A luta de Vitali fora dos ringues

A rotina do campeão de boxe que, sob desconfiança das massas, reuniu ajuda diplomática para a queda de Yanukovich

Leonid Bershidski*, Bloomberg News/O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h06

Já é tarde na quinta-feira e Vladimir Klitschko, finalmente, chega ao terminal de embarque do aeroporto de Hamburgo numa Mercedes preta. Ao subir a bordo de um avião particular, o capitão se aproxima para informar os detalhes do voo até Kiev, mas Klitschko não tem tempo para isso. Ele precisa telefonar para o irmão.

Informar ao outro do próprio paradeiro e manter contato são hábitos que o pai os ensinou quando eram crianças. Os irmãos estavam sempre juntos; era importante que um sempre soubesse o paradeiro do outro. O ritual é praticado pela dupla há anos e parte dele envolve chamar o outro não apenas pelo primeiro nome, mas pela forma tradicional, incluindo o patronímico.

Vladimir disca o número e Vitali vê o nome do irmão surgir na tela. "Vladimir Vladimirovich!", diz ele ao telefone, "o que tem a informar?" "Vitali Vladimirovich!", responde Vladimir. "Estamos prestes a decolar." Ele desliga em seguida. Não há necessidade de dizer mais nada, nenhuma mensagem mais longa. Isso também faz parte do ritual.

Desde a adolescência, os dois irmãos Klitschko funcionam como uma unidade, com as patentes distribuídas pelo pai, um general reformado da Força Aérea soviética. Ele fez de Vitali o responsável pelo irmão mais novo.

Já lutaram boxe juntos, esses "imensos leões de chácara", como os descreveu o amigo e parceiro de negócios Bernd Bönte. Enquanto um deles estava no ringue, o outro ficava no córner, com as toalhas. Quando Vitali se machucou, Vladimir ganhou um campeonato mundial. Quando Vitali perdeu um título da Organização Mundial de Boxe (OMB), Vladimir se vingou na disputa seguinte. E, um dia, os dois se tornaram campeões mundiais de boxe ao mesmo tempo, cada um por uma federação diferente. Eles têm uma diferença de 5 anos e exatamente dois centímetros.

Vitali, o mais velho, mede dois metros, enquanto Vladimir tem 1,98m. Enquanto dupla, os dois viraram o mundo do boxe de pernas para o ar como "Dr. Punho de Ferro" e "Dr. Martelo de Aço", os primeiros boxeadores do mundo com diploma de doutorado, dois homens educados e bem vestidos, de casaco Hugo Boss.

Agora, eles enfrentam uma luta diferente, com Vitali nos holofotes e Vladimir na cobertura. Esse é, provavelmente, o combate mais importante de suas carreiras e, desta vez, não se sabe ao certo se eles serão capazes de vencer. Desde que os ucranianos começaram a se manifestar na Praça da Independência, pedindo mais democracia e laços mais próximos com a Europa, Vitali se tornou o rosto do movimento de resistência. Ele é mais conhecido no Ocidente do que qualquer outro dos líderes da oposição. É popular na Ucrânia por não ser corrupto, por entrar sem medo na linha de frente e porque seus largos ombros de boxeador dão confiança à população. Esse é seu capital político, que está começando a se desgastar.

O clima festivo inicial envolvendo os protestos deu lugar a uma crescente sensação de impaciência, para a qual Klitschko contribuiu ao fazer repetidas demandas extremas e emitir ultimatos sem consequências. Em razão de sua abordagem, perdeu parte da autoridade e decepcionou partidários. Muitos na Praça Maidan se tornaram radicais e mais voltados à direita do que ele gostaria.

É sexta-feira, 31 de janeiro, e Vitali Klitschko está no estacionamento do aeroporto Zhulyany, em Kiev, vestindo uma parca e um chapéu de aviador para se proteger do frio. Ele acaba de voltar de uma longa reunião com os outros dois líderes da oposição. Antes, o então presidente Yanukovich tinha concordado em revogar as duras leis contra os protestos. Klitschko está com gripe e tem a aparência cansada. Ficou no hospital até as 2 horas da madrugada anterior, visitando Dmitry Bulatov, líder da oposição que desapareceu por oito dias e teria sido torturado.

Elmar Brok, membro do Parlamento Europeu e um dos aliados de Klitschko, deixou Kiev no dia anterior. Foi Brok quem aconselhou Klitschko a participar da Conferência de Segurança em Munique, para onde estava indo.

Ele passou muito tempo pensando se deveria ir e se correria o risco de perder o controle sobre o movimento se passasse dois dias conversando com políticos num elegante hotel de Munique. No entanto, essa era também uma oportunidade importante. Ele deveria participar de um evento parlamentar noturno celebrado pelo partido governista alemão, União Democrata-Cristã, de centro-direita, seguido por uma reunião com a chanceler da UE, Catherine Ashton.

Havia três pessoas diante dele. Klitschko prometeu às três que poderiam acompanhá-lo a Munique em seu jato particular, mas o capitão balançou a cabeça. Só havia espaço para dois. Klitschko insistiu, mas o capitão voltou a balançar a cabeça. Ele parece aliviado quando alguém lhe entrega uma moeda de dois euros. Cara ou coroa? Ele joga para o alto. Sinto muito, diz ele. Deu cara. O fotógrafo do tabloide alemão Bild pode vir, enquanto o repórter da Spiegel terá de ficar em Kiev. Klitschko parece extremamente contrariado.

Em Munique, reúne-se com todas as pessoas que escreveram artigos a respeito dele e da Ucrânia nas últimas semanas. Na manhã de sábado, encontra o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, seguido pelo senador republicano John McCain. Finalmente, o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, chega ao seu quarto de hotel, enquanto o ministro alemão das Relações Exteriores, Frank Walter-Steinmeier, espera por Klitschko perto da lareira. Todos o apoiam.

"Os EUA e a UE estão totalmente comprometidos com o povo ucraniano", diz Kerry. Steinmeier o cumprimenta educadamente num rápido aperto de mão, mas não oferece gestos fraternais. Ele diz a Klitschko que a Alemanha receberia Bulatov se Yanukovich permitisse que ele deixe o país. Trata-se de um gesto amistoso, mas que pouco ajuda a causa de Klitschko. Ele convida o ministro a ir a Kiev.

Klitschko é o astro da conferência de segurança, uma ave exótica num oceano repleto de especialistas em política externa que se reúnem em Munique todos os anos. Todos os canais de TV e todos os jornais querem entrevistá-lo e todos os ministros do gabinete querem uma reunião com Klitschko.

Ele não recusa nenhuma reunião com aqueles que desejam vê-lo, incluindo membros da delegação suíça e o ministro norueguês das Relações Exteriores, Borge Brende, com quem ele se encontra no restaurante Tiroler Stube, no Hotel Beyerischer Hof. "Apoiamos sua luta pela democracia", diz o ministro. Os assessores de Brende não fazem muitas anotações, mas tiram várias fotos, como se estivessem documentando um momento histórico. Ele quer mais do que solidariedade. Pela primeira vez em sua vida, Klitschko está no papel de suplicante.

*Leonid Bershidski é jornalista.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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