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A morte do diálogo

O ambiente em que os atentados ocorrem é sempre o da polarização

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2018 | 03h00

Dois acontecimentos têm o poder de catalisar processos históricos, ou de mudar o seu rumo: guerras e assassinatos políticos. Nas tentativas de assassinato, o impacto é ampliado porque o alvo atua como protagonista nos seus desdobramentos, no papel de vítima.

Um pode até engatilhar o outro: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando precipitou a 1.ª Guerra. A história dos Estados Unidos é marcada por assassinatos políticos – mais de meia centena.

Por personificar a abolição, o presidente Abraham Lincoln foi morto em 1865 em um teatro em Washington por um defensor da escravidão. Sua morte ocorreu na Sexta-Feira da Paixão, sob a comoção da Guerra Civil que chegava ao fim, o que lhe deu contornos de martírio e reforçou o apelo moral da causa abolicionista. 

“Eu vi a terra prometida. Posso não chegar lá com vocês. Mas quero que saibam esta noite que nós, como povo, alcançaremos a terra prometida.” Essas palavras, ditas na véspera de seu assassinato, em 1969, também conferiram à luta do pastor negro Martin Luther King Jr. uma áurea mística. Sua voz ainda ecoa no esforço de muitos americanos de atingir a igualdade racial.

As motivações do assassinato de John Kennedy em 1963 são mais obscuras, o que tornou seu impacto político ainda mais disseminado: retaliação da comunidade de inteligência pelo fiasco do desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba; a guerra de seu irmão Robert, secretário da Justiça, contra o crime organizado; ou apenas a mente conturbada de Lee Harvey Oswald, de 24 anos? O posterior assassinato de Robert aumentaria a mística em torno do nome Kennedy.

John Hinckley Jr., que disparou seis tiros contra o presidente Ronald Reagan em 1981, para impressionar a atriz Jodie Foster, teve diagnóstico de demência. A futilidade do atentado não evitou que ele fortalecesse o mandato de Reagan, iniciado havia apenas 69 dias, para enfrentar as resistências a suas reformas liberais, que serviriam de paradigma econômico para todo o mundo.

O assassinato, em 1948, de Jorge Eliécer Gaitán, candidato de esquerda à presidência da Colômbia, desencadeou uma onda de distúrbios chamada “Bogotazo”, e deu combustível à matança entre conservadores e liberais. Conhecida como “La Violencia”, ela causou 200 mil mortes entre 1946 e 1964, e culminou na criação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que durariam mais de cinco décadas até depor armas e se converter em partido político no ano passado.

No Brasil, a violência costuma atingir políticos com atuação municipal ou estadual. Exceção foi o atentado, em 1954, contra o jornalista e candidato a deputado federal Carlos Lacerda, feroz crítico de Getúlio Vargas. Foram acusados membros da guarda presidencial, o que levou a cúpula militar a exigir a renúncia do presidente, que em vez disso se suicidou. 

O líder populista avisava que “só morto sairia do Catete”. Sua carta dramática começava falando das “forças contra o povo” e concluía com a frase “saio da vida para entrar na História”, antes de dar um tiro no peito.

O fim trágico produziu comoção nos brasileiros. A imagem de “pai dos pobres”, em vida, elevou-se, com sua morte, a um nível místico, sacramentando a relação paternalista com o Estado, já antes presente na cultura brasileira.

Atentados impulsionam processos em andamento. Suas consequências podem ser variadas. O ambiente em que eles ocorrem, no entanto, é sempre o mesmo: a polarização. Marcam o momento em que o argumento dá lugar à posição: a morte do diálogo. Que agora os dois protagonistas da eleição estejam, um na prisão e outro no hospital, diz muito sobre o momento do Brasil.

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