A magia perdida de Obama

Presidente americano tenta equilibrar-se entre os sonhos vendidos na campanha eleitoral e a dura realidade das disputas políticas e econômicas em Washington

KLAUS BRINKBÄUMER, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Ele quer que tudo seja como era. Quer que seja tão inocente e apaixonante, tão honesto e ilimitado. Quer que seja tão cheio de promessas e da convicção de que tudo é possível na Terra da Oportunidade. Porque, como disse a seus apoiadores na época: "Nós somos aqueles pelos quais nós esperávamos." Foi um grito de mobilização tão poderoso e romântico que parecia um verso de uma boa canção.

Hoje, Barack Obama é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Na época, em 2008, ele era provavelmente o melhor candidato em campanha de todos os tempos. E agora ele está novamente na trilha da campanha.

Neste momento, está falando em Chicago, Filadélfia, Columbus e Ohio, espalhando a mensagem de que "eles" (os republicanos e seus doadores) querem "roubar" de nós (jovens americanos de mente aberta) o nosso futuro.

É como um adulto retornando aos lugares de sua mocidade: a piscina pública onde aprendeu a nadar, o cruzamento onde deu seu primeiro beijo. É uma viagem sentimental, e, ao mesmo tempo, uma admissão de que a juventude não dura para sempre.

Há encruzilhadas em cada vida, momentos decisivos. Depois, o que era realidade até um momento antes é apenas uma lembrança e o presente mudou. O político que um dia personificou uma ousada alternativa nova com seu icônico slogan "sim, nós podemos" provavelmente adoraria poder preservar seu triunfo tal como ele era e se deter no conforto daqueles primeiros dias inocentes. Mas isso não é possível. Carreiras políticas terminam em sucesso ou fracasso, mas não podem ser paradas.

O presidente Obama, que está no cargo há 21 meses, ficou grisalho durante sua estadia na Casa Branca. Ele ficou ainda mais magro e tenso do que já era. Está em campanha neste mês porque precisa.

Está fazendo campanha para aqueles candidatos democratas que ainda têm uma chance nas eleições de meio de mandato do dia 2. Para Obama ter alguma chance de aprovar leis nos próximos dois anos, seus colegas democratas precisam defender sua maioria no Senado e na Câmara. Nas duas últimas semanas antes das eleições, Obama precisa reverter todas as tendências e posições ruins nas pesquisas de opinião. Para isso, precisa criar a ilusão de que é realmente possível reclamar sua juventude e seus sonhos, e erros podem ser corrigidos - mesmo o grande erro isolado que mudou tudo.

Fraqueza aparente. Obama não é um mau presidente. Ele é extremamente eloquente e com certeza não perdeu nenhum de seus talentos desde que se mudou para o Salão Oval. Um senador que certa vez perdeu uma eleição para Obama diz que o presidente precisa de opiniões divergentes e é confiável, divertido e trabalha melhor sob pressão.

Ela não é tampouco um presidente fraco. Começou a retirar as tropas americanas do Iraque. Conseguiu fortalecer suas alianças. E lidou com a crise econômica global com um pacote de estímulo de US$ 800 bilhões e uma reforma dos mercados financeiros. Suas políticas de educação têm como alvo o desempenho e procuram melhorar o desastrosamente sub-financiado sistema de ensino público. Milhões de americanos vinham sonhando com uma reforma do sistema de saúde por décadas. Bill Clinton não conseguiu sua aprovação no Congresso; Obama, sim.

Por que, então, parece que o povo americano preferiria criar um impasse entre a Casa Branca e as duas Casas do Congresso, e com isso assegurar sua própria ingovernabilidade, em vez de dar um pouco mais de tempo ao presidente? Por que os Estados Unidos estão novamente se inclinando para os tipos de republicanos que têm pouco a oferecer além de cortes de impostos e deixaram a Obama um legado de duas guerras e uma crise econômica? Porque Obama não é tão bom quanto gostaria de ser.

"Sim, nós podemos" foi imensurável e profundo, um momento de êxtase político. Foi um movimento, e um movimento jovem, ademais. De lá para cá, um qualificador surgiu: às vezes. Às vezes nós podemos, às vezes não podemos. Essa é a realidade política. Esse é o Obama adulto, com suas deficiências e fraquezas.

E foram muitas as fraquezas. Obama permitiu que o Congresso negociasse os detalhes de sua reforma da saúde enquanto ele deliberadamente se refreava. O que surgiu daí foi uma reforma meia-boca, que é complexa e é na verdade uma reforma do sistema do seguro-saúde. Mas, para conseguir essa reforma, Obama gastou seu capital político, a única janela de oportunidade que cada novo presidente consegue.

Não teriam havido questões mais urgentes que poderiam ter sido tratadas por ele, como uma reforma energética, por exemplo, que teria provocado uma verdadeira mudança de direção e teriam significado uma reeducação do consumidor americano? E o que dizer do mercado de trabalho? Obama admite que subestimou o problema do desemprego, que paira acima de 9%. Ele também sabe que se dispôs a ser retratado como mais um democrata propenso a grandes gastos que distribui alegremente dólares de impostos.

Durante a campanha presidencial, ele controlou magistralmente sua imagem pública. Mas no cargo tem enviado alguns sinais muito estranhos. Quando o vazamento de petróleo da British Petroleum (BP) estava poluindo o Golfo do México, sua mulher e a filha mais nova foram para a Espanha, enquanto o presidente jogava basquete com amigos. Isso passou a impressão de que Obama fazia parte de um grupo de homens esportivos despreocupados que se divertia enquanto o país sofria.

"Obamalândia" desunida. Geralmente, a equipe do presidente parece sólida. Ela está cheia de pessoas inteligentes que começam a trabalhar às 6 horas e vão para casa às 23 horas. Mas a Obamalândia não é mais o lugar coeso que era durante a eleição presidencial, quando todos estavam unidos em torno da mesma visão. Seguidores decepcionados estão de saída, funcionários exaustos vão sair após as eleições intermediárias e os fracos estão sendo postos de lado. E quando pessoas falam do estado de espírito em 2008, elas parecem ex-colegas numa reunião na escola 20 anos depois: lembram quando ainda éramos jovens? Obama fez pouco para os afro-americanos, e nada para os homossexuais.

Por conseguinte, perdeu eleitores à esquerda. Foi inevitável, claro. Qualquer eleito nos EUA se desloca para o centro quando assume o cargo. Mas, o fato de que o presidente conseguiu perder o apoio desse centro também foi um resultado notável.

Pode ser perfeitamente possível que os Estados Unidos não possam sair do Afeganistão, mas nenhum americano entende mais essa guerra. Já faz tempo que o conflito deixou de ser a guerra do ex-presidente George W. Bush; ela é agora a guerra de Obama. Pior ainda, ela inevitavelmente terminará com uma retirada inglória.

Por que, então, os EUA deveriam enviar mais soldados? Por que gastar US$ 100 bilhões por ano numa guerra quando estações de trem e escolas em casa estão caindo aos pedaços, e o dinheiro seria melhor utilizado em outros projetos e pesquisas de americanos? O Congresso se recusa a aprovar gastos extras para renovar a América: o dinheiro já foi gasto.

Quando Obama assumiu o cargo, o país ansiava por perfeição. Mas seu governo está longe de ser perfeito. Não chega nem perto disso.

No entanto, o mais estarrecedor ainda, o mais chocante em tantos níveis, é o estado da nação - a estupidez política de Estados federais e sistemas inteiros que parecem inclinados à autodestruição. A Europa e os Estados Unidos estão mais distantes do que muitos europeus pensam.

Os Estados Unidos são diferentes. Total e absolutamente diferentes. Os americanos têm uma compreensão inteiramente distinta dos europeus de solidariedade social e deveres do Estado. Mas há também contradições.

Milhões de americanos querem reduzir o poder do governo, porque seus concidadãos sempre pensaram assim. Mas esses mesmos americanos querem que seu presidente tire o povo da crise. Querem estações ferroviárias, escolas e energia limpa, mas não querem pagar impostos. Eles são descendentes de imigrantes, e se orgulham disso. Mas se opõem à imigração.

Décadas de prosperidade fizeram dos Estados Unidos um país letárgico. E, ao contrário dos europeus, cujas vidas e países foram moldados pela guerra, os americanos estão acostumados a se sentirem únicos e invulneráveis.

Portanto, reagem de uma maneira quase paranoica a uma China poderosa ou a um presidente negro. Os americanos sabem que precisam mudar, mas temem a mudança. Atitudes como essas podem ser chamadas de esquizofrênicas. Elas certamente são uma receita para a histeria.

Mercadores de ódio. Os manifestantes alemães conservadores, mais velhos, que recentemente foram às ruas para protestar contra o polêmico projeto de estação ferroviária "Stuttgart 21" são o produto da mudança demográfica e de seus medos. Mas, apesar dos choques com a polícia, os manifestantes alemães parecem absolutamente inofensivos se comparados aos fomentadores de ódio, fanáticos por armas e demagogos do (grupo conservador) Tea Party que primeiro comparam Obama com Hitler e dez minutos depois com Stalin.

São pessoas tão cheias de veneno que não conseguem mais pensar direito - pessoas como apresentador de televisão Glenn Beck, para quem colocar o bem comum em primeiro lugar é "exatamente o tipo de conversa que levou aos campos de extermínio na Alemanha". Beck tem milhões de seguidores e aparece em público com a ex-governadora do Alasca e ex-candidata republicana à vice-presidência Sarah Palin, a queridinha do movimento Tea Party, que prazerosamente pronuncia o nome do meio de Obama, Hussein, como se fosse uma palavra perversa e ameaçadora. Há apenas dois anos, coisas assim teriam sido tabu e consideradas golpe baixo por republicanos.

Essa é a nova atmosfera nos EUA, e ela está refletida no Senado e na Câmara, dois organismos autoconfiantes habitados por dois partidos políticos que se revezam nas rédeas do poder. Eles se paralisam com regras que exigem maiorias inatingíveis para tudo que é importante. E mesmo a Constituição irrevogavelmente decreta que um senador do pouco populoso Alasca tem os mesmos direitos de um senador de Nova York.

A mídia alemã alterna numa base diária entre falar da "vitória de Obama" e chamá-lo de "perdedor". Mas, no geral, nenhuma das duas visões é precisa porque o presidente tem pouca ou nenhuma influência no que é feito, ou não, nos Estados Unidos e em seus 50 Estados.

Gritos de ódio. Evidentemente, a mídia americana é em grande parte responsável pela impressão que o povo tem do presidente Obama e também do estado do país como um todo. A Fox News, o canal noticioso de TV de Rupert Murdoch, especializou-se em difamação partidária. Quatro dos potenciais futuros candidatos presidenciais republicanos estão na folha de pagamentos da Fox.

Os canais liberais são apenas diferentes - já não são melhores. A CNN atrofiou-se, transformando-se num púlpito para apresentadores jornalistas. Não há mais análises e notícias na TV americana, somente ataques polêmicos e gritaria apresentados em blocos de 90 segundos.

Somente os grandes jornais ainda oferecem análises inteligentes por pessoas como o perspicaz e equilibrado colunista David Brooks do New York Times. Infelizmente, a América de Obama está tão polarizada que as opiniões de Brooks e afins só são lidas nas costas leste e oeste, por isso influenciam pouco.

Muito mais altos são os gritos de ódio de brancos mais velhos.

No entanto, pesquisas mostram que os jovens estão, em geral, satisfeitos com a direção que o país está tomando. Ou melhor, eles tendem a ser indiferentes. Eles são a próxima geração, que tira uma visão benevolente dos adultos bacanas, de seu presidente bacana e de suas histórias bárbaras sobre 2008. Os que odeiam, por sua vez, vão votar em novembro.

Sonhos perdidos. Agora, eles estão chamando Obama de "fracote". Mas isso não é justo.

O presidente americano naturalmente reage de uma maneira mais madura, mais adulta que seu antecessor, Bush. O problema é simplesmente que Obama é menor que a promessa que ele mesmo fez. E ele é minúsculo em comparação com as esperanças que uma nação inteira depositou nele nas eleições de 2008. Há ainda uma coisa que ele deixou de fazer. E esse foi seu verdadeiro fracasso, foi o grande erro que ele cometeu, justamente quando tudo parecia possível.

Obama tinha um mandato. Ele prometeu mudar a América, mudar Washington e mudar o país. Ele disse que cada um teria de investir alguma coisa e dar alguma coisa. Disse que cada um teria de arregaçar as mangas e trabalhar duro. Mas mesmo assim 69 milhões de americanos votaram nele. Aliás, eles o elegeram precisamente por essa razão.

Mas, aí, Obama foi como um formando de colegial que falava de querer velejar pelo mundo, se tornar um escritor ou um presidente. Em vez disso, o sonhador começou a trabalhar como trainee de bancário. Agora ele se tornou um gerente de banco. Não é com certeza um cargo ruim, e ele está se saindo muito bem. Mas, de vez em quando, ele se lembra de quem era e de seu sonho de prolongar a juventude. Ele sabe que seria difícil, mas podia ao menos fazer uma tentativa. Ocorre que ele nem mesmo tentou. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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