A morte dos inocentes

A realidade do que transpirou em Newtown pode fazer da pessoa mais devota um Ivan Karamazov, de Dostoievski

É COLUNISTA, ESCRITOR, ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h06

Newtown, Connecticut, fica a cerca de 32 quilômetros da cidade onde minha mulher cresceu. É o tipo de lugar que recompensa passear pelas estradas da Nova Inglaterra: há grandes casarões vitorianos flanqueando a rua principal, uma colina com um enorme mastro de bandeira erguendo-se no centro da cidade e uma grande campina ao lado, com estradas vicinais sombreadas e casas de fazenda nos morros distantes.

Quando se vive numa cidade agitada e cheia de si, é fácil idealizar uma cidade como Newtown e talvez imaginar uma escapada para lá algum dia, com os filhos a reboque. A última vez que passamos de carro por lá foi há mais de um ano: era um crepúsculo de verão e havia famílias por toda parte - meninos de bicicleta, pessoas aglomeradas em torno de um quiosque de sorvete, as imagens da inocência de cidade pequena brilhando nos vidros de nosso carro como um sequência de slides.

Qualquer adulto sabe que essa inocência de cidade pequena é ilusória e o que parece puro para forasteiros pode ser obscurecido pelas mazelas como qualquer outro lugar onde seres humanos vivem juntos, e sozinhos.

Mas, mesmo assim, a ilusão tem um poder real, ao menos porque o sonho da vida em cidade pequena faz o universo todo parecer, de alguma forma, mais amável e aconchegante. Se Bedford Falls, ou Stars Hollow, ou Mayberry existirem em algum lugar, tendemos a sentir - na Nova Inglaterra ou Nebraska, no presente ou no passado - que talvez haja alguma esperança também para o restante de nós. Talvez o universo realmente tenha sido pensado para ser um lar para a humanidade, e não apenas um cosmos cegamente cruel em que o destino de uma criança de 6 anos é significativo para seus pais, mas não mais significativo em termos absolutos que o estalar de uma concha marinha ou a extinção de uma estrela.

Mas se o ideal do bom lugar, do Éden ou Arcádia perdida, pode incitar um resto de esperança religiosa mesmo em enrijecidos materialistas, a realidade do que transpirou na Newtown real no fim de semana - a matança a sangue frio de 20 criancinhas - pode fazer um Ivan Karamazov mesmo do mais devoto.

No romance famoso de Fiodor Dostoievski, Ivan é o irmão Karamazov que reúne histórias de crianças torturadas, espancadas, mortas - bebês escorados nas pontas de baionetas de soldados, um menino servo morto pelos cães de seu amo, uma criança de 5 anos trancada numa câmara frigorífica por seus pais.

Ivan invoca esses inocentes numa fala que continua sendo uma das refutações mais poderosas à ideia de um Deus bondoso e onisciente - uma fala que aceita a possibilidade de que a história cristã do livre arbítrio levando ao sofrimento e à eventual redenção poderia ser verdadeira, mas rejeita seu Autor de toda sorte com base em que o preço de nossa liberdade é alto demais.

"Você consegue compreender", ele pergunta a seu irmão mais religioso, "por que uma criaturinha, que não consegue nem sequer compreender o que lhe foi feito, deveria bater em seu coraçãozinho sofrido com seu punho minúsculo no escuro e no frio, e chorar suas lágrimas mansas e não ressentidas para pedir ao bondoso Deus para protegê-la.... Você compreende por que essa infâmia pode ser e é permitida? Sem ela, assim me dizem, o homem não poderia ter existido sobre a Terra, pois não poderia distinguir bem e mal. Por que ele deveria conhecer esse bem e mal diabólico quando isso custa tanto?" Talvez, admite Ivan, haverá alguma harmonia final em que cada lágrima é enxugada e cada sofrimento humano se revela insignificante ante as glórias da eternidade. Mas essa reconciliação seria comprada a um "preço excessivamente alto". A esperança do paraíso, ele diz ao irmão, não vale "as lágrimas daquela única criança torturada".

É revelador que Dostoievski, ele próprio um cristão, não tenha oferecido nenhuma refutação teológica direta à fala de seu personagem.

O contraponto de Ivan em Os Irmãos Karamazov é fornecido por exemplos de amor cristão transcendendo o sofrimento de outros personagens, e não por uma justificação retórica da bondade divina.

Nisto, o romancista russo estava sendo fiel ao espírito do Novo Testamento, que igualmente tenta estabelecer a bondade de Deus mais por uma narrativa do que por um argumento, uma revelação de sua solidariedade com a luta humana em vez de uma prova filosófica de sua benevolência.

Da mesma maneira, a única coisa que minha tradição religiosa tem a oferecer para a enlutada Newtown de hoje - além de um testemunho devidamente respeitoso a seu terrível sofrimento - é uma versão dessa história, e o realismo sobre sofrer que ela contém.

Esse realismo pode ser difícil de se observar num período natalino, quando o lado sentimental da fé toma conta do palco cultural. Mas a história do Natal não é apenas a manjedoura, os pastores e o menino Jesus, manso e dócil.

A ira de Herodes está ali presente também, e os inocentes massacrados de Belém, e a mirra que prepara corpos para o túmulo. A cruz assoma por trás do estábulo - a sombra de violência, agonia e morte.

Nas colinas desfolhadas do Connecticut ocidental, este é o único espírito de Natal capaz de fazer sentido agora. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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