A mãe de todas as batalhas da Casa Rosada

Análise: Fabián Bosoer

É JORNALISTA, CIENTISTA POLÍTICO ARGENTINO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h47

O governo de Cristina Kirchner tem tudo pronto para lançar a "mãe de todas as batalhas", uma Tomada da Bastilha na área das comunicações, e quebrar a espinha dorsal do jornal Clarín, que tem o principal grupo de mídia do país. Para isso, ela usou todo o tipo de recurso, apelou ao Poder Judiciário e lançou uma campanha de perseguição que não tem precedentes em tempos democráticos. Por trás da estratégia está a intenção de criar uma hegemonia discursiva, acompanhada de um formidável aparato de difusão midiática inédita. Para descobrir algo similar no passado temos de retornar à expropriação do jornal La Prensa durante o primeiro governo peronista, em 1951, ou a intervenção dos canais de TV durante o terceiro mandado de Juan Perón e Isabelita, em 1974.

O governo tem atuado em todo o processo como juiz e parte. Por um lado, seu objetivo é que o Grupo Clarín acate o que estabelece a Lei de Mídia e se desfaça da sua parte dominante no mercado de TV a cabo. Por outro lado, apresenta a medida como o capítulo culminante de um triunfo da democracia sobre o mundo corporativo, mudando a relação entre sistema político e meios de comunicação.

Não está escrito que Cristina terá daqui para a frente a hegemonia da mídia. O Clarín, jornal de maior tiragem do país e com uma diversificação no campo da multimídia, continuará existindo. O governo não conseguirá evitar a prestação de contas e o desgaste de nove anos de administração, embora descarregue sua culpa no mensageiro, e os meios gráficos e audiovisuais continuarão expressando os contrastes de diversidade e homogeneidade, fragmentação e concentração que têm demonstrado nos últimos anos.

Mas há motivos para preocupação e alarme: desde a ratificação da Lei da Mídia, que chegou com a promessa de democratizar o espectro audiovisual, quase todos os novos meios que surgiram estão vinculados ao oficialismo e todos as transferências acionárias tiveram como compradores grupos próximos do governo. Assim, o direito à informação e o exercício do jornalismo crítico e de qualidade, não alinhado ou contrário aos interesses, pretensões e diretrizes do governo, serão mais difíceis na Argentina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.