A longa estrada para fugir de Assad

Sírios de Deraa atravessam fronteira com Jordânia em carroças de legumes

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL , RAMTHA / JORDÂNIA, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h08

Eles cruzam rios, escondem-se em carroças em meio a legumes, pagam subornos aos soldados que matam seus amigos, obrigados a deixar todos os sonhos para trás. Em quase um ano de insurreição contra o governo do presidente Bashar Assad, autoridades de países vizinhos da Síria estimam que mais de 100 mil pessoas já tenham fugido do país, em um êxodo até então silencioso, mas cada vez mais polêmico.

O Estado acompanhou uma missão do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) na cidade de Ramtha, na Jordânia, um dos principais pontos de passagem para milhares de sírios que escapam da violenta repressão do governo de Assad à rebelião. Deraa, onde a revolta se iniciou, está a menos de 15 quilômetros dali.

Quando as forças do ditador atacam a cidade, moradores de Ramtha ouvem as bombas explodindo. Horas depois, famílias inteiras de sírios cruzam a fronteira em direção à Jordânia. "Cada vez que há uma ofensiva dos sírios, sabemos que no dia seguinte receberemos dezenas de famílias que chegam caminhando", afirmou Mahed, um funcionário da ONU em Ramtha.

Bassam Nohi, fugiu de Deraa e aceitou relatar seu esforço para sair da Síria. "Fui preso duas vezes e me disseram que se me pegassem protestando de novo, me matariam", disse. "Quando descobri que meu nome estava na lista de Deraa de pessoas que o governo considerava prioridade eliminar, decidi escapar para a Jordânia."

Nohi afirmou que um agricultor o guiou até o país vizinho, pois as forças de Assad "instalaram minas terrestres nas proximidades das fronteiras para impedir as fugas". "O camponês tinha visto onde o Exército colocara as minas e me ajudou", disse.

Nohi fugiu com seu filho mais velho, de 14 anos, e entrou na Jordânia em17 de janeiro. Deixou sua mulher grávida de 5 meses e seus outros quatro filhos na Síria.

"Todos os dias os militares apareciam na minha casa, ameaçando matar meus filhos se minha mulher não dissesse onde eu estava. Ela apenas insistia que não sabia o que havia ocorrido comigo", afirmou. Nohi disse que um de seus filhos, de 12 anos, foi torturado depois que soldados encontraram em seu quarto um caderno com a bandeira rebelde desenhada. Pouco depois, o restante de sua família também fugiu.

Hoje, todos dividem um abrigo com apenas ambiente em Ramtha, onde um aquecedor elétrico e cobertores distribuídos pelo Acnur os protegem do frio intenso. Nos olhos das crianças, porém, o terror ainda está mais que presente. "Meus filhos não brincam mais e chegaram a deixar de falar", disse o pai, chorando.

Fuga em massa. Segundo os rebeldes sírios, o conflito deixou mais de 8,5 mil mortos em quase um ano. Teme-se que haja um número muito maior de feridos, refugiados e deslocados internos. A Jordânia afirma que pelo menos 78 mil sírios entraram em seu território. ONGs que atendem os refugiados nas cidades jordanianas, porém, dizem que, segundo suas contas, o número de fugitivos já passa de 100 mil no país.

"Há cidades inteiras vazias (na Síria)", disse Ibrahim, refugiado vindo de Deraa que pediu sigilo sobre seu sobrenome. "Quero ainda trazer minha mulher que ficou em Deraa com as crianças. Mas (as autoridades sírias) não podem desconfiar que já estou do outro lado da fronteira. O governo tem espiões em todos os lados."

Ali Bibi, representante do Acnur em Amã, não confirma o número de refugiados fornecido pelo governo. "Oficialmente, temos quase 4 mil refugiados registrados", disse.

Fontes do governo dão três explicações para os números da ONU. A primeira é o fato de nem todos os fugitivos querem se registrar, pois têm parentes na Jordânia e preferem evitar ter seu nome em qualquer lista do gênero, por temer que, de algum modo, sua família se torne alvo da violência do regime de Bashar Assad.

Uma prática comum entre os refugiados tem sido adotar outros nomes assim que cruzam a fronteira para a Jordânia. Cada vez que um sírio era questionado pelo Estado sobre seu nome, a reportagem recebia respostas enigmáticas. "Aqui na Jordânia, sou Ahmed", disse um fugitivo de Homs.

Outros milhares de sírios estariam escondidos em casas de amigos em Amã ou acolhidos por agências islâmicas de caridade sustentadas por países como Arábia Saudita e Catar, entre outros.

O terceiro motivo para a discrepância dos números sobre refugiados sírios na Jordânia é que revelar o tamanho do êxodo implicaria em decretar uma emergência humanitária e uma crise de refugiados, justamente em uma região que já pena para dar assistência a palestinos, iraquianos e afegãos. Ainda assim, a realidade parece superar as considerações políticas. Grupos de ajuda humanitária já começaram a construir mais dois campos de refugiados para tentar impedirr a chegada dos sírios à capital, Amã, que já convive com milhões de refugiados.

Deserções. Não são apenas civis que escapam para a Jordânia. Amã afirma que cerca de 200 soldados do Exército de Bashar Assad hoje vivem sob proteção de militares jordanianos na capital. Entre eles, dez são oficiais de alta patente das forças do ditador.

As Nações Unidas explicam que se evita misturar esses refugiados com os fugitivos civis, justamente para conter tensões entre eles.

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