A luta pelo controle no Oriente

A disputa agora na região é entre a revolução (islâmica) e a contrarrevolução (militar)

Joschka Fischer / PROJECT SYNDICATE,

30 de agosto de 2013 | 02h18

As últimas ilusões sobre a que foi chamada até recentemente de "Primavera Árabe" podem ter se dissipado. O golpe militar no Egito deixou claras as alternativas, desanimadoras, que o país tem. Já não se trata mais de democracia contra ditadura, mas de revolução (islâmica) versus contrarrevolução (militar). Ou seja, ditadura ou ditadura.

Isso se aplica não só ao Egito, mas a praticamente todo o Oriente Médio. E como ambos os lados optaram pela luta armada, o resultado será a guerra civil, independente do que os bem intencionados chanceleres da União Europeia decidirem. Os islamistas não conseguirão vencer militarmente, do mesmo modo que os generais não sairão vitoriosos politicamente, o que só vai assegurar o retorno da ditadura, de uma grande violência e uma série de desastres humanos.

Para ambos os lados, a supremacia e o controle total é a única opção. Independente de quem assumir o controle, o autoritarismo e a estagnação econômica prevalecerão novamente.

No Egito o Exército será o vencedor, ao menos no médio prazo. Com o apoio das velhas elites, da classe média urbana e das minorias religiosas, os líderes militares egípcios adotaram a estratégia do tudo ou nada. Além disso, o apoio financeiro da Arábia Saudita e outros Estados do Golfo tornou o Exército imune à pressão externa.

Deste modo, o Egito está reconstruindo o cenário argelino. Em 1990, com a Frente de Salvação Islâmica a ponto de vencer as eleições gerais na Argélia, os militares deram um golpe e cancelaram o segundo turno da eleição. O que foi seguido por uma guerra civil que durou oito anos, travada por ambas partes com brutalidade espantosa, em que morreram 200 mil pessoas.

O governo militar continua de facto na Argélia até hoje. Mas, com o papel do islamismo político ainda sem resposta, nenhum dos problemas fundamentais do país foi resolvido seriamente e seus líderes têm se mostrado incapazes de tirar proveito das promissoras oportunidades (por exemplo, ao contrário do Egito, a Argélia tem enormes reservas de gás e petróleo).

No Egito, a geração mais velha da Irmandade Muçulmana já está habituada à prisão e à clandestinidade, mas há muitas razões para acreditar que os membros mais jovens responderão com atos terroristas e violência. Egito, Síria, Iêmen, Tunísia e em breve talvez outros países da região, se tornarão terreno fértil para uma nova Al-Qaeda, mais militarizada, que se tornará o fator mais poderoso na cacofonia de interesses e ideologias do Oriente Médio.

O Ocidente em geral, e os Estados Unidos em particular, têm pouca influência de fato. De modo que vão lamentar, ameaçar e deplorar os horrores que ocorrerão, mas no final se guiarão por seus interesses, não seus princípios. Por exemplo, o Egito, com seu controle do Canal de Suez e sua paz não tão estável com Israel, é muito importante estrategicamente para ser simplesmente abandonado.

Considerada isoladamente, a situação egípcia é muito ruim. Mas não é, absolutamente, um caso singular. Mais exatamente, ela se insere num drama regional caracterizado pela total desordem. A ordem no Oriente Médio mantida pelos EUA está desmoronando, mas nenhuma nova ordem está surgindo. Pelo contrário, o que existe é o caos que se propaga e ameaça avançar para além das fronteiras da região.

Após o espetacular fracasso do presidente George W. Bush, os EUA não estão mais dispostos, ou com capacidade, para arcar com o peso de ser a última força que resta para estabelecer a ordem no Oriente Médio. O que podemos aprender hoje com esta crise prolongada no Oriente Médio é que as potências regionais tentam cada vez mais substituir os EUA como força que impõe a ordem. Mas a luta pelo poder na região e seus antagonismos sectários e ideológicos também criam oportunidades para uma cooperação que era considerada impossível.

Uma dinâmica similar é evidente na história europeia, particularmente nas revoluções e contrarrevoluções dos séculos 19 e 20. E na verdade, o legado desta dinâmica só foi plenamente superado na Europa somente há duas décadas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É EX-MINISTRO DE RELAÇÕES EXTERIORES DA ALEMANHA

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