A mentalidade partidária

Agora são os democratas que defendem ações invasivas nos EUA e a direita que esbraveja contra os scanners corporais

Ross Douthat / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Imaginem, por um momento, que George W. Bush fosse presidente quando a Administração de Segurança do Transporte (TSA, na sigla em inglês) decidiu deixar que os viajantes do feriado do Dia de Ação de Graças optassem entre expor suas regiões inferiores a um scanner corporal ou enfrentar uma revista de segurança privada. Os democratas teriam ficado indignados com mais um ataque às liberdades civis da era Bush. Os figurões liberais teriam se superado comparando a TSA com esse ou aquele Estado policial.

Mas Barack Obama é nosso presidente, de modo que o debate sobre o scanner corporal foi muito diferente. É verdade que os conservadores invocaram o 11 de Setembro para defender a TSA, e alguns liberais denunciaram as medidas como uma afronta às liberdades americanas. Mas essa consistência ideológica foi a exceção; em boa parte, o roteiro da era Bush foi lido de trás para diante. Foi a direita populista que esbravejou contra os escaneamentos corporais, e o Partido Republicano que agiu rapidamente para explorar o furor. Foi o governo democrático que batalhou para justificar procedimentos invasivos, e os comentaristas liberais que saíram em sua defesa.

Essa inversão de papéis é um estudo de caso do espantoso poder da mentalidade partidária Até certo ponto, os políticos americanos refletem divisões filosóficas persistentes. Mas as pessoas que acompanham a política de perto são com frequência primeiramente partidárias e depois ideológicas. Em vez de avaliar cada política por seus méritos, tendemos a fazer a engenharia inversa dos argumentos requeridos para justificar o que nosso lado estiver fazendo. Nossas convicções ideológicas podem ser bastante reais, mas nossa convicção mais profunda é, com frequência, a de que os adversários não merecem confiança.

Como a psicologia do partidarismo pode ser suficientemente poderosa para influenciar não só visões políticas, mas nossa percepção das realidades mais amplas em geral? Uma maioria de democratas passou o fim dos anos 80 convencida de que a inflação havia subido nos governos de Ronald Reagan, quando, na verdade, ela havia caído. Em 1996, uma maioria de republicanos afirmou que o déficit havia aumentado com Bill Clinton, quando, na verdade, havia encolhido. No fim da presidência Bush, havia duas vezes mais republicanos que democratas em situação semelhante dispostos a dizer às empresas de pesquisas que a economia estava tendo um bom desempenho. Em cada caso, os fatos externos tinham menos importância do que o que entrevistado sentia sobre o partido no poder.

Em 2006, o Gallup perguntou ao público se o governo representava uma "ameaça imediata" aos americanos. Somente 21% dos republicanos concordaram, ante 57% dos democratas. Em 2010, 21% dos democratas disseram sim, ante 66% dos republicanos Em outras palavras, milhões de liberais podem viver com a detenção por tempo indeterminado de acusados de terrorismo e escaneamentos corporais, desde que um democrata esteja no comando. Haverá algo de bom a se dizer sobre a mentalidade partidária? Num nível individual, não. Ela corrompe o intelecto e envenena os poços da simpatia humana. A honra pertence às pessoas que resistem ao arrastão partidário. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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