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A máfia do Mediterrâneo

Toda a Europa continua a se interrogar sobre os milhares de imigrantes africanos que, semana após semana, vêm morrer nas costas da Sicília. 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2015 | 03h22

As reuniões de autoridades se multiplicam para colocar um freio nesse holocausto, mas os países europeus continuam impotentes. Ao término dos seus conclaves, as autoridades apenas afirmam que a única maneira é atacar as “redes” que organizam esse enorme crime. 

Essas redes são astutas, têm muita mobilidade, são imperceptíveis e sempre prontas a desaparecer para renascer em outro lugar. Mas um relatório da polícia italiana, depois de 14 meses de vigilância e escutas, trouxe algumas elucidações. Claro que é uma visão parcial.

Trata-se de uma única organização constituída na realidade por um emaranhado de redes, pois, em 2014, apenas 219.900 pessoas atravessaram o Mediterrâneo em barcaças primitivas. O trabalho da polícia italiana permite pelo menos compreender melhor a lógica do tráfico.

Duas conclusões: a primeira é que não existe improvisação. Estamos na presença de uma espécie de “multinacional” com representantes até nos Estados Unidos, por exemplo, para administrar o enorme fluxo financeiro. A segunda revelação é que as atividades da organização observada pela polícia italiana não se restringem à travessia do Mediterrâneo.

Tentáculos. A organização está articulada em quatro grupos: uma célula sudanesa, que recepciona os candidatos vindos da África Oriental e encaminha os migrantes para a Líbia. Um segundo grupo, na Líbia, controla o tráfico marítimo para a Sicília. Um terceiro ajuda os clandestinos a escaparem dos centros de recepção em que são retidos pela Itália e os encaminham para Roma. Enfim, uma quarta célula se encarrega de transportar os imigrantes para Suécia, Alemanha ou França.

Alguns detalhes eram, até agora, desconhecidos. Essa organização teria também um outro meio de recrutar clientes: uma equipe na Líbia ajudou detentos em prisões no país a escapar, corrompendo os guardas. Assim, segundo as contas da investigação, 40 mil euros foram pagos a policiais líbios para abrir as celas dos condenados.

O inquérito também se deteve sobre as transferências do enorme montante arrecadado pela organização clandestina. Não é um trabalho simples. Às vezes, ela utiliza canais financeiros honestos, ou seja, alguns paraísos fiscais. Em outras vezes, as somas são fragmentadas infinitamente. 

Na Itália, por exemplo, para dividir os valores entre a equipe siciliana e a de Milão, ao norte, o dinheiro é separado em múltiplos pagamentos minúsculos realizados com a ajuda de cartões pré-pagos. 

A dificuldade surge quando é necessário transferir grandes somas da África para a Europa. Nesse caso, os contrabandistas recorrem ao sistema do “hawala”. E o que é? Trata-se de um método célebre em textos árabes do século 8.º, que se baseia na confiança entre os intermediários financeiros. 

Uma maravilha da modernidade, melhor que o correio ou o telefone; é menos visível que o pagamento eletrônico. O dinheiro circula por linhas inexistentes. Nada de ordem de pagamento, nem recibos ou faturas, nada de confronto com a polícia alfandegária ou cambistas exasperantes. Nada circula. Mas esse nada equivale a milhões de dólares. Uma bela invenção no respeito à palavra dada, a honestidade... 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/Tradução de Terezinha Martino

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