A luta contra o vício

Nesta época de promessas, lembro como é difícil ficar longe das drogas e do álcool - mais ainda quando recebo elogios

Mike Tyson*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2014 | 02h03

Estamos na época das promessas de ano-novo. Perder 10 quilos, frequentar a academia de ginástica, ser mais produtivo, coisas do tipo. Em poucos meses, muitas pessoas vão deixar essas metas de lado, renovando-as no próximo ano. Pertenço a um grupo que não pode se dar o luxo de fazer promessas e não cumpri-las. Sou um viciado.

Para nós, viciados, a disciplina não é algo que almejamos a cada ano; trata-se de algo necessário a cada momento. Por mais que possa parecer surpreendente - levando-se em consideração a loucura associada ao personagem Mike Tyson -, uma de minhas principais qualidades é minha disciplina, algo que meu mentor e primeiro treinador, Cus D'Amato, incutiu em mim. Cus e eu trabalhamos duro para que eu me tornasse o mais jovem campeão dos pesos pesados da história; sacrifiquei a maior parte de minha vida social enquanto adolescente e, durante anos, levei meu corpo até o limite diariamente, repetindo uma rotina brutal.

Cus morreu um ano antes de eu conquistar meu primeiro cinturão, em 1986. Sem ele, era menor o incentivo para que eu mantivesse a disciplina - e comecei a beber bastante e a usar drogas. Finalmente, aposentei-me do boxe em 2005. Não queria insultar o esporte subindo nos ringues fora de forma, lutando apenas pelo dinheiro. Foi então que me tornei um viciado de verdade. Desde então, lutei para me manter sóbrio, às vezes, com sucesso e, às vezes, não.

Por mais que eu demonstrasse uma disciplina incrível em relação ao boxe, eu não tinha as ferramentas necessárias para evitar minha queda no vício. Quando tinha uma oportunidade de ficar chapado, ficava chapado sem pensar duas vezes. Não telefonava para o meu padrinho, nem para o meu terapeuta, nem para meus amigos sóbrios. Para vencer o vício, tive de substituir o desejo de consumir álcool e drogas pelo desejo de ser uma pessoa melhor.

Aprendi que estar sóbrio é mais do que simplesmente evitar as drogas e o álcool. Trata-se de um estilo de vida cujo foco está em fazer escolhas morais, trazendo para o primeiro plano as coisas que fazem a vida valer a pena. Não entendam errado. Se eu tinha vontade de usar drogas e álcool, eu ainda cedia. Nunca consegui lutar contra esse desejo. Mas, quando estou concentrado em ser bom e fazer o bem, praticando os mecanismos diários de uma vida sóbria e saudável, não sinto essa vontade de fazer mal a mim mesmo.

É claro que precisei de uma consciência mais desenvolvida para sustentar isso. No decorrer dos anos, minha consciência me salvou do abismo de uma vida de total abuso hedonista. Mesmo quando eu era apenas um garoto antissocial de Browsnville, Brooklyn, roubando e provocando brigas, meus amigos e eu questionávamos nosso comportamento. Nos meus piores momentos, eu ainda me via com um olhar externo, pensando no efeito que minhas ações teriam sobre os outros.

Mesmo com a consciência incomodando, é extremamente difícil desenvolver uma atitude sóbria e moral na ausência de um bom sistema de apoio. Quando estava no auge de minha carreira, meu sistema de apoio era péssimo. Havia abutres famintos em torno de mim, colocando suas mãos nos meus bolsos, usando meu status para promover a si mesmos. Seria impossível vencer com gente assim no meu córner. Agora tenho a imensa sorte de contar com uma mulher maravilhosa e filhos ao meu redor.

Em 2009, prometi me manter sóbrio após a morte acidental de minha filha de 4 anos, Exodus. Eu estava determinado a viver uma vida melhor pelo bem da minha família, mas a dor era tanta que voltei para as drogas. A recuperação é um processo prolongado e, sem o contínuo incentivo, seria praticamente impossível alcançá-la.

Estranhamente, os momentos de sucesso são para mim os mais perigosos. Quando as pessoas me diziam "Você é ótimo" ou "Seu retorno foi espetacular" ou "Você é um deus", eu aproveitava o sentimento e ia atrás de drogas. Ora, se minha vida é tão boa, como é possível que fumar um baseado seja ruim? Como uma dose de conhaque ou uma carreira de cocaína podem ser tão ruins se tudo o mais que eu tenho feito é considerado incrível - especialmente quando há pessoas lindas e bem-sucedidas alimentando meu ego e fornecendo as drogas? Aprendi que, quando sou elogiado, é o momento de me concentrar em minhas falhas. Dessa forma, impeço que meu narcisismo fuja do controle, fazendo-me achar que posso agir sem me importar com as consequências.

Eu me mantive sóbrio por cinco anos antes de sofrer uma recaída e voltar a beber em agosto. Tinha acabado de concluir o manuscrito do meu livro, meu programa estava prestes a ir ao ar pela HBO e tínhamos uma série de reality preparada para a Fox Sports. Eu não estava acostumado ao sucesso fora da arena do boxe.

Minha autoimagem era tão negativa que eu simplesmente esperava que coisas ruins acontecessem comigo. E, por mais que tivesse passado cinco anos sem usar drogas, durante todo esse tempo eu não me senti à vontade comigo mesmo. Guardava segredos diante de pessoas próximas, coisas que eu tinha que botar para fora, pois estavam me matando por dentro. Guardar os problemas para si é o pior sentimento do mundo. Quando resolvi essas questões, por meio da terapia e de conversas com a minha família, me senti um novo homem. Quando tive recaídas anteriores, continuei a usar drogas até sofrer um acidente de carro ou ser preso. Dessa vez, após beber por dois ou três dias, eu voltei. Não esperei uma intervenção. Simplesmente embarquei de volta no trem. Depois de anos de terapia, aprendi a não me recriminar tanto. Lembrei que a recaída faz parte da recuperação.

Nunca me senti tão bem quanto agora. Estou a caminho da humildade, consciente de que não se pode reinar antes de ter servido. Tenho diante de mim um glorioso 2014, quando todas as nossas promessas mais bem-intencionadas se tornarão realidade.

*Mike Tyson foi campeão dos pesos pesados e publicou o livro de memórias 'Undisputed Truth'.

 TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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