A missão do pontífice em Havana e Washington

PETER

O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2015 | 02h00

HAKIM

ESPECIAL PARA O ESTADORealizando suas primeiras visitas a Cuba e aos EUA na mesma viagem, de uma semana apenas, o papa Francisco deixou claro que procurará alcançar o mesmo objetivo de João Paulo II em sua visita à ilha, em 1998, quando pediu que ela "se abrisse para o mundo e o mundo se abrisse para Cuba". Francisco está perfeitamente a par de quão vital é o esforço de reconciliação entre EUA e Cuba, no qual desempenhou um papel fundamental.

Francisco, então recentemente nomeado arcebispo de Buenos Aires, escreveu o livreto O Diálogo de João Paulo II e Fidel Castro, sobre a visita do papa a Cuba. O arcebispo argentino ficou fascinado com as conversas entre os dois líderes de visões e inspirações tão contrastantes, um deles concentrado no indivíduo e seus direitos, responsabilidades e escolhas, e o outro no papel central da autoridade do Estado na formação do homem, da mulher e da sociedade.

Não surpreende que eles, muitas vezes, parecessem entender de maneira equivocada as respectivas posições, embora também concordaram em algumas coisas. Apesar de sua imagem de anticomunista aguerrido, João Paulo transmitiu a Fidel - como Francisco posteriormente externaria - que ele não defendia o capitalismo sem limites, que ele se opunha às doutrinas neoliberais que se tornaram populares em muitas partes da América Latina, que achava o embargo americano a Cuba injusto e causa de sofrimentos desnecessários.

Quando João Paulo viajou para Cuba, já havia sido aclamado por ter contribuído para intensificar a resistência polonesa ao governo comunista, ajudando a colocar a Polônia no caminho democrático, embora, segundo alguns historiadores, seu impacto tenha sido provavelmente bem mais modesto.

Grandes também eram as esperança de que ele conseguisse estimular alguma mudança em Cuba, mas suas realizações na ilha se limitaram a sua preocupação com a situação da Igreja. O Natal passou a ser feriado nacional, os católicos não foram mais barrados em empregos no serviço civil, inclusive nos mais altos escalões, e à Igreja foi concedida alguma autonomia em relação ao governo, o que a tornou a única organização independente, embora modestamente, no país.

Os cubanos chegaram a emendar a Constituição para transformar o seu país num Estado secular, e não mais ateu, mas não conquistaram novos direitos nem liberdades. Toda oposição ao governo continuou sendo proibida e punida, além de praticamente todos os aspectos da economia permanecerem nas mãos do Estado.

Em contraste com as visões conservadoras anticomunistas, atribuídas a João Paulo II, Francisco chegará a Cuba com uma reputação progressista, até mesmo esquerdista. Ele também chega numa época diferente. O governo cubano está hoje desistindo gradativamente do seu monopólio do poder sobre a economia e permitindo o surgimento de alguma iniciativa individual - embora a um ritmo lento demais para sanar os profundos problemas econômicos da ilha.

Há até mesmo esperanças, certamente mais do que antes, de certa abertura política. De fato, alguns cubanos já falam em acesso moderadamente crescente à informação e um aumento da tolerância na discussão, mesmo da discordância, embora não para a dissidência, que o governo trata tão duramente quanto antes.

Francisco provavelmente insistirá e implorará às autoridades cubanas para que concedam aos cidadãos maior liberdade, não apenas de religião, mas também de expressão e de associação, e o direito de discordar ou mesmo de dissentir e de se opor. Mas, provavelmente, expressará também seu empenho na defesa da igualdade e da inclusão, sua profunda preocupação para que se evite o materialismo excessivo e o consumismo, o que a liderança cubana considerará um elogio.

Francisco fará um voo direto de Santiago de Cuba até a Base da Força Aérea de Andrew, nos arredores de Washington, onde enfatizará seu constante empenho na normalização dos vínculos entre EUA e Cuba - e na importância dela para o avanço de uma maior abertura política e econômica de Cuba.

Indubitavelmente, o papa decepcionará os que, tanto nos EUA quanto em Cuba, querem que ele condene profundamente os constantes abusos dos direitos humanos na ilha, suas graves restrições às liberdades fundamentais e exija mudanças mais rápidas do governo, antes de que sejam dados novos passos para a reconciliação.

Como tem feito até este momento, Francisco continuará pragmático e realista na consecução de seus princípios e metas. Ele sabe muito bem que Cuba não pode se transformar da noite para o dia. Ela evoluirá, se é que isto seja possível, muito gradativamente, e a paciência aliada à persistência, a prazo mais longo, é o caminho mais viável para uma abertura sustentada e para assegurar que a Igreja e o papa continuem desempenhando um papel maior no processo ao longo do tempo. Os esforços para acelerar a mudança poderiam resultar numa resistência por parte dos líderes cubanos, que continuam profundamente desconfiados de toda interferência externa nos assuntos do país.

O papa tem outros interesses na ilha, além da reaproximação com os EUA. Ele quer que os governos da América Latina e da Europa se empenhem mais profundamente com a questão de Cuba e assumam uma maior responsabilidade na ajuda ao país durante o período de transição econômica, política e social que será difícil. O papa aproveitará sua visita para reforçar a presença da Igreja no país, aumentar substancialmente o número ainda pequeno de fiéis católicos, promover a persistente expansão da autonomia e da influência da Igreja na ilha e possibilitar a comunicação efetiva da mensagem católica.

Cuba permanecerá uma preocupação predominante para o papa ao chegar aos EUA, onde deverá pedir o levantamento do embargo e a retirada de outros obstáculos ao bem-estar econômico e social da população cubana. Mas, em Washington, Filadélfia e Nova York, Francisco tratará também de outras prioridades. Particularmente quando se dirigir ao Congresso americano, considerando a necessidade de políticas mais humanitárias em relação à imigração, com certeza estará no topo de sua lista diante da terrível crise dos refugiados no Oriente Médio e na Europa, e o discurso desagradável e às vezes odioso do Partido Republicano sobre os migrantes e a migração. Não surpreenderá se Francisco tratar energicamente da questão da mudança climática no Congresso, que é um obstáculo obstinado à ação internacional para a solução deste problema global.

Além disso, como sempre, ele levantará sua voz para a necessidade de tratar dos enormes desafios representados pela desigualdade, pela pobreza e pela exclusão no mundo todo. O papa está plenamente consciente da necessidade de sutileza e de moderação na defesa dos direitos humanos, da mudança democrática e da liberdade de expressão em Cuba. Será muito mais direto ao expor aos líderes políticos as questões que, na sua opinião, eles não podem mais ignorar.

Finalmente, nos EUA, o papa terá muitos problemas relativos à própria Igreja com os quais se preocupar. Embora tenha o apoio e a admiração da grande maioria dos católicos americanos, deverá enfrentar questões sensíveis, como os vários escândalos de pedofilia e acobertamento que envolvem sacerdotes e bispos em todo o país.

Não há dúvida de que a Igreja católica, que há muito tempo vem perdendo seguidores, precisa de uma nova carga de energia. Tanto em Cuba quanto nos EUA, o problema mais complexo para Francisco é descobrir de que maneira poderá usar sua enorme popularidade, que não encontra paralelo entre os outros líderes mundiais, para trazer os católicos de volta à fé.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRESIDENTE EMÉRITO DO

DIÁLOGO INTERAMERICANO

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