'A miséria fortaleceu os extremistas do Mali'

Segundo analista, a força de grupos islamistas no norte do país vem da pobreza e da falta de estímulo à democracia

Entrevista com

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h02

O cientista político Kader Abderahim, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) e do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, considera que a força dos movimentos islamistas armados que desafiam a França e o Ocidente na África vem "da miséria e da falta de democracia no Mali e em toda a região". Em entrevista ao Estado, ele afirmou que a revolução na Líbia inundou o Mali de armas, mas não crê que a Primavera Árabe tenha ligação com o conflito.

Muito se fala do papel da Primavera Árabe no Mali e na Argélia. Qual a sua opinião?

Não creio que a Primavera Árabe tenha tido algum impacto sobre o que ocorre na Argélia. As autoridades argelinas conseguiram controlar a Primavera Árabe com repressão e muito dinheiro, colocando recursos na mesa para aliviar a pressão social. Quanto ao Mali, mesmo que o país tenha fronteiras com duas ou três nações árabes, é um país de outra natureza, da África negra, não árabe. Talvez nosso erro tenha sido analisar e entender a Primavera Árabe como revoluções e não como movimentos populares, o que me parece mais justo.

A revolução na Líbia teve

influência no Mali?

Sim, a intervenção militar na Líbia é a consequência direta do que se passa no Mali. Os tuaregues, mercenários que lutaram ao lado de Muamar Kadafi, voltaram à Nigéria, ao Mali, enfim, às suas casas, com armamento pesado e com o arsenal kadafista. O papel deles é muito claro no Mali. Alguns limitaram suas reivindicações à causa da independência do Azawad, norte do Mali. Outros acabaram reforçando o Ansar Dine, um dos grupos que enfrentam as tropas francesas no país. Eles são muito fortes e já impõem problemas à França.

Alguns analistas advertem que a região do Sahel foi esquecida pelo Ocidente, entregue à miséria e à fome. Isso explica o fortalecimento dos extremistas?

Sim. A verdade é que não há nenhuma política para a região, em especial do Ocidente. Uma coisa é combater o terrorismo com armas e guerra. Outra seria o Ocidente chamar os regimes da região e lhes dizer para implantar políticas sociais, respeitar a democracia, os direitos humanos. O que vimos até aqui são países ocidentais querendo fazer negócios no Sahel, querendo obter vantagens financeiras de curto prazo, sem entender que, nos regimes autoritários que estão instalados ali, os direitos das populações locais são violados. É preciso que o Ocidente redefina suas relações. A democracia deve valer sempre - e não só quando for do interesse das grandes potências.

Então, o Ocidente deve apostar na democratização da região para coibir esses movimentos extremistas - e não o contrário?

Exato. É um erro ligar os movimentos populares ao que ocorre no Mali. Ninguém pode impedir que as populações se levantem contra a miséria, a opressão, a violência. O Ocidente fará o jogo dos islamistas se não desejar profundamente que esses países cheguem à democracia. A lógica dos negócios de curto prazo, que beneficiam o Ocidente, cega seus líderes, que apoiam governos como o de Ben Ali (ex-ditador da Tunísia), esquecendo de suas exigências.

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