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Gilles Lapouge
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A mais poderosa do mundo

No início, ninguém a conhecia. Em 2005, aos 51 anos, tornou-se chanceler da Alemanha e procuramos ver o que havia nessa mulher tão comum a ponto de ser invisível: um estranho corte Chanel com franja, cabelos loiros e dispersos, olhar tranquilo, uma saia e um tailleur.

Gilles Lapouge,

15 Setembro 2013 | 02h07

Entendemos porque o ex-chanceler Helmut Kohl, que foi o seu mentor, contemplando-a do alto da sua enorme estatura, chamava-a de "das madchen" , a garotinha. Alguns anos depois Kohl desapareceu de cena e "a garotinha" era "a mulher mais poderosa do mundo, de acordo com a revista Forbes.

Hoje Angela Merkel ambiciona um terceiro mandato. A aparência continua a mesma. Os olhos um pouco mais caídos, mas ainda vivazes, expressão mais descontraída. Os cabelos? Estão mais elaborados, parecendo um capacete ondulado ou encrespado. Estranho.

O guarda-roupa evoluiu: no lugar do tailleur, passou a usar terninhos com três botões e há alguns meses com cinco, mas três ou cinco botões, isso não muda nada. Como engordou, seus trajes parecem um pouco justos. Mas ela não se importa. Era uma pessoa simples e continua a mesma. Sua celebridade e seu poder nutrem-se desta simplicidade.

Aliás, esta mulher se empanturra de simplicidade. Aos sábados às pessoas se deparam em algum supermercado de Berlim com a senhora comum contemplando as gôndolas de "queijos franceses" ou de embutidos. Ninguém a incomoda. As pessoas a respeitam. Aos domingos vai com seu segundo marido, Joachim Sauer, químico (seu primeiro marido era físico, o que não muda muito), para sua casa de campo perto de Tremplin, povoado situado na antiga Alemanha Oriental onde Angela foi uma estudante dotada, quando preparava sua tese de Física, cujo título dá vertigens: "Estudo do mecanismo das reações de decomposição com ruptura da ligação simples e o cálculos de suas constantes de velocidade tendo como base a química quântica".

Algumas vezes ela tira férias com seu marido e vai para a Ischia, Itália, ou para a montanha, mas ninguém sabe exatamente onde. Um jornalista conseguiu elevar uma ponta do véu. A chanceler toma vinho branco italiano em vez de cerveja.

Esta é a mulher que pretende um terceiro mandato como chanceler da Alemanha. E que no início não tinha muitos trunfos. Nasceu em Hamburgo, do lado ocidental, a mãe professora e seu pai, pastor, foi transferido para a Alemanha Oriental e Angela cresceu na antiga RDA comunista.

Passou a juventude sob a dura religião luterana e a atmosfera cinzenta soviética. Mas a menina parece feliz. Brilha na escola. Fala um inglês perfeito e domina a língua russa. E a química.

Quanto à política não parece interessada. No dia da queda do Muro de Berlim, Angela foi à sauna, como sempre. À tarde, como suas colegas, circula por Berlim Ocidental e volta para casa. E logo depois ingressa no partido CDU (democratas-cristãos). Um ano mais tarde, elege-se deputada no Bundestag, o Parlamento alemão. O gigante Kohl observa-a e faz dela ministra. Os arrogantes políticos da Alemanha, machistas e protetores, a apelidam de "Mauerbluemchen" (aquela que toma chá de cadeira nos bailes).

Mas ela entra na dança, mesmo precisando dar de encontro com os belos dançarinos. E mesmo seu chefe. Em 1999 seu partido é maculado por um caso vergonhoso de "caixa 2". Kohl vacila. A "garotinha" publica no Frankfurter Algemeine Zeitung um artigo demolidor e Helmut Kohl cai. E ela? Bem, ela "matou o pai", como diria Freud.

E em seguida desbanca o presidente da CDU, Wolfgang Schaeuble, que, anos depois, se tornará um dos seus ministros, pois ela não é pessoa rancorosa. Mas não era apenas a CDU. Havia também os social-democratas (SPD), cujo chefe Gerhard Schroeder é um político brilhante, vaidoso, eficiente. Além disso, um orador excepcional. Nas eleições de 2005 ele deveria derrotar essa mulher comum, insignificante, sem brilho e nenhuma eloquência. Resultado: Angela esmaga o belo Schroeder. A "jovem que tomava chá de cadeira" agora dirige o baile. Ei-la dirigente da Alemanha.

Os alemães apreciam muito a sua Angela, mas encontraram um novo nome para ela. "Merkiavel" (alusão a Maquiavel, italiano da Renascença que foi um genial teórico do cinismo político). Ela não merece este apelido. Não é uma pessoa pérfida, perversa e nem terrível (como foi Margaret Thatcher). Ela é apenas uma "profissional".

Gerhard Schroeder, socialista mirabolante derrotado por Merkel costumava contar esta piada: "como os porcos-espinhos fazem amor?". E respondia: "Prudentemente".

Merkel é como um porco-espinho. Sua lentidão, sua prudência, são de espantar. Seu melhor aliado é o tempo. Jamais reage de imediato. Ela avalia, dá voltas, espera.

Os outros lutam como cães para chegar à frente. Merkel é silêncio total. Mas depois ataca. Há uma fábula de La Fontaine, A lebre e a tartaruga em que ele conta como a lebre é rápida, mas desmiolada e, na corrida, quem vence é a tartaruga.

La Fontaine tem razão: as tartarugas são muito inteligentes. Certamente conseguiriam elaborar belas teses de química quântica.

Mas Angela não foi sempre tão controlada; jovem ministra debulhou-se em lágrimas durante um debate no Bundestag. Foi a última vez. Depois disto, tornou-se impenetrável. No início procurou usar da feminilidade. Certa vez, na Noruega, na Ópera, apareceu com um vestido deslumbrante e decotado. Mas essa fase acabou.

Angela entende-se bem com as mulheres. Com os homens também, mas os leva com "rédea curta". "Não sou vaidosa, mas sei utilizar a vaidade dos outros - enfim, a vaidade dos homens." Às vezes ela se abre com as amigas. A uma delas, disse um dia: "Deixar-me subestimar, é minha arma fatal".

Angela também tem sangue-frio. Em 2009, uma marca de roupas íntimas colocou um cartaz de publicidade de 100 metros quadrados com uma ilustração mostrando a chanceler de calcinha e sutiã. Ridículo total.

Uma outra pessoa teria esbravejado. Ela não disse uma palavra.

Recentemente foram publicadas fotos suas completamente nua, quando ainda adolescente na RDA, onde o naturismo era prática comum.

E ela tem uma outra força: estrategista fora do comum, possui uma tática precisa e astuta, desconfia das grandes ideias, das vastas filosofias (Fichte, Hegel, Marcuse) que constituem uma das especialidades da cultura alemã, e também não foi picada pelo "romantismo" que, com Goethe, Hoelderlin ou Novalis, deu seus maiores poetas à Europa. Realista. Pragmática. Fria. Não será ela que, em algum debate nacional ou internacional, falará de "choque de civilizações", da "cor trágica da História" e utilizará estas grandes fórmulas sonoras que, na verdade, que são apenas palavras ocas e obscuras.

Neste sentido Angela é conforme o espírito coletivo das gerações alemãs do pós-guerra que, traumatizados pela abominação nazista, rechaçam a ideia de a poderosa Alemanha de hoje voltar a ser uma "nação dominante". Ela quer que seu país seja o primeiro no cenário econômico. Mas não no campo militar. E recusou-se a ir à Líbia com seus aliados franceses, ingleses, americanos. E não irá à Síria. Os alemães não querem mais saber de guerra.

Num único ponto ela deixa de ser uma pessoa impassível: quanto ao nazismo. Há alguns anos o papa Bento XVI teve a estranha ideia de "reabilitar" um bispo negacionista (ou seja, que negou a existência das câmaras de gás na Alemanha nazista). Angela Merkel bradou como o diabo.Bento XVI não voltou mais ao assunto. A garota que cresceu no Leste comunista e é uma protestante luterana, permitiu-se dar uma lição ao chefe da Igreja Católica. Os quadros do partido, a CDU, no geral católicos, estremeceram. Merkel não os levou em conta. Para ela o horror nazista é um dogma. Ela não transige.

Só podemos admirar este talento político, esta força humana, esta ausência, tão rara entre as "estrelas", de vaidade, a maneira como ela soube proteger a Alemanha contra a crise que tomou conta da Europa (é preciso dizer que o fez com a ajuda involuntária de Gerhard Schroeder que ela derrotou pois foi ele que, às vésperas da sua queda, adotou medidas muito impopulares para colocar a máquina alemã nos trilhos". Só podemos admitir o talento e a energia desta mulher. Mas o fato é que ela não veio à terra para nos fazer sonhar, e tampouco o povo alemão. Mas uma pergunta deve ser feita: essa formidável mulher é ligeiramente ou profundamente enfadonha? Há alguns anos ela ganhou um novo apelido, "Mutti" (mamãe). Um novo apelido, mas não com o objetivo de enfraquecê-la ou ridicularizá-la.

Em alguns anos, Angela Merkel passou da condição de "garotinha" para o de "mãe". Isto ocorre com muitas mulheres. Simplesmente, esta mulher que não tem filhos tornou-se pela sua verve política a mãe de um país inteiro, a Alemanha. Além do que, esta "mãe" é a mulher mais poderosa do seu tempo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É correspondente em Paris

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