A longa caminhada dos egípcios rumo à liberdade

No fim, o presidente Barack Obama fez uma contribuição importantíssima, ainda que não intencional, para a revolução democrática no Egito. A equipe de Obama nunca encontrou voz para apoiar totalmente a revolução na Praça Tahrir até que esta se consumasse, e isto fez com que as pessoas presentes naquela praça soubessem de algo muito poderoso: elas triunfaram sozinhas. Isto é de uma importância incalculável. Um dos cantos mais fortes que ouvi na praça na noite de sexta-feira foi: "O regime foi derrubado pelo povo".

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

Este sentimento de autonomia e autenticidade - nós o fizemos sozinhos em nome de nós mesmos - é o que confere ao movimento pela democracia no Egito o potencial de alterar as regras do jogo em toda a região. E no caso de outros autocratas não terem compreendido esta mensagem, partilho outro de meus cantos favoritos dentre os entoados nas ruas do Cairo após a renúncia do presidente Hosni Mubarak. Era endereçado ao ditador vizinho, o coronel Muamar Kadafi, da Líbia, e seguia nas seguintes linhas: "Não sairemos de Tahrir até que Kadafi deixe a presidência". Alô, Trípoli! Chamada urgente vinda do Cairo.

A situação pode ficar interessante - para todos os autocratas da região. Os jovens e criativos democratas egípcios estão apenas começando a agir. Até agora, o movimento pela democracia no mundo árabe se resumiu à libertação do Iraque liderada pelos Estados Unidos, a qual, justamente por ter sido liderada pelos americanos, não pode ser tomada como modelo a ser emulado. Se - neste caso, a dúvida é grande - o Egito puder agora fazer a transição para a democracia, liderado por sua própria juventude e sob a proteção de suas próprias forças armadas, então será melhor os autocratas tomarem cuidado.

A mensagem transmitida pelo Cairo será a seguinte: experimentamos o nasserismo; experimentamos o islamismo; e agora estamos experimentando a democracia. Mas não uma democracia importada da Grã-Bretanha e nem entregue pelos americanos - será uma democracia concebida, gestada e nascida na Praça Tahrir. Isto deve ecoar entre os árabes - e também no Irã.

No entanto, alguns temem que o Exército egípcio possa sufocar ainda no berço este movimento pela democracia no país. Pessoalmente, acho que o Exército tem um pouco de medo da juventude da Praça Tahrir, que demonstrou tamanha destreza no uso do Twitter.

O movimento democrático que saiu da Praça Tahrir é como um tigre que passou os últimos 30 anos vivendo numa cela minúscula. Depois de vê-lo escapar da jaula, há duas coisas que tenho a dizer sobre este tigre. A primeira é que se alguém tentar reconduzi-lo à jaula, terá sua cabeça arrancada a dentadas.

A segunda: se um político tentar montar no tigre para satisfazer seus próprios interesses estreitos, e não pelo benefício do Egito, ele também será devorado pela fera. Faz pouco tempo que o Irã fez uma declaração pedindo aos jovens de Tahrir que promovessem uma "revolução islâmica", e ninguém menos do que a própria Irmandade Muçulmana mandou Teerã não interferir, pois o movimento democrático deles é pan-egípcio, incluindo cristãos e muçulmanos.

Mas eis a grande pergunta que o Egito precisa responder agora: será este movimento democrático liderado pelos jovens capaz de canalizar o poder e a energia desenvolvidos na Praça Tahrir em prol de uma meta - livrar-se de Hosni Mubarak - e transformá-los numa transição sustentável em direção à democracia, produzindo uma nova Constituição, múltiplos partidos políticos e eleições presidenciais livres realizadas de modo organizado?

Neste ponto, a força do movimento - o fato de ele representar cada vertente política, cada segmento e classe da sociedade egípcia - é também sua fraqueza. Ele ainda não consagrou um líder e nem uma plataforma política própria.

"É essencial que agora o movimento em defesa da democracia forme sua própria liderança e estabeleça sua visão política e suas prioridades, podendo assim cobrar o governo. Caso contrário, todo o esforço da luta pode ser desperdiçado", advertiu o liberal Rachid Mohamed Rachid, ex-ministro da Indústria e do Comércio, que se recusou a continuar fazendo parte do gabinete de Mubarak antes da revolta. "Eles devem definir sua visão para a educação no Egito, para a política de desenvolvimento da agricultura no país, para a defesa dos direitos humanos. Livrar-se de Mubarak não era a única aspiração do movimento. A meta final é criar um novo Egito."

Debate. Desde o início da revolta, Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita pareceram esperar que a situação evoluísse para uma escolha entre duas possibilidades - uma chamada "estabilidade", envolvendo Mubarak de alguma maneira, e outra chamada de "instabilidade", a ser evitada.

Bem, tentarei ser o mais claro possível: no Egito, a estabilidade deixou o recinto. E o que tenho a dizer a respeito disto é: ela já vai tarde. Ou, como me disse Ahmed Zewail, químico egípcio-americano premiado com o Nobel: o Egito se manteve estável nos últimos 30 anos porque o país não teve visão, não teve aspiração e se encontrava "estagnado". Uma estabilidade desta natureza não poderia durar.

É por isso que hoje o Egito tem diante de si apenas dois rumos a seguir, e ambos são instáveis. Num deles, o movimento pela democracia sucumbe e o Egito se transforma num furioso Paquistão, como foi na época dos generais no poder. E o outro é a necessariamente instável transição completa para a democracia, que chega à sua conclusão com um Egito estável e parecido com a Indonésia ou a África do Sul.

Será difícil. Há muitos dias duros pela frente, mas eles serão abrandados graças à autoconfiança cultivada aqui entre os jovens egípcios nas últimas três semanas. Assistir a tantos egípcios orgulhando-se do geralmente pacífico nascimento da liberdade - ouvi-los dizendo a si mesmos e uns aos outros, das mais variadas maneiras, "Sou alguém" - foi como testemunhar um dos grandes momentos de triunfo do espírito humano. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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