A linguagem violenta da indústria de armamento

Análise: Charles M. Blow / NYT

É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2013 | 02h01

O barulho que estão ouvindo é o som de uma paranoia cultural de pessoas que perderam seu controle do poder, da realidade e temem que o pior está por vir. E elas estão se preparando para isso, seja lá o que for - uma guerra, uma revolução ou um apocalipse. Esses extremistas tornam um controle de armas sensato e razoável difícil de se discutir nos EUA porque desviam as discussões das soluções consensuais sensatas a que podem chegar tanto proprietários de armas racionais como os que não as possuem.

Essas pessoas, uma minoria barulhenta, têm medos extremos - confisco de armas, instabilidade civil generalizada, um governo tirânico - dos quais estão se preparando para se defender com um arsenal e estoques de munição. Quem prestar atenção na retórica da direita american notará uma série de palavras de código que alimentam os temores dessas pessoas e paralisam o progresso.

Um conjunto de grupos conservadores declarou o 19 de janeiro, durante o fim de semana da posse do presidente Obama e do aniversário de Martin Luther King, o Dia da Apreciação das Armas. O chefe do evento, Larry Ward, disse: "Obama mostrou estar mais que disposto a pisotear a Constituição para impor suas diretrizes".

Usar a palavra "diretrizes" é um esforço sutil, mas intencional, de enquadrar o presidente como perigoso. Andrew P. Napolitano, um analista da Fox News, disse num vídeo postado na quinta-feira no blog GretaWire da rede: "Eis o segredinho sujo sobre a Segunda Emenda: ela não foi escrita para proteger seu direito de atirar em cervos. Ela foi escrita para proteger seu direito de atirar em tiranos se eles se apossarem do governo. Que tal pensar seriamente nisso?"

Ele foi ainda além numa matéria no Washington Post, dizendo que a Segunda Emenda "protege o direito de atirar em tiranos e protege o direito de atirar de fato neles, com os mesmos instrumentos que eles usariam contra nós".

Quem são os tiranos de Napolitano neste caso? A apropriação do controle do governo é teórica, iminente, em progresso ou um fato consumado. Ward chegou a dizer na CNN: "Acredito que o Dia da Apreciação das Armas homenagearia o legado do dr. King". E continuou: "A verdade é que, creio que Martin Luther King concordaria comigo se estivesse vivo, se afro-americanos tivessem tido o direito de ter e portar armas desde o primeiro dia da fundação do país, a escravidão talvez não tivesse sido um capítulo de nossa história".

Deixem de lado, se puderem, o que mais provavelmente seria o horror de King à associação, e observem a linguagem. Prestem especial atenção à sugestão de que armas são uma proteção fundamental contra o ressurgimento da escravidão nos EUA. Quem seriam os escravos e quem os escravizadores? Como disse o Southern Poverty Law Center num relatório da primavera de 2012, o número dos chamados grupos patrióticos cresceu depois que Barack Obama foi eleito presidente na primeira vez.

"O inchaço do movimento desde aquele tempo foi extraordinário", disse o relatório. "De 149 grupos em 2008, o número dessas organizações passou para 1.274 no ano passado." Segundo o centro, "geralmente, os grupos patriotas se definem contra a 'Nova Ordem Mundial', envolvem-se em teorias conspiratórias infundadas e defendem a doutrinas extremas antigoverno.

É por isso que é chocante, mas previsível, que James Yeager, CEO de uma empresa do Tennessee que treina civis com armas e habilidades táticas, tenha postado um vídeo online dizendo que começaria a matar pessoas se os esforços de controle de armas avançassem. "Se isso acontecer, vai provocar uma guerra civil, e eu ficarei contente de dar o primeiro tiro", disse.

Chamar os "patriotas" às armas, assim eu penso, não é nenhum acidente. Pensem seriamente nisso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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