A luta por um novo Irã

As decisões que os EUA tomarem contribuirão para criar os contornos do futuro poder em Teerã

Ray Takeyh, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2010 | 00h00

A República Islâmica hoje chama a atenção fundamentalmente por seu desafio nuclear. Mas, por trás das inconclusivas reuniões de cúpula e das reivindicações arrogantes de poder econômico, permanece uma questão crítica: até que ponto o regime clerical do Irã pode ser considerado estável? Para muitos dos que participam dos círculos políticos de Washington, o opositor Movimento Verde já é uma lembrança quase apagada, uma onda de protesto contra as fraudes eleitorais suprimida pelo regime islâmico. Estes sentimentos não se coadunam com uma questão mais fundamental, ou seja, a avaliação da viabilidade de um movimento de oposição em um país cuja política se mostra tão ambígua.

A República Islâmica não é um Estado autoritário típico, mas um claro conceito ideológico. Tais regimes exigem um argumento para justificar sua repressão e suas intrometidas aventuras no exterior. Os guardiães do Estado teocrático podem cometer atrocidades, mas sempre o fazem em defesa da causa da história, pela realização de determinado ideal sublime. Nesse Estado, o funcionário uniformizado, os policiais à paisana e a Guarda Revolucionária exigem um arrogante disfarce ideológico a fim de justificar suas brutalidades para si próprios.

A vitória sutil e subversiva do Movimento Verde serviu para revelar do que se constitui esse Estado e demonstrar a seus partidários que não estão defendendo uma ortodoxia transcendental, mas homens cruéis e covardes que se agarram a todo custo ao poder. Segundo as palavras do clérigo reformista, o falecido aiatolá Hossein Montazeri, na violenta repressão que se seguiu às eleições de junho de 2009, a República Islâmica deixou de ser tanto islâmica quanto república. Desde as fraudulentas eleições presidenciais, um fluxo persistente de integrantes da elite do regime vem abandonando sua herança revolucionária e se distanciando do governo.

Os Verdes provaram que, no século 21, a tecnologia contribuiu em grande parte para minar estas pretensões absolutistas. As redes sociais favoreceram as comunidades que desafiam a superestrutura dos mulás e provocam atos de protesto. As façanhas do Movimento Verde são impressionantes: dividiu o Estado, venceu a discussão intelectual sobre o futuro do Irã e atraiu um grande segmento da população. Mas é importante salientar que não há garantias de que os Verdes venham a suceder aos autocratas teocráticos.

Embora a República Islâmica avance para o lixão da história, o futuro do Irã é ainda tema de debate e de luta. Na fase pós-República Islâmica, o Irã poderá degenerar em um período de prolongada violência e até mesmo separatismo étnico. Talvez surja uma nova ditadura, cujo poder poderá ter como base o chauvinismo persa e não na proposta islâmica. A série de decisões que os EUA e seus aliados tomam hoje contribuirá para condicionar os contornos do poder no Irã de amanhã.

Não sugerimos com isto que os EUA devam deixar de negociar com o Irã. Nossas escolhas representam nossos valores assim como os nossos interesses. Ao longo do tempo, os EUA nunca fracassaram por permanecer ao lado dos que anseiam por um futuro mais digno. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ANALISTA DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS

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