A luta para afastar o machismo da eleição presidencial boliviana

CENÁRIO: Sara Shahriari / CSMonitor

O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2014 | 02h00

Às vésperas das eleições na Bolívia, temas levantados normalmente nos comícios como economia e desemprego foram debatidos juntamente com uma questão menos convencional no país: a segurança das mulheres. Declarações controvertidas envolvendo políticos dessa eleição, ao lado de uma série de assassinatos, estupros e raptos de mulheres no país, fizeram da violência contra as mulheres um problema prioritário.

No passado, o presidente reeleito, Evo Morales, foi muito criticado por fazer piadas machistas. Mas foram os candidatos rivais que trouxeram para primeiro plano o tema da violência contra as mulheres, que atinge mais de 50% das bolivianas.

Dois escândalos tomaram conta das manchetes dos jornais nos últimos meses, dando origem a uma onda de protestos e à campanha "Machistas fora da eleição".

Os primeiros protestos começaram em agosto quando o candidato ao Senado, Ciro Zabala, integrante do partido de Evo, foi questionado sobre os direitos das mulheres no âmbito do seu programa político. Zabala respondeu que as mulheres precisam ser educadas no sentido de evitar comportamentos que as tornam vítimas. Posteriormente o político pediu desculpas por usar uma "terminologia nociva".

Logo depois, foi divulgada uma gravação de áudio em que o candidato à presidência Samuel Doria Medina supostamente pedia à ex-parceira de um candidato do seu partido para solucionar em particular os conflitos com aquele candidato. A mulher disse que havia sido abusada fisicamente por ele. Doria Medina disse que a gravação tinha sido editada e se tratava de manobra política. O candidato em questão negou as acusações de abuso, mas se retirou da disputa menos de uma semana depois.

Há anos a população vem, aos poucos, se conscientizando da violência contra as mulheres. Mas as mudanças são lentas. O nível de violência contra as mulheres - evidente diante da sua frequência, com as manchetes horripilantes nos jornais abordando crimes como mulheres enterradas vivas por seus parceiros ou assassinadas e queimadas - ficou claro num estudo de 2013 da Organização Pan-Americana de Saúde e Centros de Prevenção e Controle de Doenças, segundo o qual mais da metade das mulheres bolivianas sofreu violência sexual doméstica. Isso em comparação com os 40% registrados no Peru e 26% em El Salvador. Dos 12 países latino-americanos e do Caribe pesquisados, a Bolívia foi considerada a nação mais violenta em relação às mulheres.

Uma lei foi criada em 2013 para combater o problema, estabelecendo penas mais severas para crimes contra as mulheres e a criação de uma força policial especial, mas não foi adotada. De acordo com ativistas, o financiamento e a vontade política para dar eficácia à lei ainda precisam se materializar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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