A luta contra o Estado Islâmico é dos EUA ou do mundo árabe?

ANÁLISE: Thomas L. Friedman / NYT

O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2014 | 02h01

Uma luta existencial está se travando hoje no mundo árabe. Mas a luta é dos EUA ou deles? Antes de os EUA iniciarem uma ação militar no Iraque e na Síria, é preciso responder essa pergunta.

O que mais me preocupa a respeito da decisão do presidente Barack Obama de voltar a se envolver no Iraque é que, aparentemente, ela está sendo tomada em reação a alguns temores deliberadamente exagerados - o causado pelos vídeos que mostram a decapitação de dois jornalistas americanos - e o de que o Estado Islâmico esteja se aproximando dos americanos. Como foi que os EUA começaram a ficar de novo com tanto medo e tão rapidamente? Acaso não foi criado um Departamento de Segurança Nacional? Não estou menosprezando o Estado Islâmico. Obama tem razão quando afirma que o grupo precisa ser humilhado e destruído. Mas, quando o país age movido pelo medo, não pensa em termos estratégicos, e passa por cima de questões essenciais, como: qual será o motivo pelo qual o Irã xiita, que ajudou a desencadear toda esta rebelião sunita no Iraque, rejeita uma ação coordenada com os EUA e a Turquia e alguns países árabes estabelecem limites ao seu envolvimento.

Quando leio isso, acho que Nader Mousavizadeh, um dos diretores da empresa de consultoria global Macro Advisory Partners, está certo ao afirmar: "Quanto à intervenção na luta existencial do mundo árabe, precisamos parar e perguntar a nós mesmos por que encontramos tanta dificuldade em fazer com que eles nos ajudem a salvá-los?" Por isso, antes de aprofundarmos nossa análise, vamos colocar algumas questões radicais, a começar por esta: E se não fizermos nada? George Friedman (nenhum parentesco), presidente da Stratfor , levantou essa ideia em seu recente ensaio The Virtue of Subtlety.

Ele observa que o surgimento do EI foi a inevitável reação dos sunitas ao serem privados brutalmente do poder e de recursos pelos governos e pelas milícias xiitas pró-Irã em Bagdá e na Síria. Mas em seguida pergunta: O Estado Islâmico "será realmente um problema para os EUA? O interesse americano não é a estabilidade, mas a existência de um equilíbrio de poder dinâmico em que todos os participantes ficam efetivamente paralisados de modo a impedir que surja alguém que possa ameaçar os EUA ... Mas o princípio do equilíbrio do poder não significa que o equilíbrio deva ser mantido diretamente.

Turquia, Irã e Arábia Saudita têm muito mais em jogo que os EUA. Enquanto acreditarem que Washington tentará controlar a situação, será perfeitamente racional para eles recuar e ficar observando, ou agir nas margens, ou mesmo sabotar os americanos. Os EUA precisam fazer com que um equilíbrio de poder entre Síria e Iraque se torne um equilíbrio de poder entre este trio de potências regionais. Eles têm muito mais em jogo e, na ausência dos EUA, não têm outra escolha senão se envolver. Não podem ficar observando um caos que pode se espalhar, atingindo-os".

Portanto, conclui, a estratégia americana mais correta está em "fazer o mínimo possível e forçar as potências regionais a entrar na briga, e então manter o equilíbrio de poder nesta coalizão". Não tenho tanta certeza, mas vale a pena discutir a respeito.

Aqui está outra pergunta: para que, mesmo, se trava esta guerra? "Esta é uma guerra que trata da alma do Islã, o que diferencia este momento de todos os outros", argumenta Ahmad Khalidi, um estudioso palestino ligado ao St. Anthony's College, de Oxford. E esta é a razão: há décadas, a Arábia Saudita é a principal fonte financiadora das mesquitas e das escolas de todo o mundo islâmico que promovem a versão mais puritana do Islã, conhecida como salafismo, hostil à modernidade, às mulheres, ao pluralismo religioso, ou mesmo ao pluralismo islâmico.

A Arábia Saudita contribui para financiar tanto a guerra contra o Estado Islâmico quanto a ideologia radical islâmica que cria os membros do EI (acredita-se que cerca de mil sauditas estejam lutando com os jihadista na Síria), por meio das mesquitas salafistas da Europa, do Paquistão, da Ásia Central e do mundo árabe.

Este jogo atingiu seu limite. Primeiro porque o EI representa uma ameaça para a Arábia Saudita, ao afirmar que é o "califado", o centro do Islã. Em segundo lugar, o EI ameaça os muçulmanos onde quer que estejam. A Arábia Saudita não pode continuar combatendo o EI e alimentar a ideologia que alimenta grupos como ele. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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