A maravilhosa minoria dos vivos

Linha separa os que olham além das feridas da História e os incapazes de desvencilhar-se das garras dos mortos

ROGER COHEN, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Em seu romance Um homem singular, Christopher Isherwood fala da "maravilhosa minoria, os vivos". Sim, memento mori (lembra-te que um dia morrerás), nós somos uma minoria. Isherwood continua: "Elas não sabem como têm sorte, essas pessoas na calçada, mas George sabe - pelo menos por um instante - porque acaba de voltar da presença gélida da maioria, da qual Doris logo fará parte". Doris está morrendo num leito de hospital. Ao deixá-la, o protagonista de Isherwood enche-se de euforia. "Eu estou vivo, diz para si, eu estou vivo!" E a energia da vida flui cálida pelo seu ser, o prazer, o apetite."

A questão é esta: a minoria dos vivos, apenas 6,7 bilhões de pessoas num planeta frágil, e a maioria dos mortos, um sem número, estendidos num espaço mais vasto do que a mais gelada estepe. Você escolhe a minoria ou a maioria? Por qual lado você batalha?

Estas perguntas podem parecer estranhas. Mas há uma clara linha de demarcação que separa os que são capazes de olhar para frente, até mesmo além das feridas da História, e os que são incapazes de desvencilhar-se das garras dos mortos. Yehuda Amichai, o grande poeta israelense, falando certa ocasião de Jerusalém observou que ela é "a única cidade do mundo em que o direito de votar é concedido até aos mortos". O Oriente Médio tem orgulho do lugar numa mórbida retrospectiva.

Antes de deixar a Europa para morar nos Estados Unidos, passei vários anos em lugares obcecados pelo passado - os Bálcãs e Berlim. Durante as guerras na Iugoslávia, vidas e lugares foram devastados pelo abuso da memória.

Um passado de perseguição e de perda foi a arma escolhida pelos líderes nacionalistas propensos à violência. E a arma mostrou-se poderosa - custou mais de 100 mil vidas. Aprendi algumas coisas a respeito de cadáveres e de aguardente de ameixa. A primeira foi como a vitimização pode cegar: a vítima histórica - o sérvio neste caso - não consegue enxergar quando se torna o principal perpetrador da violência.

A segunda foi que nada forja a identidade nacional - os muçulmanos bósnios, no caso - mais rapidamente do que a perseguição. A terceira foi que os argumentos para concluir quem chegou primeiro à terra, ou a "realidade" da identidade nacional, nunca poderão ser definidos: eles são a matéria-prima do mito. A única questão relevante é se será ou não preciso deixar de lado os argumentos no interesse de um futuro melhor.

Como Tzipi Livni, a ex-chanceler israelense, me disse certa vez: "Não podemos decidir quem está certo ou errado a respeito de 1948, ou decidir quem é mais justo. Os palestinos podem achar que a Justiça está do seu lado, e eu posso achar que está do meu. O que precisamos decidir não é o que diz respeito à história, mas o que diz respeito ao futuro." Não a história, mas o futuro. A Alemanha, quando morei lá no final da década de 90, estava modificando sua maneira de olhar, depois de tentar durante décadas arrancar a verdade de meias-verdades. A capital voltou para Berlim - o círculo se completava e quase fechava. Estive em todos os campos nazistas. Muitas vezes encontrei crianças israelenses em excursões escolares enroladas na bandeira nacional. Estavam aprendendo o que significa "nunca mais", fixando a própria identidade.

Refugiados. As lições da história são importantes. Uma delas, seguramente, é o pesadelo da guerra. Israelenses e palestinos se revelaram incapazes de ir além disso. O número de refugiados palestinos em 1948 é contestado, mas um relatório da ONU de 1950 calculava 711 mil. Agora a ONU registra 4,7 milhões de refugiados palestinos. Se há uma estatística mais deprimente neste planeta, eu a desconheço.

Na Argélia, Tunísia, Egito, Líbia e Iraque - países onde havia mais de 485 mil judeus morando antes de 1948 - hoje restam menos de 2 mil. O judeu árabe pereceu, mas não é um refugiado. Ele não tem o "direito de regressar". A história caminha para frente. Os alemães não têm o direito de regressar à Silésia; nem os turcos para a Grécia, nem os judeus para Alexandria. Não questiono o "direito de retornar", como ficha de barganha dos palestinos. Como objetivo, tenho todas as objeções. Ele fecha os palestinos em um passado ilusório.

Portanto, estou imensamente impressionado pelos esforços do primeiro-ministro Salam Fayyad para a construção de um Estado na Cisjordânia - com sua expansão da economia, os tribunais, a polícia e o hábito do protesto não violento. Uma abordagem palestina não violenta é uma eloquente forma de dizer que as crianças de hoje são mais importantes do que os olivais, de três gerações atrás.

A ciência política de Fayyad exige uma resposta israelense válida, uma resposta que lance as bases de dois Estados e não jogue com o status quo. O restante do mundo está se mexendo: a União Europeia e a Ásia, de modos diferentes, deixaram a história violenta atrás de si.

Valorizar o futuro em relação ao passado nunca foi um problema nos Estados Unidos.

Em seu romance, Isherwood também fala da felicidade: "Das Gluck, le bonheur, la felicidad - atribuíram-lhe os três gêneros, mas devemos admitir, mesmo relutando, que os espanhóis estão certos; em geral ela é feminina. Ou seja, criada pela mulher."

Concordo. Os homens, como sugere a história passada, frequentemente criam a desordem por causa da testosterona. As mulheres têm bom senso e sólido conhecimento para valorizar a vida. Então não surpreende que não sejam devidamente representadas no Oriente Médio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR BRITÂNICO E COLUNISTA

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