A morte por divulgar as verdades no Paquistão

Mais um jornalista é assassinado por denunciar as práticas corruptas de autoridades paquistanesas

Uma Cheema, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2011 | 00h00

 

 

 

Enterramos mais um jornalista. Syed Saleem Shahzad, repórter investigativo do Asia Times Online, pagou o preço supremo por dizer as verdades que as autoridades não querem que a população conheça. Ele desapareceu alguns dias depois de escrever um artigo afirmando que elementos da Al-Qaeda tinham se infiltrado na Marinha do Paquistão e a investida do Exército contra os insurgentes é que tinha precipitado o atentado terrorista do dia 22 contra a base naval de Karachi. Sua morte deixou os jornalistas paquistaneses abalados e desesperados.

Não consegui dormir na noite em que a morte dele foi confirmada. O fato de ele ter sido torturado traz à lembrança aquela noite glacial de setembro, quando fui capturado por agentes do governo. Durante o funeral de Saleem, um pensamento não me abandonava: "Podia ter sido eu".

Após a cerimônia, os jornalistas presentes vieram me consolar, dizendo que tive sorte por ter conseguido uma chance de viver, o que Saleem não teve. Sorte, no entanto, é um termo relativo.

Adil, meu filho de 2 anos, foi a primeira pessoa em que pensei quando fui sequestrado. Os jornalistas no Paquistão não se beneficiam de nenhum sistema de previdência social institucional; aqueles que são mortos cumprindo seu dever deixam as famílias à mercê de uma economia frágil.

Quando homens que se passavam por policiais me prenderam sob a falsa acusação de assassinato, senti-me desamparado. Fui amordaçado, algemado, sem poder informar ninguém sobre meu paradeiro. Nem mesmo amigos que eu havia deixado 15 minutos antes. Meu celular foi confiscado e desligado. Apesar das muitas ameaças que já tinha recebido, jamais esperei que isso pudesse ocorrer.

Certamente, fiz muitas reportagens expondo as práticas corruptas de autoridades do alto escalão e artigos criticando o Exército e as agências de inteligência. Depois da sua publicação, a ISI, agência de inteligência do Paquistão, contatou-me. Primeiro, fui avisado para não escrever demais sobre eles; depois me foram enviadas mensagens com ameaças sutis. Mas jamais imaginei que uma ação era iminente.

Naquele dia 4 de setembro, fui levado a uma casa abandonada, em vez de uma delegacia de polícia, onde tiraram toda a minha roupa e me açoitaram com um chicote e uma vara de madeira. Enquanto um homem me torturava, perguntei que crime tinha cometido para ser punido daquela maneira. Um outro respondeu: "Suas reportagens contrariaram o governo".

Não foi um crime e, portanto, não tinha por que me desculpar. Em vez disso, comecei a orar. "Oh Deus, por que estou sendo punido?" A resposta veio do líder do grupo: "Se você não consegue evitar a violação, aproveite". E empregou uma linguagem abusiva todas as vezes que se dirigia a mim.

"Marcas eternas". "Já foi torturado antes?", perguntou. "Não", respondi. "Essas marcas ficarão em você para sempre, como um aviso para nunca desafiar as autoridades", ele retrucou. Eles me torturaram durante 25 minutos, rasparam minha cabeça, as sobrancelhas e o bigode e depois filmaram e fotografaram meu corpo nu. Fui jogado a uns 160 quilômetros distante de Islamabad com um aviso para não falar sobre o assunto ou sofreria as consequências.

Os meses seguintes foram de pavor. Passei a ter insônia. Acordava com medo de que alguém me espancasse. Não saía para caminhar, temendo que alguém pudesse me raptar novamente e eu não retornasse jamais para casa. Cumpro hoje uma prisão domiciliar autoimposta. Não saio de casa, a não ser por algo muito sério. Fui perseguido inúmeras vezes após o incidente. Meu filho me faz perguntas sobre as pessoas que me atacaram, mas não respondo. Não quero semear o ódio no seu coração.

Quando Saleem desapareceu, perguntei-me se ele teria pensado nos seus filhos, como eu. Ele tinha deixado Karachi, sua cidade natal, depois de receber ameaças de morte e passou a viver com a mulher e os três filhos em Islamabad. Com frequência viajava para as áreas tribais ao longo da fronteira afegã para fazer reportagens.

Tahir Ali, um amigo nosso, um dia perguntou se ele não tinha medo nas áreas tribais. Com um sorriso, Saleem respondeu: "A morte pode ocorrer até em Islamabad". Suas palavras foram assustadoras e proféticas. A morte de Syed Saleem Shahzad é mais uma advertência aterrorizadora para os jornalistas paquistaneses. Ele é o quinto a morrer nos primeiros cinco meses de 2011. Os jornalistas são mortos a tiros como cachorro de rua no Paquistão - e facilmente assassinados porque seus assassinos estão no topo do poder.

Quando Daniel Pearl foi brutamente morto por militantes em Karachi, em 2002, seu caso foi levado ao tribunal e quatro cúmplices do crime foram condenados. Isso ocorreu apenas porque ele era um jornalista americano. Se tivesse sido um paquistanês, a justiça não teria sido feita.

Hoje, a impunidade impera e nenhuma organização tem poder o bastante para pressionar o governo a levar os assassinos de Saleem a julgamento.

Os jornalistas têm demonstrado uma capacidade de resistência, mas é difícil perseverar quando o próprio Estado se torna cúmplice dos crimes. Aqueles que se manifestam, como no caso de Saleem, vêm pagando um preço: estão sendo intimidados e acossados.

Encruzilhada. O Paquistão está numa encruzilhada, assim como sua mídia. Numa situação de pessimismo e desalento, os jornalistas paquistaneses oferecem um raio de esperança para os cidadãos deste país e conquistam a confiança da população. Mesmo o ex-primeiro ministro Chaudhry Shujaat Hussain reconheceu que as pessoas, que antes iam à polícia para se queixar, hoje recorrem à imprensa.

Essa confiança, porém, será corroída se os jornalistas continuarem sendo intimidados para não buscar a verdade. As organizações de notícias em todo o mundo precisam cooperar na busca de justiça para Saleem e para pôr um fim à cultura de impunidade das agências de inteligência.

Deveria ser criado um prêmio para jornalistas investigativos em sua honra, como foi feito no caso de Daniel Pearl.

Nenhuma mensagem para seus assassinos seria mais vigorosa do que torná-lo imortal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É REPÓRTER DO "THE NEWS INTERNATIONAL", MAIOR JORNAL EM LÍNGUA INGLESA DO PAQUISTÃO E MEMBRO DA DANIEL PEARL FOUNDATION

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