A luta globalizada

A globalização funciona de maneira inusitada. A família Gracie que o diga. A defesa pessoal tem raízes em todas as culturas. Mas levou uma família paraense, de ascendência escocesa, a reinventar uma luta milenar japonesa, transformando-a em esporte internacional, atiçando igualmente os desejos de marmanjos e magnatas.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h02

No mundo de negócios, há poucas historias de sucesso como a das artes marciais mistas, o MMA, na sigla em inglês. O campeonato de luta, disputado no Rio de Janeiro em agosto passado, foi um estouro de público, bilheteria e patrocínio. Quinze mil pessoas se espremeram no HSBC Arena para ver o campeão mundial de pesos médios Anderson Silva derrotar o ídolo japonês Yushin Okami.

Pela procura de ingressos, poderiam ter lotado Maracanã. Os brasileiros dispensam apresentações, pois foi aqui, precisamente no Rio de Janeiro, onde tudo começou.

De fato, se existe uma marca brasileira global, é o jiu-jítsu brasileiro. Ou, melhor, o GJJ - Gracie Jiu-jítsu.

A saga faz parte do folclore nacional. Os irmãos Carlos e Hélio Gracie, nascidos em Belém, aprenderam jiu-jítsu com o imigrante japonês Mitsuyo Maeda e o levaram ao Rio, onde fundaram uma academia.

Mestres de um esporte com poucos aficionados, logo trataram de crescer e, misturando valentia com o instinto empreendedor, desafiaram brigões de todos os estilos. Com raríssimas exceções, prevalecia o jiu-jítsu. Franzino e leve, Hélio Gracie, de apenas 62 quilos, batia rivais maiores, alguns gigantes.

Nada a ver com força nem velocidade. "Dê-me uma alavanca e levanto o mundo", dizia, repetindo a citação de Arquimedes.

Nasceu o Vale Tudo, talvez o campeonato de lutas mais ecumênico do mundo. E foi esse modelo que os filhos de Hélio e Carlos exportaram para os Estados Unidos, rebatizando-o de Ultimate Fighting Championship (UFC) ou Cage Fighting, pela gaiola que cercava o tatame octogonal de lutas.

Com a feijoada de estilos, as regras implodiram. Não havia rounds, cronômetro, ou luvas. Só não valia mordida ou dedo no olho.

A luta terminava quando um dos rivais se rendia ou desmaiava. Era o shoot fighter contra o boxeador. Judoca contra o faixa preta de caratê. E todos contra o jiu-jítsu brasileiro.

No confronto de estilos internacionais, a alavanca dos Gracie novamente triunfou. Teve início, então, a corrida internacional para aprender a arte brasileira, pois ninguém vencia sem dominar o jiu-jítsu.

Os lutadores gostaram, as autoridades americanas, nem tanto. O senador republicano pelo Arizona John McCain o chamou de "rinha humana".

A UFC era proibida em diversos Estados do país. Transmissão pela televisão, só pelos canais a cabo.

Polêmico e marginalizado, o esporte perecia quando o Rorion Gracie vendeu a marca UFC para a empresa de entretenimento SEG (negócio de US$ 1 milhão), que alguns anos depois a repassou aos irmãos Frank e Lorenzo Fertitta, empresários de cassino, e Dana White.

O clube de lutas ganhou regras, luvas, rounds de cinco minutos e envergadura. O público cresceu. Os patrocinadores brigaram pelas cotas. Neste ano, a Fox e, há poucos dias, a TV Globo, compraram polpudos direitos de transmissão.

Mas a globalização é curiosa. Ao se evangelizar, a luta também se transformou. Hoje todos os competidores da UFC são atletas profissionais.

Treinam Jiu-jítsu à brasileira, mas também muay thai, kick boxing, pugilismo e wrestling. A arte brasileira que conquistou o mundo ainda é valorizada, mas parece não ser mais o diferencial no combate.

Os novos astros do octógono são os "strikers", golpistas, que desferem chutes e socos, com precisão mortal.

Na UFC Rio, quase todas as lutas terminaram em minutos, com uma saraivada de golpes, entre elas o embate que coroou o brasileiro Anderson Silva o novo ídolo da luta. Uma luta que Hélio Gracie alavancou, que deu a volta ao mundo e voltou ao país globalizado, quase irreconhecível.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC

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