REUTERS/Aziz Taher
REUTERS/Aziz Taher

A mão saudita na renúncia do premiê libanês

Com Hariri fora do caminho, Riad pode agora denunciar o governo do Líbano como marionete do Irã

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2017 | 05h00

Como se mexer num governo fosse uma tarefa muito fácil, o ambicioso jovem príncipe da Arábia Saudita Mohammed Bin Salman interveio em dois.

No sábado, mesmo dia de um expurgo realizado no governo saudita, o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, apareceu inesperadamente na televisão para anunciar sua saída do cargo. 

Embora afirmasse que estava renunciando porque sua vida estava em perigo – denunciou o Irã e seu poderoso aliado libanês, o Hezbollah –, podia-se ver a mão saudita na sua declaração. O anúncio foi gravado em Riad, capital da Arábia Saudita, e levado ao ar por um canal de TV saudita. Desde então ele está incomunicável, sob guarda saudita, e provavelmente preso.

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Alguns dias antes, o ministro encarregado de assuntos do Golfo, Thamer al-Sabhan, havia prometido ações “assombrosas” para derrubar o Hezbollah, partido político e milícia xiita que dá as cartas no Líbano.

À primeira vista, o desejo da Arábia Saudita de remover Hariri, sunita de origem saudita, não faz muito sentido. O reino e os EUA sempre o apoiaram, considerando-o um baluarte contra o Hezbollah. Após tomar posse, em dezembro, Hariri conseguiu aprovar o primeiro orçamento para o Líbano desde 2005 e obteve um acordo para a realização das primeiras eleições parlamentares desde o mesmo ano. O turismo no país vem se recuperando e há a perspectiva de acordos envolvendo projetos petrolíferos offshore.

Com Hariri fora do caminho, a Arábia Saudita pode agora denunciar o governo do Líbano como marionete do Irã e seu agente xiita na região. E pode ter razão. O acordo de Taif que pôs fim à longa guerra civil, em 1989, estabeleceu o desarme de todas as milícias sectárias, exceto o Hezbollah. O que se justificava quando o grupo lutava contra a ocupação israelense de sua autodeclarada “zona de segurança” no sul do Líbano. Mas desde que Israel retirou suas tropas, em 2000, o grupo torpedeou todas as tentativas militares e políticas para depor suas armas.

Rafik Hariri, pai de Saad, um primeiro-ministro popular, foi assassinado em 2005 quando tentou desarmar o Hezbollah. Vários membros do grupo estão sendo julgados pelo Tribunal de Haia, acusados de envolvimento em seu assassinato. E os esforços de Israel para fragilizar o grupo durante uma breve guerra em 2006 acabaram num beco sem saída. Desde então o grupo estendeu, e muito, suas fronteiras ao sul do país. Em 2008, suas milícias controlaram por um curto período a capital libanesa, Beirute. Milhares de combatentes vindos de suas fileiras lutaram contra os rebeldes sunitas na Síria. 

E retornaram mais aguerridos. No início deste ano, derrotaram os jihadistas que haviam içado a bandeira negra do Estado Islâmico em seus acampamentos em áreas sunitas no norte montanhoso do Líbano. Hoje é a bandeira vermelha e amarela do Hezbollah que tremula nos postos de controle das estradas que ligam os vilarejos sunitas. Seus agentes secretos prendem dissidentes e seus combatentes trabalham estreitamente com o Exército libanês, supostamente neutro. Nenhuma força – nem mesmo o Exército – possui tanta influência.

O plano saudita de remover o Hezbollah, entretanto, parece mais uma bravata. O reino já está atolado em outra guerra com partidários do Irã que lutam em seu nome no Iêmen e não consegue sustentar mais uma. E Israel, apesar dos temores sobre o crescente arsenal de foguetes e mísseis do Hezbollah, não lutará seguindo um cronograma saudita.

Mas a Arábia Saudita possui outra carta na manga. Sem seu apoio financeiro, o Líbano não conseguirá evitar uma bancarrota. Os depósitos sauditas escoram os bancos libaneses e 400 mil cidadãos libaneses trabalham no Golfo, cujas remessas em dinheiro para casa representam 20% da economia do país. 

A renúncia de Hariri já provocou um forte aumento dos títulos libaneses e levou a alertas de um corte na sua classificação de crédito. Sanções financeiras impostas pelos EUA contra o Hezbollah, em outubro, aumentarão o aperto. Uma conferência de doadores para assistência a 1,5 milhão de refugiados que se realizaria antes do final do ano poderá ser adiada. 

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, não é um indivíduo que se dobra à pressão. Mas poderá ser forçado a um acordo para salvar a economia. Os sauditas esperam que a pressão popular o obrigue a priorizar a estabilidade financeira frente às armas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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