Ahmed Jadallah/Reuters
Ahmed Jadallah/Reuters

'A mentalidade militar não crê na democracia'

Organizadora de equipe responsável por fiscalizar votação aposta em grande abstenção nas eleições

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2011 | 03h02

CAIRO - Os eleitores egípcios não entendem o sistema eleitoral nem confiam nele, em razão do histórico de fraudes. Os conflitos entre a polícia e os manifestantes desestimulam a participação e muitos eleitores nem sabem onde vão votar, por causa de uma redistribuição das seções eleitorais. Não há expectativa de que a votação tenha grandes consequências políticas. Esse é o cenário para a eleição parlamentar que começa hoje no Egito, segundo a economista e cientista política Samar el-Hussieny, diretora de treinamento do Instituto Andalus.

A organização não governamental, financiada por programas dos EUA e da União Europeia, participa de uma rede de 126 entidades, com 3 mil observadores, que vão monitorar as eleições parlamentares. Samar concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

ESTADO: Como será o trabalho de vocês durante a eleição?

Samar el-Hussieny: Nossa equipe estará nos locais de votação e de lá enviará mensagens pelo celular com suas observações, que serão publicadas no nosso site na internet.

ESTADO: Quantos observadores vocês têm?

Samar el-Hussieny: Temos 300 egípcios, que atuarão nos nove Estados nos quais haverá eleição hoje. Além desses, há 45 observadores estrangeiros para as três etapas das eleições em três grupos de Estados. Hoje trabalhão dez. Eles vão a quatro Estados testemunhar as eleições e enviar suas observações para o nosso site. Também farão blogs em suas línguas nativas. No final, farão uma carta para o povo egípcio sobre o que viram e sua avaliação da transição democrática no Egito. Vamos publicar todas as cartas em um livro.

ESTADO: Vocês consideraram as eleições anteriores justas?

Samar el-Hussieny: Não, constatamos muitas fraudes. As pessoas vendiam votos, candidatos forçavam eleitores a votar neles, havia alto nível de violência. As eleições eram fraudadas para o Partido Democrático Nacional, do governo de Hosni Mubarak, ou para seus aliados. O comparecimento não era alto porque as pessoas não confiavam no processo. Mesmo as leis não eram claras.

ESTADO: Havia relatos de urnas que eram esvaziadas e preenchidas com votos para o governo?

Samar el-Hussieny: Sim, havia diferentes formas de fraude.

ESTADO: Qual a porcentagem média de comparecimento?

Samar el-Hussieny: O índice oficial não chegava a 30% e o real, a 10%.

ESTADO: A sra. espera um comparecimento alto?

Samar el-Hussieny: Não, por causa da violência, dos conflitos na Praça Tahrir. E também porque as pessoas não acreditam que as eleições terão um grande efeito na arena política. Além disso, muita gente não sabe onde votará. As seções eleitorais foram redistribuídas e se tornaram mais abrangentes que antes. Muitos não entendem a lei eleitoral e o sistema proporcional. Não sabem como votarão.

ESTADO: A sra. acha que a democracia pode fincar raízes no Egito?

Samar el-Hussieny: Sim, se nos livrarmos do regime militar, que já domina o país há 60 anos. A mentalidade militar não crê na democracia, mas em ordens. Se você disser que a maioria quer algo, eles respondem: 'Não, mas nós entendemos melhor que vocês.' Depois da revolução tínhamos uma ideia clara de como devia ser a transição: primeiro redigir uma nova Constituição, depois realizar eleições. Eles fizeram tudo ao contrário: eleições parlamentares primeiro, depois uma (Assembleia) Constituinte, depois eleição presidencial.

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