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A máscara de Assange

Fundador do WikiLeaks é acusado de ter concordado em violar a senha de um computador do governo americano; Trump, que durante a campanha dizia que 'amava' a plataforma, agora afirma que 'não sabe nada' sobre ela

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 03h00

A trajetória de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, preso na quinta-feira em Londres, sintetiza as contradições entre discurso e prática, os paradoxos ideológicos dos tempos que vivemos.

Assange é um ativista da privacidade e dos direitos civis que os atropela e se deixa manipular pelo regime autoritário russo. Foi entregue à polícia pelo sucessor escolhido de seu protetor, o ícone de esquerda Rafael Correa – outro dirigente autoritário. E enfrenta a lei do país cujo presidente mais se beneficiou por seus vazamentos: Donald Trump.

Assange se tornou conhecido em 2010, quando a plataforma divulgou vídeos secretos que expuseram a irresponsabilidade de militares americanos no uso da força contra civis no Iraque e no Afeganistão. No mesmo ano, publicou cerca de 250 mil telegramas confidenciais de diplomatas americanos.

Em 2013, depois de revelar à imprensa os abusos cometidos pela comunidade de inteligência americana, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança Edward Snowden voou de Hong Kong para Moscou acompanhado de Sarah Harrison, braço direito de Assange. Harrison declararia no ano seguinte que “as maiores potências que não prestam contas hoje são os EUA e nossas democracias ocidentais”. Aparentemente, os regimes verdadeiramente opacos são medidos com outra régua por serem “cool”. 

Muitas revelações do WikiLeaks tiveram papel fundamental em desnudar abusos de poder de toda sorte. Mas a falta de critério, inerente à forma de exposição de tudo o que caía nas mãos deles, tornou o balanço entre benefícios e prejuízos difícil de avaliar. Essa ausência de filtros era justificada como uma ingênua – e portanto “cool” – neutralidade.

A máscara caiu quando o WikiLeaks entrou na campanha presidencial americana, em outubro de 2016. Trump estava em apuros, com a divulgação de um vídeo chocante, no qual ele se vangloriava de “agarrar as mulheres” pelo seu órgão genital. Foi então que a Rússia e o WikiLeaks vieram em seu socorro, despejando milhares de e-mails da candidata Hillary Clinton, hackeados por agentes russos. 

O presidente Vladimir Putin odeia Hillary desde 2011, quando ela declarou simpatia por manifestantes em Moscou. Em contrapartida, Trump cobria Putin de elogios públicos, enquanto nos bastidores negociava com o governo russo a construção de uma Trump Tower em Moscou, e seu filho, genro, advogado e assessores mantinham contatos com enviados russos.

Impacto eleitoral

O FBI concluiu, nas vésperas da eleição, que os e-mails de Hillary não revelavam nenhum crime, apenas descuido. Mas o estrago – e o desvio da atenção dos pecadilhos de Trump – estava consumado. A sorte de Assange começou a mudar com a eleição de Lenín Moreno no Equador, em 2017. Embora fosse o candidato de Correa, Moreno criticou a liberdade com que Assange continuava operando da embaixada.

Em 2018, o vice-presidente americano, Mike Pence, visitou Quito. O Equador, cuja economia é dolarizada, sofre de falta de reservas, ainda mais com a queda do comércio com os EUA, em parte por causa do dissabor da proteção a Assange. Moreno permitiu a prisão de seu vice, Jorge Glas, por receber propinas da Odebrecht, e a investigação de Correa, exilado na Bélgica; reconheceu Juan Guaidó na Venezuela e entrou para o Prosur, o grupo dos governos sul-americanos de centro e direita. Ao entregar Assange, completou esse movimento.

Assange é acusado de ter concordado em violar a senha de um computador do governo americano. É nisso que tem como base o pedido de extradição. A pena para isso não é pesada. Trump, que durante a campanha dizia que “amava o WikiLeaks”, agora afirma que “não sabe nada” sobre a plataforma. A coerência e a lógica perderam valor, e Trump é um homem de seu tempo. 

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