes unilaterais associadas à ascensão de Trump.

Quanto à ascensão da China, ao contrário do pessimismo vigente, os EUA manterão importantes vantagens de poder que durarão mais do que uma presidência de oito anos, caso Trump seja reeleito. O primeiro é a demografia. Segundo dados da ONU, os EUA são o único país desenvolvido que deverá contribuir para o crescimento da população global até 2050. A China, atualmente o país mais populoso, deverá perder o primeiro lugar para a Índia.

A segunda vantagem é a energia. Há uma década, os EUA pareciam desesperadamente dependentes de energia importada. Agora, a revolução do xisto transformou-o de importador de energia em exportador, e a América do Norte pode ser autossuficiente na próxima década, ao mesmo tempo em que a China está cada vez mais dependente das importações de energia.

A tecnologia é uma terceira vantagem para os EUA. Entre as tecnologias que transmitirão energia neste século estão a biotecnologia, a nanotecnologia e a próxima geração de tecnologia da informação, como inteligência artificial e Big Data. Segundo a maior parte dos especialistas, enquanto a capacidade da China está melhorando, os EUA continuam líderes mundiais em pesquisa, desenvolvimento e comercialização de tais tecnologias.

Além disso, em termos de base de pesquisa, os EUA têm uma quarta vantagem – seu sistema de ensino superior. Segundo um ranking da Universidade Jiatong de Xangai, das 20 principais universidades do mundo, 16 estão nos EUA, e nenhuma está na China.

Uma quinta vantagem americana que provavelmente sobreviverá à era Trump é o papel do dólar. Das reservas estrangeiras detidas pelos governos de todo o mundo, apenas 1,1% estão em renminbi, em comparação com 64% em dólar. Quando o FMI incluiu o renminbi na cesta de moedas que sustentava sua medida de ativos de reserva, Direitos Especiais de Saque, muitos acreditavam que os dias do dólar estavam contados. Mas a participação do renminbi nos pagamentos internacionais caiu desde então. Uma moeda de reserva confiável depende de mercados de capitais com grandes volumes de negócios, um governo honesto e o estado de direito. Nenhum deles é plausível na China em futuro próximo.

Em sexto lugar, os EUA têm vantagens geográficas que faltam à China. Os EUA estão cercados por oceanos, e o Canadá e o México continuam amigáveis, apesar da política equivocada de Trump de reduzir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). A China, de sua parte, tem fronteiras com 14 países e disputas territoriais com alguns dos mais importantes, como Índia, Japão e Vietnã. Isso limita o poder de negociação da China. E enquanto a geografia dá à China projeção de poder terrestre sobre o Mar do Sul da China, os EUA não têm reivindicações territoriais e desfrutam de uma supremacia naval sobre os restantes 95% dos oceanos do mundo.

Mas, mais importante, os EUA e a China não estão destinados à guerra. Nenhum dos dois representa uma ameaça existencial ao outro. Quando a 1.ª Guerra começou, a Alemanha havia ultrapassado a Grã-Bretanha em 1900, e o temor dos britânicos quanto às intenções alemãs contribuiu para o desastre. Em contraste, os EUA e a China têm tempo para gerenciar seus conflitos e não precisam sucumbir à histeria ou ao medo.

Os EUA mantêm não apenas as vantagens de poder descritas acima, mas também suas alianças com Japão e Coreia do Sul. Nas próximas negociações com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, Trump precisará ter o cuidado de evitar que o regime Kim alcance sua meta de longo prazo de enfraquecer tais alianças.

Em Cingapura, citei a resposta de Lee Kuan Yew a uma pergunta que fiz uma ocasião, sobre a possibilidade de a China superar os EUA. Ele disse “não”, pois embora a China tenha o talento de 1,4 bilhão de pessoas, a abertura dos EUA permitiu que aproveitasse e combinasse os talentos de 7,5 bilhões de pessoas com maior criatividade do que a China conseguiria. Se essa abertura sobreviver, a liderança americana na Ásia e em outros lugares provavelmente sobreviverá. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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É PROFESSOR EM HARVARD E SERVIU ATÉ RECENTEMENTE COMO CHAIRMAN DOS EUA NA COMISSÃO TRILATERAL


 

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