Farreno Ferguson/The New York Times
Farreno Ferguson/The New York Times

A luta do pai cego que carregou o filho nos ombros nas Bahamas

A história de Brent Lowe é uma entre as de milhares de sobreviventes que hoje buscam um recomeço após a passagem do furacão Dorian, que devastou o noroeste do arquipélago

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 08h01

NASSAU, BAHAMAS - O telhado havia sido levado por inteiro. Do lado de fora, o oceano se aproximava de sua casa, nas Bahamas, engolindo a terra. Brent Lowe sabia que tinha que escapar da chegada do furacão Dorian. E levar consigo seu filho de 24 anos, que tem paralisia cerebral e não consegue andar.

Mas, Lowe ainda tinha um outro problema. Ele é cego.

Então, ele colocou o filho nos ombros, e saiu de casa. A corrente de água vinha até seu queixo.

“Foi assustador, tão assustador”, disse Lowe, de 49 anos.

Segurando-se nos vizinhos, ele afirma que tateou o caminho à casa mais próxima que ainda não havia sido destruída. Levou cinco minutos, uma eternidade.

Histórias de casos improváveis de sobrevivência aos poucos vêm à tona nos dias seguintes após o furacão Dorian ter atingido as Bahamas, destruindo as ilhas de Grand Bahama e Ábaco durante dias, antes de subir a costa do Atlântico.

Enquanto o estrago é visível de cima, o número total de perda humana ainda está longe de ser acertado, com no mínimo 23 mortes confirmadas e autoridades alertando que o número real deve ser muito maior.

A contagem de mortos “poderá ser impressionante”, disse o ministro da Saúde, Dr. Duane Sands, na quinta feira.

Alguns bairros foram reduzidos a destroços, quase inteiramente achatados pela tempestade. Em outros, 95% das casas foram atingidas ou destruídas.

Milhares de pessoas estão agora sem teto, se refugiando em ginásios ou igrejas, e as autoridades se preparam para um fluxo de cadáveres enquanto a extensão da destruição torna-se clara.

Sem saída

Quando o furacão Dorian atingiu terra firme pela primeira vez, no domingo, Lowan recorda que toda sua fúria parecia cair sobre ele. A tempestade do lado de fora foi uma das mais poderosas desde que se tem registros a passar pelo Atlântico.

O olho do furacão se aproximava, e o grupo de oito pessoas dentro da casa de Lowe, feita de cimento, estavam vulneráveis. Além de Lowe e seu filho deficiente, vizinhos cujas casas já haviam sido destruídas ali se abrigavam. Entre eles, duas crianças.

Enquanto a tempestade os rodeava, Lowe conta que o telhado começou a se levantar, e então era puxado para baixo novamente. As Ilhas Ábaco aguentaram ventos de até 300 km/h.

O grupo procurou abrigo no banheiro, onde se amontoaram juntos e rezaram, com a esperança de uma saída. O filho de Lowe foi colocado na banheira. Foi nesse momento que o telhado foi arrancado de vez.

Expostos ao exterior, cada um começou a sair para a tempestade. Eles se seguravam uns nos outros, em busca de refúgio. “Eu nunca vivenciei nada como aquilo na minha vida”, disse Lowe, que não é um iniciante no quêsito furacões, mas disse que nunca poderia ter imaginado o terror daquele dia.

O grupo chegou à casa de um vizinho. Lowe e seu filho se abrigaram ali durante um dia até um ônibus de resgate buscá-los na segunda-feira e levá-los a um abrigo.

Na terça à noite, Lowe foi levado a Nassau, onde pode ter acesso ao tratamento de hemodiálise, necessário três vezes por semana. Seu filho precisou ficar nas Ilhas Ábaco, sob os cuidados de sua cunhada, disse Lowe.

“Eu vim para cá com as roupas que estava usando no sábado”, conta. Apesar de Lowe e seu filho estarem seguros agora, sua jornada está somente começando. Ele não sabe se sua filha mais velha aguentou a tempestade. As linhas telefônicas não funcionam há dias, e a comunicação com as Ilhas Ábaco é muito difícil.

“Logo antes do vento começar, eu falei com ela”, disse Lowe. “Eu queria ter tido a chance de ligar e perguntar a alguém, porque estava realmente preocupado com eles. Estava preocupado com todo mundo”.

O número de pessoas que tiveram que sair de casa por causa do furacão é tão grande, que em Marsh Harbour, a cidade principal em Ábaco, mais de 2 mil pessoas procuravam abrigo em uma clínica e em um complexo governamental. As autoridades alertaram que pequenas vilas com tendas devem ter sido construídas para acomodar os milhares de sobreviventes.

Após passar a vida nos subúrbios de Marsh Harbour, onde construiu família e trabalhou como peixeiro até perder a visão, há 11 anos, para a diabetes, a casa, a comunidade, e tudo que Lowe havia construído até o momento foi destruído.

Mesmo assim, Lowe quer voltar para Ábaco. “Eu tenho que ir”, ele afirma. “É lá que minha família está. Meus filhos estão lá, meus irmãos, minhas irmãs, estão todos lá”.

Mas, ele está incerto sobre o futuro. O estrago é catastrófico. Na área onde ele morava, “90% das casas estão comprometidas”, conta. “Eu estou falando sem telhados, casas destruídas em todo lugar”.

“Eu só estou pensando em onde vamos morar quando eu voltar para casa, o que eu vou fazer”. / NYT

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