ANDREW NELLES|REUTERS
ANDREW NELLES|REUTERS

A lógica da segregação nos EUA

Nas discussões políticas, prevalece a intolerância e a incapacidade de entender o outro

Fareed Zakaria, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 06h48

É triste observar as recentes controvérsias que irromperam nas universidades americanas, de Yale à do Missouri. Elas revelam um país de divisões, em que grupos étnicos e raciais enxergam, vivem e falam do mundo de maneira muito distinta. Acho difícil comentar com segurança o que desencadeou a indignação entre tantos estudantes minoritários. Cada novo vídeo exibindo as humilhações sofridas por negros deveria nos obrigar a parar para pensar e reconhecer que existe um grave problema não resolvido nos EUA. O que me preocupa é que o remédio para isso, pelo menos no âmbito universitário, equivale a mais segregação.

Nas últimas quatro décadas, contudo, sempre que as universidades enfrentam queixas de exclusão ou racismo – com frequência reais – a solução proposta e normalmente aceita tem sido criar mais programas, associações e cursos para alunos que fazem parte de uma minoria. É compreensível, porque esses grupos têm sido historicamente ignorados, menosprezados e rebaixados. No entanto, isto tem sido positivo ou torna as coisas piores?

Um estudo realizado em 2004, conduzido pelo psicólogo de Harvard, James Sidanius (que é negro), concluiu que “não há nenhuma indicação de que experiências levadas a cabo por essas organizações etnicamente orientadas aumentaram a percepção de uma identidade comum com membros de outros grupos ou o sentimento de pertencimento a uma comunidade universitária mais ampla”.

Além disso, evidências sugerem que a participação em organizações estudantis orientadas etnicamente, na verdade, aumentou a percepção de que os grupos étnicos estão presos numa competição em que um ganha e outro perde e o sentimento de vitimização em virtude da raça de uma pessoa.

Os programas acadêmicos criados e ampliados também reforçam a sensação de distanciamento. Mais uma vez, é necessário dar mais atenção a muitas áreas e alguns estudos acadêmicos extraordinários têm sido produzidos nessas áreas. No entanto, o efeito cumulativo, como foi descrito pelo estudioso Tony Judt em um ensaio para a The New York Review of Books, em 2010.

Estudos acadêmicos. “Hoje, os estudantes universitários conseguem fazer uma seleção a partir de uma lista de estudos de identidade: ‘estudos de gênero’, ‘estudos femininos’, “estudos sobre asiáticos-americanos’ e dezenas de outros”, observou. As desvantagens de todos estes programas extracurriculares não é que eles se concentram numa determinada minoria geográfica ou étnica; é que eles incentivam os membros dessas minorias a se estudarem – desta maneira, negando simultaneamente o significado da educação liberal e reforçando o sectarismo e a mentalidade de gueto que têm como objetivo eliminar. E, com muita frequência, também estes programas são esquemas de criação de emprego para quem os gere, e o interesse externo é energicamente desestimulado. Negros estudam negros, gays estudam gays, e assim por diante.

Há também uma percepção cada vez mais forte nas universidades de que existem grupos de alunos que têm administradores, clubes sociais e cursos especificamente para eles. O que não ajuda as minorias. Como escreveu o secretário de Justiça, Earl Warren, em 1954, usando palavras que tinham por objetivo mudar os EUA: “Separado é inerentemente desigual”.

Vale a pena manter em mente que a segregação em câmpus universitários é apenas reflexo da crescente segregação da sociedade americana. Cada vez mais as pessoas vivem ao lado de outros da mesma classe socioeconômica, orientação política e raça.

Vítimas. Na verdade, em razão das generosas políticas de ajuda financeira de muitas escolas de elite, as universidades da Ivy League são muito mais diversificadas do que muitas comunidades americanas. Os garotos que chegam ali depararão, muitas vezes pela primeira vez, com um número enorme de pessoas muito diferentes deles – em termos de renda, classe, etnia e raça. Estes encontros são complicados e não devemos nos surpreender com o fato de que produzem tensões.

A solução dessa tensão certamente seria uma discussão aberta da qual todos participariam. No entanto, o que prevalece atualmente é a atitude no sentido de que, se a pessoa se sente ferida ou ofendida, fim de discussão. Você não quer entender a experiência ou os argumentos do outro.

Uma educação liberal, porém, tem como premissa exatamente a noção oposta, de que não existem espaços seguros para se retirar, mas um espaço comum para se inserir. E a democracia requer esse espaço comum, um espaço ao qual todos têm acesso. “Sento-me com Shakespeare e ele não se afasta”, escreveu William Edward Burghardt du Bois. “Através da linha de cor, eu caminho de braço dado com Balzac, Dumas. Convido Aristóteles e Aurélio e eles veem todos, afavelmente, sem desprezo ou condescendência.”

Hoje nos EUA, todos achamos que somos vítimas e ninguém compreende nossa dor. Se quer ver isto na sua forma mais tosca, contudo, não vá para o câmpus de uma universidade, simplesmente ouça os partidários de Donald Trump. Eles são na maior parte brancos raivosos que acham que estão sendo enganados pela sociedade e não se preocupam em levantar os fatos e debatê-los. É difícil entender. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA DO THE WASHINGTON POST

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