À margem da liberdade?

Os EUA não podem ficar de fora da transição democrática no mundo árabe e devem evitar a radicalização política, como ocorreu no Irã, em 1979

Stephen J.Hadley, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Estamos prestes a perder a oportunidade histórica de fomentar os interesses americanos. Oriente Médio e Norte da África passam por uma transição. Algumas mudanças ocorrerão após revoluções dramáticas - como na Tunísia, Egito, Líbia, Síria e Irã. Se tivermos sorte, em alguns lugares a transição será feita sem revolta popular. Na Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein, monarcas esclarecidos têm a chance de realizar reformas e conceder maior participação econômica e política. É o que parece ocorrer no Marrocos.

Períodos de transição assim já foram vistos antes. Após a 2.ª Guerra, os EUA ajudaram Japão e Alemanha a construir uma democracia e uma economia de mercado, o que resultou num período sem precedentes de paz na Europa e na Ásia. Hoje, temos uma oportunidade parecida no Oriente Médio e Norte da África. Será uma transição turbulenta, mas não haverá recuo. A experiência árabe com o autoritarismo fracassou e transformou a região em uma incubadora do terrorismo.

Essa foi a lição do 11 de Setembro. Os americanos devem apoiar essa busca por mais liberdade na região. Os EUA foram fundados na crença de que "todos os homens são iguais". Sabemos como criar uma democracia: eleições transparentes, partidos políticos, imprensa livre e estado de direito. Sabemos como estabilizar economias, criar livres mercados e fomentar investimento e comércio exterior.

Os EUA, porém, ainda não estão preparados para aproveitar essa oportunidade. Não se trata de recursos financeiros nem de atuarmos por nossa própria conta e risco. Organizações globais, como o FMI, bancos regionais e os Estados árabes ricos em petróleo, podem liderar a estabilização pós-revolucionária. Especialistas ajudariam na criação de uma estrutura para o desenvolvimento de mercados livres eficientes. Grandes empresas podem ser fontes de investimentos externos que criem empregos na região. ONGs e organizações internacionais ajudariam a criar a democracia.

O Oriente Médio não deseja uma presença marcante dos EUA. A ajuda de organizações internacionais, de países europeus e Estados vizinhos é mais aceitável. O apoio do setor privado, principalmente de ONGs, é melhor ainda.

Os EUA têm de ajudar a coordenar esses esforços, mas precisam se organizar. O presidente deve nomear um enviado especial que trabalhe em tempo integral, unifique a política americana para a região e encoraje as ONGs a agir. O esforço vale a pena. Sabemos qual é o preço de uma transição fracassada. A Revolução Iraniana de 1979 foi feita em nome da liberdade, mas acabou sequestrada pelos muçulmanos radicais. Não podemos permitir novos fracassos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CONSELHEIRO DO INSTITUTO DA PAZ DOS EUA E FOI ASSESSOR DE SEGURANÇA NACIONAL DE GEORGE W. BUSH

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