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A marcha da fome

As migrações só diminuirão quando a democracia chegar aos países do terceiro mundo

Mario Vargas Llosa*, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2018 | 05h00

Quando saíram da cidade hondurenha de San Pedro Sula, em 13 de outubro de 2018, eram algumas centenas. Três semanas depois, enquanto escrevo este artigo, já são cerca de 8 mil. A eles se somaram um grande número de salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses e certamente também alguns mexicanos. Eles avançaram mil quilômetros e tanto, caminhando dia e noite, dormindo na estrada, comendo o que as pessoas caridosas e tão infelizes quanto eles lhes davam na passagem. Acabam de entrar em Oaxaca e estão no meio do caminho.

São homens, mulheres e crianças pobres, paupérrimos, que fogem da pobreza, do desemprego, da violência que antes era apenas da parte dos maus empregadores e da polícia e agora, especialmente, vem das “maras”, estes bandos de foras da lei que os forçam a trabalhar para eles, transportando ou vendendo drogas, e, caso eles se recusem a fazê-lo, os matam a punhaladas e lhes infligem torturas atrozes.

Para onde vão? Para os Estados Unidos, claro. Por quê? Porque é um país onde há trabalho, onde poderão economizar e enviar remessas a seus familiares para salvá-los de fome e do desamparo centro-americano, porque há boas escolas, segurança e legalidade, que em seus países não existe. Eles sabem que o presidente Donald Trump disse que eles são um verdadeiro flagelo de marginais, estupradores, que trazem doenças, sujeira e violência e que ele não permitirá esta invasão e mobilizará pelo menos quinze mil policiais e se eles atirarem pedras, estes vão disparar para matar. Mas eles não se importam: preferem morrer tentando entrar no paraíso do que a morte lenta e sem

esperança que os espera onde nasceram, isto é, no inferno.

O que eles pretendem é uma loucura, claro. Uma loucura idêntica à dos milhares e milhares de africanos que, depois de caminhar durante dias, meses ou anos, morrendo como moscas na estrada, chegam às margens do Mediterrâneo e se lançam ao mar em balsas, botes e barcaças, amontoados como insetos, sabendo que muitos deles vão morrer afogados – mais de 2 mil já morreram, este ano, e sem ser capaz de realizar o sonho que os conduz: instalar-se em países europeus, onde há trabalho, segurança, etc.

O ataque dos milhões de miseráveis deste mundo aos países prósperos do Ocidente criou uma paranoia sem precedentes na história, num nível tal que tanto nos Estados Unidos e como na Europa Ocidental foram ressuscitadas fobias que se acreditavam extintas, como racismo, xenofobia, nacionalismo, populismos de direita e de esquerda e crescente violência política. Um processo que, se continuar, pode vir a destruir talvez a mais preciosa criação da cultura ocidental, a democracia, e restaurar aquela barbárie da qual nós pensávamos estar livres, que arruinou a América Central e grande parte da África no horror do qual agora tentam escapar tão dramaticamente os seus nativos.

A paranoia contra o imigrante não compreende razões e muito menos estatísticas. É inútil que técnicos expliquem que, sem os imigrantes, os países desenvolvidos não poderiam manter seus elevados padrões de vida e, no geral – as exceções são escassas –, aqueles que emigram costumam respeitar as leis dos países de acolhimento e trabalham duro, precisamente porque trabalham não apenas para sobreviver, mas para prosperar, e esse estímulo beneficia grandemente as sociedades que recebem imigrantes. 

Não é esse o caso dos Estados Unidos? Não foi ao abrir suas fronteiras que prosperou e cresceu e se tornou o gigante que é agora? Não foi o caso da Argentina, um dos países mais prósperos da América Latina e um dos mais avançados do mundo graças à imigração?

É inútil, o medo do imigrante é o medo do “outro”, que é diferente por seu idioma ou pela cor de sua pele ou pelos deuses que venera, e essa alienação se inocula graças à demagogia frenética na qual certos grupos e movimentos políticos incorrem irresponsavelmente, atiçando um fogo no qual poderíamos queimar os justos e os pecadores ao mesmo tempo. Já aconteceu muitas vezes na história, por isso, deveríamos estar alertados.

O problema da imigração ilegal não tem solução imediata e tudo o que se disser em contrário é falso, a começar pelos muros que Trump gostaria de levantar. Os imigrantes continuarão a entrar pelo ar ou por baixo da terra, enquanto os Estados Unidos forem um país rico com oportunidades, o ímã que os atrai. E o mesmo pode ser dito sobre a Europa. 

A única solução possível é que os países de origem dos migrantes tornem-se prósperos, algo que está agora disponível para qualquer nação, mas que os países africanos, da América Central e grande parte do terceiro mundo têm rejeitado por cegueira, corrupção e fanatismo político. Na América Latina, é claríssimo para quem quiser ver.

Por que os chilenos não fogem do Chile? Porque há trabalho lá, o país progride muito rápido e isso gera esperança para os mais pobres. 

Por que eles fogem desesperados da Venezuela? Porque eles sabem que nas mãos dos bandidos que os governam hoje, essa sociedade infeliz, que poderia ser a mais próspera do continente, continuará a declinar sem solução. Os países, ao contrário dos seres humanos, para os quais a morte põe fim ao sofrimento, podem continuar sendo barbarizados sem fim.

Os milhões de pobres que querem trabalhar nos países do Ocidente pagam um grande tributo à cultura democrática, que os tirou da barbárie na qual também viveram, não muito tempo atrás, e da qual saíram graças à propriedade privada, ao livre mercado, à legalidade, à cultura e ao que é o motor de tudo isso: a liberdade. 

A fórmula não caducou como alguns ideólogos catastrofistas quiseram nos fazer acreditar. Os países que a aplicam progridem. Aqueles que a rejeitam, recuam. Hoje em dia, graças à globalização, ainda é muito mais fácil e rápido do que no passado. Um bom número de países asiáticos compreendeu isso e, por essa razão, a transformação de sociedades como a sul-coreana, a taiwanesa ou a cingapuriana, é tão espetacular. 

Na Europa, a Suíça e a Suécia, talvez os países que atingiram os níveis mais altos de vida no mundo, eram pobres e, no século 19, enviaram migrantes para ganhar a vida no exterior, tão desvalidos quanto aqueles que hoje em dia fogem de Honduras, El Salvador ou Venezuela.

As migrações maciças só serão reduzidas quando a cultura democrática se estender para a África e outros países do terceiro mundo e os investimentos e o trabalho elevam os padrões de vida para que nessas sociedades haja um sentimento entre os pobres de que é possível sair da pobreza trabalhando. 

Isso está agora ao alcance de qualquer país, por mais indefeso que esteja. Hong Kong o foi há um século e deixou de ser assim em poucos anos voltando-se para o mundo e criando um sistema aberto e livre, garantido por uma legalidade muito rígida. Tanto que a China respeitou esse sistema, embora limitando radicalmente sua liberdade política. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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