A luta sectária do Oriente Médio

Última coisa que região precisa é de uma maior intervenção dos Estados Unidos

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2014 | 02h06

Nos últimos meses, o Oriente Médio tornou-se um lugar muito mais violento do que já era. A guerra no Iraque é agora o segundo conflito mais sangrento do mundo, depois da Síria. Observando a sucessão de horrores, muitas pessoas nos Estados Unidos convenceram-se de que o que está acontecendo é culpa de Washington ou que, no mínimo, a estratégia "passiva" do governo Obama na região permitiu o crescimento da instabilidade. Na realidade, a última coisa que essa região precisa é de uma maior intervenção americana.

O Oriente Médio encontra-se hoje mergulhado numa luta sectária como as que se travaram entre católicos e protestantes na Europa, na época da Reforma. As raízes dessas tensões podem ser encontradas na história e na política.

Três fatores nos levaram a esse estado de coisas. Primeiramente, a formação dos países da região. O moderno Oriente Médio foi criado pelas potências colonialistas no fim da 1ª. Guerra. Esses países foram formados por grupos disparatados que não tinham em sua história a tradição de terem sido governados como uma entidade única.

As potências colonialistas escolheram em geral uma série de governantes pertencentes a um grupo minoritário, o que se mostrou uma estratégia hábil - um regime minoritário sempre precisa da ajuda de alguma força externa. Por isso, ao enfrentar uma revolta nacionalista na Síria, nos anos 30 e 40, os franceses recrutaram forças entre a minoria alauita, na época perseguida, que passou a dominar o Exército e particularmente a oficialidade do país.

O segundo fator foi a expansão do fundamentalismo islâmico. Suas causas são diversas - a ascensão da Arábia Saudita, a revolução iraniana e o descrédito da ocidentalização à medida que as repúblicas seculares se transformavam em ditaduras militares.

Os países mais importantes do Oriente Médio - o Egito de Gamal Abdel Nasser, por exemplo - não eram sectários. Na realidade, enfatizavam sua mentalidade secular. Mas, com o tempo, com o fracasso sucessivo desses regimes, passaram a buscar o apoio de determinadas tribos leais a eles.

O novo sectarismo reforçou os padrões de dominação existentes. Muitas vezes, ouve-se dizer que essas divergências entre sunitas e xiitas foram totalmente forjadas e antigamente esses povos viviam felizes. Esses comentários são quase sempre de sunitas, que julgavam seus irmãos xiitas, raramente vistos ou ouvidos nos corredores do poder, perfeitamente satisfeitos com sua posição de subordinação.

O terceiro fator envolve profundamente os Estados Unidos - a invasão do Iraque. Se houve uma única ação que acelerou os conflitos sectários no Oriente Médio nas últimas décadas, foi a decisão do governo de George W. Bush de derrubar o regime de Saddam Hussein, desmantelar todas as suas estruturas de poder e depois entregar o Estado iraquiano aos partidos religiosos xiitas.

Naqueles dias, o governo em Washington estava obcecado pela ideia de transformar o Oriente Médio e não prestou atenção nas dimensões sectárias do que isso estava desencadeando. Conheci o atual primeiro-ministro do Iraque, Nuri al-Maliki, em 2005, quando ele não ocupava nenhum cargo público.

Na época, eu o defini "um xiita da linha dura, intransigente em suas posições religiosas e com uma posição extremamente punitiva em relação aos sunitas". Também ficou claro que, tendo vivido no exílio na Síria e no Irã por quase 20 anos, Maliki estava bastante próximo dos dois regimes. Funcionários do governo Bush minimizaram esses temores e me afirmaram que Maliki acreditava na democracia e no pluralismo.

As consequências dessa política agora são evidentes. Os xiitas passaram a oprimir os sunitas - aparentemente com a bênção de Washington. Mais de 2 milhões de iraquianos - na maioria, sunitas e cristãos - fugiram do país. A minoria sunita no Iraque, que ainda tinha ilusões de poder, começou a revidar dando origem a um movimento de insurgência e então tornou-se mais radical e islamista. Essas tribos estão todas ligadas por vínculos de sangue e parentesco às tribos sunitas na vizinha Síria, e esses sunitas sírios se radicalizaram ao assistir à guerra civil iraquiana.

Quando a violência voltou a eclodir no Iraque, um grupo de funcionários do governo Bush declarou que, se os Estados Unidos tivessem mantido um envolvimento mais ativo no Iraque, tivessem alguns milhares de soldados no país, combatessem os militantes sunitas, pressionando ao mesmo tempo Maliki com mais energia, as coisas teriam tomado um rumo diferente.

Essa interpretação não só é equivocada quanto à natureza muito profunda do conflito no Oriente Médio, mas também não leva em conta que Washington, ao escolher um lado em lugar do outro, piorou consideravelmente a situação. Mais uma intervenção americana em um complexo conflito religioso e político só colocará mais lenha na fogueira do Oriente Médio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESPECIALISTA EM ORIENTE MÉDIO E ÁFRICA DO INSTITUTO DA PAZ DOS EUA

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