A mentalidade da comunidade murada

Assassinato de adolescente negro por vigilante branco na Flórida transcende o racismo; ele tem a ver com a privatização de espaços em que iguais se agrupam contra o diferente

Rich Benjamin, do The New York Times

09 de abril de 2012 | 03h06

Como homem negro que já foi assaltado por um adolescente negro armado durante a madrugada, não sou ingênuo: conheço em primeira mão as complicações que envolvem raça, medo e crime. A morte de Trayvon Martin pelas mãos de George Zimmerman deixa os EUA perplexos. Enquanto os defensores do jovem declaram "Somos todos Trayvon", em solidariedade, temos também de perguntar: até que ponto os EUA são também George Zimmerman? Durante o assalto, nem sonhei em ferir o adolescente que me roubava, muito menos em tirar-lhe a vida.

Zimmerman teve uma reação bem diferente, sacando sua arma e atirando no jovem a sangue frio. O que houve? Bem-vindos aos EUA da mentalidade murada.

Entre 2007 e 2009, viajei mais de 40 mil quilômetros, vivendo predominantemente em comunidades muradas brancas em todo o território americano como pesquisa para um livro. De bom grado, mergulhei de cabeça nessas comunidades. Morei em casas alugadas ou emprestadas dos habitantes. Dos cânions de pedra vermelha do sul de Utah até os bairros mais afastados cheios de lojas da Waffle House no norte da Geórgia, vivi em comunidades muradas como um negro, apresentando um estilo e um rosto jovem, para entrevistar e observar moradores.

O perverso vocabulário imobiliário que permeia tudo nessas comunidades defende uma mentalidade segregacionista. Os moradores com frequência expressaram um medo exagerado do crime, muito além da real ameaça representada pelo crime. Como a expressão "comunidade murada" logo se desgasta com o uso, os empreendedores imobiliários criaram uma série de eufemismos orwellianos para aplacar as ansiedades dos moradores: "comunidade rigorosamente planejada", "comunidade de lazer com paisagismo", "bairro isolado e íntimo".

Independentemente do rótulo, o produto é o mesmo: autossuficiente, conservador e excessivamente zeloso na sua exigência por "segurança". As comunidades muradas alimentam um ciclo vicioso ao atraírem moradores de mentalidade semelhante que buscam abrigo contra os forasteiros e cujo isolamento físico passa a afetar negativamente a mentalidade grupal paranoica contra os forasteiros. Essas comunidades-bunker me lembram as bonecas de madeira conhecidas como Matryoshkas. Uma lógica de objeto-semelhante-dentro-de-outro-objeto-semelhante serve como abrigo. Da comunidade à subdivisão e à casa, cada unidade aposta em formas instáveis de segurança e conforto, incluindo autoridades municipais, práticas de zoneamento, sistemas particulares de segurança e armas de uso pessoal.

Aliança maldita. A palpável satisfação dos moradores com a virtude de suas comunidades e sua evidente prontidão em soar o alarme diante de uma "ameaça" criam uma atmosfera peculiar - uma aliança maldita entre ostentação e insegurança. Nessa paisagem mental que se resume ao nós-contra-eles, o "eles" pode se referir aos novos imigrantes, aos negros, aos jovens, aos inquilinos, àqueles que não possuem propriedades e às pessoas vistas como pobres.

A comunidade murada de Zimmerman, um complexo habitacional de 260 unidades, fica num subúrbio racialmente heterogêneo de Orlando, Flórida. O perfil "suspeito" de Martin ia além de sua pele negra. Ele foi visto como jovem, desocupado, desprovido de posses e pobre. Com base nas atitudes tomadas, os policiais claramente supuseram que Zimmerman fosse o proprietário e Martin o elemento suspeito. Afinal, por que a polícia tratou Martin como o criminoso, e não Zimmerman, que o atacou? Por que o cadáver negro foi submetido a um exame que procurou traços de álcool e drogas no seu sangue, enquanto o perpetrador vivo não foi?

Em todo o território americano, mais de 10 milhões de unidades habitacionais ficam em comunidades muradas, nas quais o acesso é "limitado por muros ou cercas", de acordo com dados censitários de 2009. Cerca de 10% dos lares habitados no país ficam em comunidades muradas, embora esse número seja enganoso por não incluir lares temporariamente vazios nem os segundos imóveis de um proprietário. Entre 2001 e 2009, houve nos EUA um aumento de 53% no número de unidades habitacionais ocupadas que ficam em comunidades muradas.

Outra tendência contribuiu para o caso de Trayvon: a crescente privatização do sistema de Justiça criminal americano. Os EUA se mostram cada vez mais atraídos pela propriedade privada no policiamento, nas prisões e na concessão de liberdade vigiada, bem como pelo caráter privado nessas decisões. Empresas privadas defendem serviços privados de "segurança", com a construção e a administração privada das prisões.

Leis como Stand Your Ground (algo como Defenda-se) e Shoot First (Atire Primeiro), encontradas na Flórida, expandem a chamada doutrina do castelo, que permite o uso de força letal para a autodefesa dentro do próprio lar, desde que o proprietário possa provar que a força letal foi necessária. Trinta e dois Estados já concedem direitos especiais de autodefesa.

Essencialmente, as leis de todo o país sancionam um "vigilantismo" irresponsável sob a forma de alegações de autodefesa. Uma mentalidade de bunker é transformada em código na lei. Aqueles que reduzem essa tragédia a mais um caso de racismo deixam de reparar num quadro mais preciso e doloroso. Por que essa criança morreu? A ascensão de comunidades muradas e "seguras", de policiais privados, estradas privadas, parques privados, escolas privadas, playgrounds privados - privados, privados, privados - exacerba o tratamento preconceituoso contra os jovens, contra negros e contra aqueles que são vistos como pobres. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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