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A mordaça que vem dos Andes

Desde que morreu Hugo Chávez, em março, ninguém sabe quem poderia tomar o lugar do comandante venezuelano. O desafio é grande, pois quem teria o estofo ou a lábia do finado caudilho?

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h03

Nicolás Maduro não é. O ex-motorista de ônibus conduz a revolução com a mão cada vez mais errante, um discurso tosco e requintes de excentricidade. Afirmou que Chávez teria sido "inoculado" com câncer pelos americanos e, depois, voltado no corpo de um passarinho.

Nem o boliviano Evo Morales ou Daniel Ortega, da Nicarágua, têm o gabarito do beato bolivariano. Sobra o presidente de Equador, Rafael Correa. Ele tem petróleo, presença de palco e cacife nos Andes. Se falta ao Equador o porte de líder continental, Correa compensa com ambição. Ao franquear sua embaixada em Londres ao fundador do WikiLeaks, Julian Assange, acusado de agressão sexual pela justiça sueca, ele comprou briga com suecos e britânicos e provocou os EUA, que querem processar o guerrilheiro digital.

Ele cutucou o Brasil, quando encampou uma obra da Odebrecht e acenou com calote ao empréstimo do BNDES. Com artifício bem bolivariano e maioria no Parlamento, encomendou uma nova Constituição com direito a uma reeleição consecutiva. Mas, como a nova Carta refez o calendário eleitoral, Correa recomeçou do zero e ganhou direito a um terceiro mandato.

Quando a imprensa protestou, ele revidou com processos e multas milionárias. Tudo com carimbo da Justiça, sempre condescendente. Um dos seus alvos, Emilio Palácio, editor do jornal El Universo, foi condenado a três anos de prisão e fugiu para os EUA, onde ganhou asilo. Foi um vexame internacional.

Menos para Correa. No seu primeiro mandato, encampou dezenas de jornais, estações de rádio e canais de TV. Reeleito em maio, quis mais. No dia 14 de julho, sua base no Congresso aprovou uma nova lei de comunicação. Foi chavismo puro. A maior parte de seus 119 artigos são arrepiantes. Trata a informação não mais como um direito, mas um "bem público", sujeito a regulação pelo Estado.

A reação não demorou. A Sociedade Interamericana de Imprensa condenou a nova lei. Mas Correa não se importou. Na semana passada, seu governo promoveu uma reunião sobre a nova legislação batizada de "Primeira Cúpula para o Jornalismo Responsável nos Novos Tempos". O palestrante principal: Rafael Correa. O patriarca Chávez aprovaria.

* MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM.

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