AP Photo/Alex Brandon
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A linha vermelha de Trump

O presidente já declarou que a Rússia tem de cair fora da Venezuela, mas parece que ele tem pouca disposição de enfrentar Putin

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 05h00

O presidente Trump enfrenta um teste crucial para sua política externa e sua determinação quanto à Venezuela. Seu governo deixou claro que os EUA não consideram mais Maduro presidente ao apoiar publicamente Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional, como presidente interino do país. Trump foi longe a ponto de aconselhar os militares venezuelanos a não mais acatarem ordens de Maduro. Tais posições são muito mais fortes que a “linha vermelha” traçada por Barack Obama com relação ao presidente sírio, Bashar Assad.

Até agora, as pressões de Trump não surtiram efeito. Maduro se agarra ao poder e as Forças Armadas não retiraram seu apoio a ele. Embora as sanções dos EUA possam agravar a situação de Maduro, também podem estar induzindo a população a uma mentalidade defensiva em torno dele, o que reforçaria o domínio do regime sobre o país. Foi mais ou menos o que ocorreu com Cuba, Coreia do Norte e Irã. 

A Venezuela é um país complicado e dividido, e Maduro, como herdeiro do legado de Hugo Chávez, deve ter algum apoio entre moradores de áreas pobres e rurais. Mas, muito mais significativo em termos de suporte ao regime, tem recebido apoio substancial e público da Rússia. Dois aviões russos chegaram ao país no fim da semana passada levando cerca de cem soldados. 

Essa foi apenas a última de uma série de investidas de Moscou para escorar Maduro. Em anos recentes, a Rússia forneceu trigo, armas, crédito e dinheiro ao governo de Caracas. Estima-se que a Rússia tenha investido entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões na Venezuela. Moscou controla hoje quase metade da Citgo, uma subsidiária da estatal petrolífera venezuelana PDVSA. Com sede nos EUA, a Citgo tem sido uma grande fonte de divisas de Caracas. 

O lance da Venezuela parece ter um significado pessoal para o presidente russo, Vladimir Putin. Nos últimos anos, com a economia venezuelana se deteriorando e a instabilidade política aumentando, a maioria das empresas russas abandonou o país. Mas, como disse Vladimir Rouvinski num relatório para o Wilson Center, a gigante estatal russa do petróleo Rosneft insiste em permanecer e até aumentou seu apoio a Maduro. 

Em outras palavras, Putin está empenhado em respaldar Maduro. Ele faz isso em parte para apoiar um antigo aliado e porque a iniciativa amplia a influência russa no mercado petrolífero global, mas principalmente porque impulsiona o objetivo central da política externa de Putin – a formação de uma coalizão global anti-EUA para frustrar propósitos americanos e inaugurar um mundo mais multipolar.

A grande pergunta para Washington é: os EUA vão permitir que Moscou desdenhe de outra linha vermelha americana? Washington tem sido taxativo sobre o envolvimento russo na Venezuela e Trump já declarou que “a Rússia tem de cair fora”. Mas a verdadeira dúvida continua: por que Trump tem tão pouca disposição em confrontar Putin? E será a Venezuela o ponto em que Trump finalmente abandonará esse apaziguamento? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É COLUNISTA

 

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