Peter Macdiarmid/AP
Peter Macdiarmid/AP

A maioria silenciosa atrás das cortinas da Grã-Bretanha

Eleitores 'invisíveis' para as pesquisas, mais uma vez, ajudam os conservadores a surpreender em uma eleição

O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2015 | 02h01

"Tenho a sensação esquisita de que há uma maioria silenciosa escondida atrás das cortinas de suas casas, esperando a hora de sair e votar nos conservadores." A frase não foi dita por um assessor da campanha de Ed Miliband, assolado por uma repentina onda de maus presságios, mas pela ministra trabalhista Barbara Castle, às vésperas das eleições de 1970.

Naquela altura, todas as pesquisas indicavam uma vitória folgada dos trabalhistas, liderados pelo então primeiro-ministro Harold Wilson. Mas, como Castle desconfiava, o resultado foi uma vitória folgada do Partido Conservador, de Edward Heath. Mais uma vez, portanto, as pesquisas eleitorais subestimaram o voto conservador. Todos os levantamentos apontavam para um empate entre conservadores e trabalhistas, que, em razão disso, seriam obrigados a costurar coalizões partidárias para tentar formar um governo. O resultado, no entanto, foi uma maioria - ainda que pequena - para o Partido Conservador.

Em 1992, aconteceu algo parecido. A maioria dos institutos previa que os conservadores, liderados pelo primeiro-ministro John Major, seriam derrotados - e por uma boa margem de votos, diziam as pesquisas de boca de urna. O fato, porém, é que Major saiu das eleições com uma maioria de 21 cadeiras, depois de receber 14 milhões de votos, o maior eleitorado conquistado por um partido em toda a história política da Grã-Bretanha.

Como o vilão Auric Goldfinger diz para James Bond no clássico de Ian Fleming: "Em Chicago, eles têm um ditado: a primeira vez é acaso; a segunda, coincidência; a terceira, obra do inimigo". De fato, parece que as vitórias "sorrateiras" que volta e meia os conservadores conquistam agora terão de ser levadas bem mais a sério pelos institutos de pesquisa, pelos especialistas e, sobretudo, pelos adversários dos conservadores.

A "maioria silenciosa", expressão que Richard Nixon cunhou com o intuito de mobilizar suas bases eleitorais antes de vencer a eleição presidencial de 1968, nos Estados Unidos, parece operar na Grã-Bretanha em favor da prudência e de um conservadorismo (com "c" minúsculo). Foram esses os valores que Cameron enfatizou em sua campanha, como também fez Major em 1992. O público-alvo dessas mensagens não vai a comícios, não escreve cartas para os jornais, não tem blogs e não usa o Twitter, o que dificulta o registro de suas opiniões.

Ao longo de várias décadas, tem sido quase impossível para os institutos de pesquisa aferir o voto dessa fatia do eleitorado, mesmo que depois do fiasco de 1992 seus métodos tenham sido alterados para tentar captar a opinião desses "conservadores tímidos", como eles às vezes são chamados.

Os instrumentos de aferição certamente passarão por uma nova reavaliação. Quanto aos adversários dos conservadores, só lhes resta começar a autocrítica. Tony Blair, líder do Partido Trabalhista entre 1994 e 2007, era um dos poucos que nunca subestimavam a maioria silenciosa. Mostrando-se receptivo a seus valores e preocupações, ele obteve três vitórias eleitorais arrasadoras. Para sua infelicidade, Miliband preferiu ignorá-la. A diferença entre as duas abordagens estará no centro do debate interno em que os trabalhistas devem embarcar agora, ao iniciar a escolha do líder que sucederá a Miliband.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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