A maneira certa de os turcos intervirem na Síria

Cenário: Soner Cagaptay / NYT

O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2012 | 03h03

A Turquia foi o primeiro país e adotar uma ação militar direta contra o governo de Bashar Assad desde que as revoltas começaram na primavera de 2011. Os bombardeios ao longo da fronteira entre os dois países aumentaram de modo crítico. O regime sírio já está muito ativo combatendo o Exército Sírio Livre próximo à fronteira turca, onde tem bombardeado cidades e vilarejos.

Enquanto bombas sírias continuarem a cair em solo turco, a Turquia responderá da mesma maneira. Como afirmou o premiê turco Recep Tayyip Erdogan, "embora a Turquia não queira a guerra, está perto de travar uma". Se a situação continuar se deteriorando, a história da Turquia sugere que o país seguirá um desses três caminhos: continuará com bombardeios não intensos, empreenderá ataques através da fronteira ou decidirá por uma invasão de fato.

A primeira reação de Ancara será continuar com os bombardeiros na fronteira cada vez que a Síria atingir a Turquia. O que pode enfraquecer as forças do governo sírio em algumas áreas próximas da fronteira turca, permitindo que o Exército Sírio Livre ocupe o espaço vazio.

Na segunda hipótese, a Turquia combinaria os bombardeios com ataques surpresa. A estratégia da Turquia, afinal, não envolve apenas a Síria. Ela também envolve o PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão e seu afiliado sírio, o PYD. Se Ancara entender que militantes curdos estão usando a Síria como campo de operações para atacar a Turquia, o Exército turco atacará decisivamente, como o fez contra os curdos no norte do Iraque.

Finalmente, se as coisas piorarem ao longo da fronteira, a Turquia poderá ser mais agressiva, realizando uma invasão limitada para conter a crise, como ocorreu no Chipre nos anos 70. Naquela ocasião, Ancara esperou que EUA e comunidade internacional viessem em seu apoio. Quando tal ajuda não se materializou, a Turquia assumiu o problema sozinha e enviou soldados.

Uma situação similar à do Chipre é o que a Turquia menos deseja. Uma guerra total não é do seu interesse, especialmente se o país iniciar um conflito sem apoio americano Uma guerra unilateral contra Assad também pode irritar os EUA e enfurecer Rússia e Irã.

Uma ação como a empreendida no norte do Iraque não despertará necessariamente a ira dos EUA, mas pode expor a Turquia a novos ataques do PKK, com possível apoio do Irã. Teerã já estaria incentivando o PKK a atacar a Turquia pela posição que assumiu contra a Síria.

A Síria está numa situação muito semelhante à da Bósnia nos anos 90. Enquanto o mundo não agia para pôr fim ao massacre de muçulmanos, jihadistas se juntaram aos combates e procuraram convencer os bósnios de que o mundo os havia abandonado. Na Bósnia a comunidade internacional interveio antes que fosse tarde demais. Se a crise na Síria chegar ao extremo, a tarefa de normalizar a situação será árdua. O Afeganistão é um exemplo emblemático.

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