Bertrand Guay / AFP
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A luta contra o assédio

Levantamento mostra que 1,4 milhão de pessoas na França sofreram assédio

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

22 Março 2018 | 05h00

A nova meta de Emmanuel Macron: combater e punir o assédio e a violência sexual. Ou, mais precisamente, aperfeiçoar as leis existentes e torná-las mais duras. O assunto, que estava entre as promessas feitas por Macron há um ano, ganhou força com as revelações do caso Weinstein, em Hollywood, em dezembro de 2017, levando o Conselho de Ministros a adotar punições mais rígidas.

Imediatamente, surgiram dúvidas. Uma delas é sobre a idade a partir da qual o adolescente está apto a consentir o ato sexual. O projeto inicial previa que a idade mínima fosse de 15 anos. Ainda assim, algo polêmico.

A organização Planning Familial entende que tal limitação ignora toda a sexualidade dos jovens e propôs 13 anos. “Mesmo sendo difícil para pais e sociedade aceitarem, os jovens têm sexualidade. O risco de se ocultar essa sexualidade é aumentar o tabu.” 

Outras dúvidas dizem respeito às punições a serem dadas para o assédio nas ruas – assovios, insultos, intimidações, apalpadelas no metrô e nos ônibus. Foi decidido que essas infrações serão punidas no ato com uma multa de € 90, que subirá para € 3 mil em caso de reincidência. Em princípio, é uma punição justa e rápida para as atitudes tão cretinas quanto humilhantes. Mas como será na prática? Não é fácil para um policial fazer o flagrante. 

O escândalo Weinstein teve um ponto positivo ao dar visibilidade ao tema: a maioria dos homens ignora a amplitude do assédio sexual nas ruas, trens e metrô – sem falar nos escritórios, onde chefetes usam seu poder, às vezes mínimo, para forçar mulheres a ceder a seus desejos.

Le Figaro, um jornal distinto, pudico, atento à elegância de sua linguagem, teve a coragem de explorar essa floresta sombria na qual homens sinistros e grotescos se entregam a suas sórdidas ações. Ficamos assim sabendo que, em 2016, 1,4 milhão de pessoas, 90% delas mulheres, foram vítimas de agressões de caráter sexual. As estatísticas são precisas: as agressões ocorreram cara a cara (94%), por telefone (4%), pelo correio postal ou digital (2%). 

Metade dos insultos sexistas foi desferido na rua e 8%, no transporte coletivo. Essas grosserias partiram de homens em grupos e sob o efeito de drogas ou álcool. Elas se referem quase sempre ao físico das mulheres. 

Dá para se fazer um estudo das palavras jogadas na cara das mulheres. O levantamento não vai exigir mil páginas: esses poetas do sexo sofrem de uma incapacidade linguística fora do comum. Formar uma frase de três palavras é um esforço hercúleo. De um dicionário com dezenas de milhares de palavras, eles extraem uma dezena e as repetem à exaustão. 

Além disso, são vocábulos caracterizados menos pelo significado que pela pobreza e monotonia. A sordidez em estado bruto se reproduz como o balbuciar de um idiota. É uma logorreia que nem chega a ser ridícula. 

Esses imbecis usam palavras como “vaca”, “puta”, “galinha”, “feia”, “gorda”. Desprezar para se fazer desejar? Que estratégia estranha! Não seria mais sedutor se dissessem à mulher cobiçada coisas como “minha pombinha”, “meu sol nascente” ou “meu jardim das delícias”? No metrô, o vocabulário varia um pouco: “beijar”, “gostosona”, “gatinha”. Serão termos mais eficientes? O levantamento não revela.

As mulheres assediadas por esses débeis mentais dão queixa? Quase nunca. Das vítimas, 94% nunca foram à delegacia. Por que não? Porque “não vale a pena”, “não foi tão grave” ou por medo de represálias. Esse é o tipo de diálogo que se ouve quando a cortina se levanta. É constrangedor. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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