A marcha do Egito rumo à democracia

O clima político ainda é de incerteza, mas os egípcios sabem que, pela primeira vez, podem escolher seu futuro

AHMED , ZEWAIL, THE NEW YORK TIMES, GLOBAL VIEWPOINT , O Estado de S.Paulo

23 Maio 2012 | 03h08

Artigo

Alguns dias atrás, acompanhei um debate entre Amr Moussa e Abdel Moneim Aboul Fotouh, dois dos principais candidatos dentre os 13 que disputam a presidência no Egito. Este impressionante debate durou mais de quatro horas e foi assistido por milhões de egípcios e árabes de outros países. Ao contrário do que o mundo parece acreditar, que o Egito estaria mergulhando inexoravelmente no caos e na intolerância, sob muitos aspectos este debate reflete a esperança do surgimento de um novo Egito após a revolução de 2011.

Desde a época de Ramsés II, o poderoso faraó que governou o Egito milhares de anos atrás, até o ano passado, quando o reino de Hosni Mubarak chegou ao fim, os egípcios nunca puderam testemunhar um debate a respeito de quem deveria assumir as rédeas da democracia no cargo mais importante do país. Nossa nova cultura de debate, somada às eleições parlamentares de dezembro, são marcos na história do país, abrindo um novo caminho para a democracia.

O Exército assumiu a tarefa mais digna no momento de dificuldade e protegeu a revolução nascente. E as Forças Armadas têm sido guardiãs destas eleições, de uma transparência sem precedentes.

Mas é claro que os desafios que o país enfrenta ainda são monumentais. Entre os problemas mais sérios estão a dificuldade econômica, o clima político de incerteza e a deterioração da segurança. Estes problemas foram se somando nos últimos 15 anos conforme cada um dos três principais eleitorados envolvidos na revolução - o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), que governa durante o período de transição; os partidos de orientação liberal ou islâmica; e os jovens que deram início ao levante - enfrentava dificuldades de todo tipo.

Até alguns daqueles que mais ansiavam pela transformação do país estagnado de Mubarak, que passaria de um Egito carente de democracia para uma sociedade de riqueza democrática, começaram a sentir falta da velha estabilidade, dado o seu desespero.

É verdade que há sintomas caóticos - como os conflitos entre os diferentes partidos políticos - mas esta é uma forma de "caos criativo", nas palavras de Condoleezza Rice, uma consequência de mudanças revolucionárias que levarão finalmente a uma democracia estável.

De fato, inspira esperança o fato de nós, egípcios, estarmos marchando para a democracia com um derramamento de sangue relativamente limitado. Todos os sinais indicam que o Egito não deve passar por uma contrarrevolução. Não voltaremos a um sistema de governo totalitário.

Talvez o que haja de mais encorajador seja a confiança que os egípcios mostram no seu futuro. O aumento da violência entre alguns muçulmanos e cristãos é motivo de preocupação. Mas sua origem e intensidade são exageradas pela mídia.

A história do cristianismo no Egito faz parte do tecido da sociedade do país. O Egito não mantém guetos para suas minorias nem segrega os estudantes nas escolas, mas tem problemas solucionáveis a resolver, como os da sociedade civil e sua representação no governo.

No período pós-revolução, alguns atores ruins, alguns remanescentes do antigo regime, buscaram incentivar a violência entre as religiões para desestabilizar a democracia nascente. O fato de esta tendência não ter se enraizado é mais um motivo para ter esperança. Naturalmente, o papel da religião na política é agora objeto de debate, e o debate recente é indício desta mudança.

Aboul Fotouh foi membro da Irmandade Muçulmana, criada em 1928, e foi alvo de perseguição política. Ele se declara um muçulmano liberal.

Moussa, por outro lado, foi ministro das Relações Exteriores e secretário-geral da Liga Árabe durante a era Mubarak, e destaca a importância de sua experiência, retratando os adversários como extremistas religiosos.

O debate aberto entre as orientações seculares e religiosas da política foi impensável nos últimos 60 anos. Esta nova abertura significa que o corpo político do Egito está amadurecendo.

Os cidadãos estão assumindo a responsabilidade por seu destino ao insistirem que perspectivas e ideologias diversas concorram entre si. No fim, os egípcios sabem que, pela primeira vez, poderão escolher seu futuro. Ele não será ditado nem imposto por ninguém. Meu recado ao povo egípcio, e aos políticos em especial, é simples: pelo bem do Egito, unam-se para concluir a transição da ditadura para a democracia emergente, concentrando-se na redação da nova Constituição. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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