Marcus Yam/The New York Times
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Cenário: A morte de um republicano que desafiou o vírus

Sua posição foi compartilhada por muitos conservadores que vinham conduzindo uma mentalidade de guerra cultural ao vírus, na mais grave crise de saúde pública em um século

Jeremy W. Peters / The New York Times , O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2020 | 04h30

WASHINGTON  - A morte, na quinta-feira, do ex-candidato a presidente dos EUA Herman Cain, atribuída ao coronavírus, fez o Partido Republicano e o presidente Donald Trump encarar a realidade da pandemia mais perto do que nunca, ao ver entre suas vítimas um proeminente aliado conservador, cuja atitude era frequentemente desdenhosa em levar a ameaça a sério.

Cain, um ex-executivo que disputou uma indicação republicana para concorrer à Casa Branca em 2012, tinha um estilo irreverente de confronto que espelhava o tipo de posição política do próprio presidente. 

Em seu mais recente papel na campanha de reeleição do presidente, ele se tornou um símbolo dos céticos da ciência que desafiam as máscaras e desdenham abertamente, se não agressivamente, as autoridades de saúde pública que advertem os americanos a evitar grandes multidões e se protegerem com o acessório. 

Sua posição foi compartilhada por muitos conservadores que vinham conduzindo uma mentalidade de guerra cultural ao vírus, na mais grave crise de saúde pública em um século. Trump homenageou Cain no Twitter na quinta-feira, chamando-o de “uma poderosa voz da liberdade e de tudo o que é bom”. 

Mas a morte de Cain mostrou como essa mentalidade destoa da situação atual dos EUA. Mais de 150 mil americanos morreram em uma pandemia que assola partes do país, onde líderes conservadores resistiram por muito tempo a tomar medidas para retardar a propagação do vírus, como o uso obrigatório de máscara e ordens para permanecer em casa. 

Isso inclui lugares como Tulsa, Oklahoma, onde Cain participou de um comício da campanha de Trump em junho e mostrou seu desrespeito às precauções de segurança nas mídias sociais pouco antes de receber o diagnóstico para o vírus. 

Com uma uniformidade que desafia o aumento do número de mortos em seus próprios quintais, os republicanos nas esferas federal, estadual e local adotaram um tom semelhante de ceticismo, rejeitando o conselho das autoridades de saúde pública e alegando princípios que consideravam igualmente importantes: valores conservadores da liberdade econômica e da liberdade pessoal.

Do Arizona ao Texas, à medida que as taxas de infecção aumentavam e as camas de hospital se enchiam, os governadores republicanos estavam no caminho dos governos locais que queriam fazer mais. Anularam a obrigatoriedade da máscara nas cidades, argumentando que isso equivalia a uma forma de alcance excessivo do governo.

Disseram que exigir que as empresas fechassem ou limitassem sua capacidade estrangularia a economia e salvaria poucas vidas. Eles acusaram a mídia e os opositores políticos de exagerarem os riscos para prejudicar as chances de reeleição do presidente. 

Desprezaram os especialistas e zombaram daqueles que prestaram atenção às advertências oficiais. O deputado Matt Gaetz, da Flórida, um forte aliado e vigoroso defensor do presidente, andou pelo Capitólio em março usando uma máscara de gás enquanto se preparava para votar na legislação de alívio de coronavírus.

O governador de Oklahoma, Kevin Stitt, postou uma foto dele jantando com sua família em um restaurante lotado alguns dias depois que a Organização Mundial da Saúde declarou formalmente uma pandemia. “Está lotado hoje à noite!”, dizia sua legenda.

E este mês, no Missouri, o governador Mike Parson zombou da ideia de se obrigar o uso de máscara, dizendo a uma multidão de apoiadores: “Você não precisa do governo para pedir que você use uma máscara”.

No entanto, o vírus os lembrou que atinge pessoas de todas as faixas políticas, indiscriminadamente.

Gaetz descobriu que ele poderia ter sido exposto a alguém que estava infectado ao participar de um evento político. Ele disse que entraria em quarentena e não acabou tendo o vírus. Stitt testou positivo para covid-19 este mês, o primeiro governador do país a contrair o coronavírus. Ele continua resistindo à pressão para emitir uma ordem de uso de máscara, dizendo que se trata de “uma preferência pessoal”.

E, nesta semana, acrescentando à lista de pessoas com acesso direto ao presidente que deram positivo, Robert C. O’Brien, consultor de Segurança Nacional. O grupo inclui ainda Kimberly Guilfoyle, ex-comentarista da Fox News que namora Donald Trump Jr. e está ajudando a liderar os esforços de angariação de fundos da campanha de Trump.

No entanto, existem poucas indicações de que a série de casos de coronavírus entre os republicanos esteja levando a qualquer tipo de acerto de contas importante no partido. Depois que o deputado Louie Gohmert, do Texas, testou positivo nesta semana, ele culpou seu diagnóstico pelo uso da máscara.

Trump, que disse ter ficado abalado com a morte de um velho amigo que contraiu o vírus, foi fotografado apenas raramente usando uma máscara e repetidamente disse que não considera o acessório apropriado para ele. Mas passou, no entanto, apoiar o uso de máscaras por outras pessoas.

O quadro que emergiu da Casa Branca desde o início da pandemia sugeria uma atitude que, no mínimo, não era cautelosa o suficiente. Em um evento na Casa Branca, em março, com executivos do Walmart e Walgreens, Trump apertou mãos e deu tapinhas nas costas de várias pessoas, levando os críticos a reclamarem que o presidente estava enviando sinais contraditórios ao público.

Quando o vírus ressurgiu depois de inicialmente parecer ter sido controlado, foram necessárias semanas de pressão pública e lobby privado por conselheiros e amigos para que Trump reconhecesse que o vírus havia ressurgido no sul e oeste dos EUA.

Até alguns dos críticos mais severos da liderança republicana disseram não acreditar que a morte de Cain vá causar muita reflexão dentro do partido.

Evan McMullin, que concorreu contra Trump como candidato de um terceiro partido em 2016, escreveu no Twitter que Cain foi “a primeira vítima sênior do culto à negação científica de Trump”.

Em uma entrevista, McMullin disse que tinha pouca esperança de que isso fosse um alerta. “Eu gostaria que fosse”, disse ele. “Muitos eleitores que apoiam o presidente vivem em um ambiente de informações alternativo e totalmente diferente, no qual as notícias da morte de Herman Cain – sua ida ao comício de Trump e sua decisão de não usar máscara – não os alcançam.” 

 

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