A meia-noite do desarmamento No relógio construído por cientistas nucleares para marcar o dia do juízo final, estamos um minuto mais perto do fim

No mês passado, os ponteiros do Relógio do Dia do Juízo Final moveram-se para um minuto mais perto da meia-noite, segundo o Boletim dos Cientistas Atômicos, respeitada organização global que há décadas acompanha o risco de uma catástrofe nuclear, acidental ou proposital, por iniciativa de um Estado ou de terroristas, por uma bomba de fissão ou uma bomba suja.

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2012 | 03h05

Poucas pessoas ao redor do mundo ouviram. A história veio e se foi no ciclo de notícias em apenas meio dia. Mas o argumento dos cientistas era sério. Desde 2007 - quando os ponteiros do relógio marcaram pela última vez cinco minutos para a meia-noite - o progresso parou, mas os líderes políticos não cumpriram seus compromissos em desarmamento e não proliferação.

Quanto ao desarmamento, a bola murchou totalmente. O novo tratado Start, assinado por EUA e Rússia em 2010, reduziu o número de armas de prontidão, mas não tocou nos estoques, seu estado de alerta ficou inalterado, o programa de modernização de armamentos continua vigorando, as divergências sobre a defesa contra mísseis e os desequilíbrios entre armas convencionais não foram resolvidas.

Sem nenhuma ação dos EUA e da Rússia, que detêm 95% do total de mais de 20 mil armas nucleares do mundo, nenhum outro país que tenha a bomba foi pressionado a reduzir significativamente seus estoques, e alguns - China, Índia e Paquistão - os aumentaram.

Apesar das boas intenções do presidente Barack Obama, o Senado americano não deverá ratificar o Tratado Abrangente de Proibição de Testes Nucleares, enquanto China, Índia e Paquistão, entre outros, escudam-se nessa falta de ação. E as negociações a respeito de um outro elemento-chave do desarmamento e da não proliferação - um tratado de proibição da produção de novo material físsil - continuam estancadas.

A única notícia razoavelmente boa é que há progresso no que se refere a um terceiro elemento fundamental: garantir que os materiais que podem ser utilizados em armas, e as armas, atualmente armazenadas em diversos lugares em 32 países, não caiam nas mãos países renegados ou terroristas.

No final de março, o presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, será o anfitrião de uma reunião de acompanhamento da bem-sucedida Cúpula sobre Segurança Nuclear de 2010, com a participação de 47 chefes de governo que concordaram com um programa abrangente para proteger todos esses materiais no prazo de quatro anos. Uma das prioridades serão as implicações da segurança nuclear para o restante do mundo: a catástrofe de Fukushima mostrou que as usinas nucleares podem ser vulneráveis não apenas a desastres nucleares, mas também à sabotagem terrorista.

Ocorre que a segurança nuclear é apenas uma pequena parte do que deve ser feito para eliminar os tratados nucleares de uma vez por todas. Para tanto, será preciso atender a três condições. Em primeiro lugar, os líderes políticos e da sociedade civil deverão reafirmar, ad nauseam se necessário, que é imprescindível chegar ao "zero global" - um mundo sem armas nucleares.

Em segundo lugar, serão necessários mecanismos para despertar novas energias nos responsáveis pelas decisões e no público. Um deles é a criação e a promoção de um esboço de Convenção sobre Armas Nucleares. Outro é um boletim que avalie rigorosamente quais são os Estados que cumprem seus compromissos em matéria de desarmamento e não proliferação, e quais não.

Em terceiro lugar, manter a atenção da política de alto nível concentrada na agenda nuclear exige uma organização institucional.

O foco da Cúpula de Segurança Nacional é excessivamente reduzido; o mandado formal da Agência Internacional de Energia Atômica é restrito demais; a Conferência de Revisão do TNP reúne-se de maneira irregular; e o número de integrantes do Conselho de Segurança da ONU é limitado. O melhor fórum para a criação de normas poderá ser o G-20, cujos membros incluem países do Norte e do Sul. Ele representa a maior parte da população mundial, do seu PIB, algumas de suas armas nucleares e tem encontros regulares.

Com a reunião dos chanceleres este mês no México para discutir questões mais abrangentes de governança global, o G-20 começa a ir além de um reduzido foco econômico. A destruição econômica provoca uma imensa e intolerável desgraça humana. Mas há apenas duas ameaças globais que, se não forem eliminadas, destruirão a vida neste planeta: e as armas nucleares poderão nos matar muito mais depressa do que o dióxido de carbono. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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