A morte do populismo latino-americano?

Eleição de Macri por margem estreita não é suficiente para decretar fim do sucesso de governos de esquerda na região

Peter Hakim, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2015 | 05h00

Há mais de um século, o escritor americano Mark Twain disse: “As notícias sobre a minha morte têm sido levemente exageradas.” Desde que Mauricio Macri foi eleito presidente da Argentina, em 27 de novembro, uma infinidade de artigos vem proclamando a sentença de morte do populismo de esquerda na América Latina e o final da “onda rosa”, que levou governos esquerdistas ao poder em muitos países latino-americanos, a começar por Hugo Chávez, na Venezuela, em 1999.

A manchete do Chicago Tribune foi um típico exemplo: “Macri marca o fim da idade de ouro da esquerda populista da América Latina”. É difícil acreditar, contudo, que uma eleição vencida por pouco mais de dois pontos porcentuais sinalize muita coisa para a região como um todo. Afinal, foi uma eleição realizada num país que a quatro anos registra um crescimento débil, 30% de inflação e a paralisação de novos investimentos. Além disso, Macri e seu oponente concordavam amplamente sobre como recuperar a economia tão atribulada, diferindo apenas quanto ao ritmo e aos detalhes das mudanças políticas.

E há também outra questão pendente que é saber se o novo governo argentino, que enfrentará uma maioria oposicionista nas duas Casas do Congresso e governos também de oposição em muitas províncias, conseguirá implementar seu programa de reformas e restaurar o crescimento – ou se a economia continuará cambaleando e decepcionando, o que pode acarretar uma nova reviravolta política num país imprevisível.

Na verdade, os resultados da eleição na Argentina devem ser interpretados como a demonstração da força persistente do populismo no país. Não obstante o estado deplorável da economia e um candidato nada inspirador, o governo conseguiu abocanhar quase 50% dos votos. Talvez a América Latina esteja abandonando a esquerda e se voltando para a direita, mas é preciso mais evidências disso do que a eleição argentina. Seguramente, muitos outros governos de esquerda e de centro-esquerda na América do Sul também vêm lutando para manter sua base de apoio.

Na Venezuela, a previsão é de que a oposição de centro-direita terá uma vitória esmagadora nas eleições legislativas de hoje – apesar de o governo continuar com o monopólio do poder por algum tempo ainda. No entanto, a esquerda política venezuelana já sofreu seu mais violento revés há dois anos, quando Hugo Chávez morreu.

Ele era o populista mais intrépido e carismático da América Latina e as consequências do seu desaparecimento foram agravadas pela quase simultânea queda vertiginosa dos preços do petróleo, o que reduziu o fluxo de caixa necessário para sustentar um governo perdulário e profundamente antiamericano.

Ninguém esperava muito do sucessor de Chávez, Nicolas Maduro. Para muitos, é uma surpresa o fato de ele se manter no poder por tanto tempo, especialmente depois de sua vitória por pequena margem sobre o candidato da oposição, Henrique Capriles.

Sucesso. Embora considerado por todos a história de sucesso da América Latina no século 21, particularmente durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, o Brasil hoje é visto como mais um desastre populista. Não há dúvida que Lula e particularmente sua sucessora, Dilma Rousseff, adotaram uma série de medidas econômicas erradas que resultaram numa recessão profunda e prolongada.

No entanto, ainda no ano passado, Dilma conquistou um segundo mandato numa eleição acirrada, basicamente com a mesma margem de votos de Macri na Argentina. Os lamentáveis índices de popularidade de Dilma neste ano, de acordo com as pesquisas, em torno dos 10%, não são uma afirmação ideológica da população brasileira. Pelo contrário, são uma resposta pragmática à estagnação econômica do Brasil, combinada com os monstruosos escândalos de corrupção do seu partido e governo, tudo isso agravado por sua medíocre habilidade política. Mas, de alguma maneira, ela ainda pode permanecer no cargo por mais três anos, o que daria a ela e ao PT a oportunidade de reconquistar o apoio perdido.

No Chile, os índices de aprovação da presidente socialista, Michelle Bachelet, despencaram depois de menos de um ano do seu segundo mandato, consequência de uma economia em depressão e de um escândalo envolvendo conflito de interesses relacionado ao seu filho. Mas, apesar de a coalizão de centro-esquerda se manter no governo do país pela maior parte dos últimos 21 anos, o Chile – cuja economia é a melhor administrada na região – dificilmente seria considerado populista ou fazendo parte da famosa guinada à esquerda.

Tampouco o governo do Peru, onde o apoio ao presidente Ollanta Humala de modo algum diminuiu, enquadra-se no molde populista, embora Ollanta tenha sido um admirador de Hugo Chávez. E também não podemos qualificar como de esquerda o presidente da Guatemala e ex-general do Exército Otto Perez Molina, destituído do cargo este ano depois de incansáveis manifestações quando ficou exposto seu papel no comando de um esquema de subornos e propinas. Ou o presidente Enrique Peña Nieto, do México, cuja popularidade despencou no ano passado.

Seria um erro omitir o fato de que a esquerda populista ainda está muito arraigada em países onde foram registrados alguns sucessos econômicos. Bolívia e Nicarágua, por exemplo, e talvez o Equador, embora o apoio ao presidente Rafael Correa tenha diminuído e ele afirme que não tentará uma reeleição. Além disso, há um ano a ainda popular coalizão de esquerda do Uruguai, a Frente Ampla, venceu facilmente sua terceira eleição consecutiva.

Mesmo em áreas onde governos de esquerda têm perdido força, algumas realizações bem-vindas devem ser preservadas, particularmente a ênfase em programas e políticas para reduzir as inaceitáveis taxas de pobreza e de desigualdade que, por outro lado, contribuíram para produzir uma classe média mais ampla, mesmo que vulnerável.

A esquerda latino-americana tem todas as razões para se preocupar com as atuais tendências. Seu poder e credibilidade declinaram drasticamente em muitos países e há poucas indicações de novos ganhos. Os governos de esquerda, contudo, não são rejeitados por suas ideias ou objetivos políticos, mas vêm perdendo eleições e contabilizando quedas nos índices de popularidade porque os eleitores estão fartos da sua atuação, dos resultados econômicos pavorosos, das burocracias ineficientes e perdulárias e uma violência e corrupção implacáveis.

A esquerda está debilitada na América Latina, mas é cedo para prever seu desaparecimento. Um vigoroso retorno é quase certo se partidos conservadores não mostrarem um governo melhor do que exibiram no passado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.