Mohammed Badra/EFE
Mohammed Badra/EFE

A mudança da Ômicron na Europa: pandemia ou endemia?

No Reino Unido, na França, na Espanha e em outros países de toda a Europa, políticos e alguns especialistas em saúde pública estão recomendando uma nova abordagem em relação à pandemia de coronavírus

Megan Specia / The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2022 | 10h00

LONDRES — No Reino Unido, na França, na Espanha e em outros países de toda a Europa, políticos e alguns especialistas em saúde pública estão recomendando uma nova abordagem em relação à pandemia de coronavírus carregada de coragem e resignação: que a covid-19 está se tornando um elemento da vida cotidiana.

Governos estão se valendo de um momento em que suas populações têm testemunhado menos quadros graves da doença e, em alguns casos, uma diminuição no número diário de novas infecções, após semanas de crescimento recorde. E estão diminuindo o grau de urgência de suas políticas de mitigação.

Na Espanha, por exemplo, o primeiro-ministro Pedro Sánchez declarou na semana passada que os cidadãos “terão de aprender a conviver com o coronavírus, como fazemos com muitos outros vírus” e afirmou que seu país deve alinhar sua abordagem nacional contra a covid-19 a um nível próximo à maneira com que lida com surtos de gripe. O ministro da Saúde da França, Olivier Véran, disse recentemente que o alto índice de infecção em seu país e sua alta taxa de vacinação podem “talvez" significar que esta seja a onda final de coronavírus.

A mudança de posição ocorre mesmo após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter alertado, esta semana, sobre tratar a covid-19 como uma gripe sazonal, afirmando que é cedo demais para essa abordagem. Muito ainda é desconhecido a respeito da covid-19, afirmou a OMS. E a elevação nos casos impulsionada pela variante Ômicron ainda assola o continente, enquanto a população de grande parte do mundo continua vulnerável ao vírus em razão da ausência de uma vacinação ampla, e mais cepas ainda poderão surgir.

Ainda assim, defensores da abordagem “aprendamos a viver com isso” apontam que a mais recente alta nos casos de covid-19 é diferente dos primeiros momentos da pandemia em importantes aspectos, incluindo a população em grande parte vacinada na Europa, especialmente na Europa Ocidental, e o índice de hospitalização muito menor.

O sentimento é evidente nas políticas em evolução que o governo britânico tem adotado desde o início deste ano, que se afastaram acentuadamente do “pé de guerra” que o serviço público de saúde pregou em dezembro.

As mudanças incluem períodos menores de isolamento e eliminação da obrigatoriedade de testes anticovid anteriores a viagens de pessoas que se dirigem ao Reino Unido — em grade parte porque a Ômicron já é tão predominante que as testagens surtem um efeito limitado na contenção de sua disseminação.

Houve alguns sinais concretos de que o Reino Unido poderia estar virando uma página. Na sexta-feira, 99.652 novos casos foram registrados, uma queda notável em relação aos 178.250 casos registrados no mesmo dia da semana passada.

Peter English, um consultor sobre controle de doenças infecciosas aposentado, afirmou que, para muitos especialistas em saúde pública e cientistas britânicos, o debate se afastou dos lockdowns na direção de medidas de mitigação sensatas. A maioria deles está atualmente encorajando medidas como obrigatoriedade de uso de máscaras em locais públicos e legislações para regulamentar padrões de ventilação em espaços fechados.

“Houve uma discussão a respeito de covid-zero e tentar eliminar o vírus por meio de restrições”, afirmou ele. “Acho que perdemos essa discussão. Ao permitir que a disseminação chegasse ao ponto que chegou, será muito, muito difícil guardar o gênio de volta na lâmpada.”

Dessa perspectiva, afirmou ele, teremos de conviver com sua endemia. Mas, acrescentou ele, “endemia não significa menor gravidade”, e ele aconselhou cuidado com a ideia de simplesmente “aprender a conviver com o vírus” sem que medidas de mitigação sejam aplicadas.

Hospitais

Uma das maiores preocupações no Reino Unido tem sido a intensa pressão que o vírus coloca sobre o Sistema Nacional de Saúde (NHS). Mas algumas das preocupações imediatas de que os hospitais britânicos poderiam ter sua capacidade esgotada por pacientes com covid começaram a se dissipar durante a onda mais recente do vírus.

Matthew Taylor, diretor da Confederação do NHS, uma organização que reúne diretores de hospitais, afirmou na quarta-feira que a não ser que as coisas mudem supreendentemente, o país está próximo do pico nacional de internações por covid.

Na Espanha, um novo sistema de monitoramento está sendo criado para ser empregado uma vez que a atual elevação no número de casos abrande, e o país também relaxou recentemente regras de isolamento. Mas a iniciativa de Madri de tratar a Ômicron mais como uma gripe tem sido criticada por alguns médicos e associações de profissionais, assim como pela Agência Europeia de Medicamentos, que afirma que o vírus ainda se comporta de maneira pandêmica.

Na França, as infecções ainda estão tendendo a aumentar, com aproximadamente 300 mil novos casos diários de covid registrados nesta semana, quase seis vezes o índice de um mês atrás. Mas o presidente Emmanuel Macron, diante da eleição presidencial em abril, optou por manter restrições mínimas e colocou o foco, em vez disso, em insistir que os franceses se vacinem.

A Alemanha está atrasada em várias semanas em relação aos vizinhos europeus no combate ao aumento nas infeções. Na terça-feira, o país registrou 80.430 novos casos, quebrando o recorde estabelecido em novembro. Mas especialistas independentes da área científica se abstiveram de aconselhar o governo a impor novas restrições, apesar da ampla certeza de que o número de infecções continuaria a aumentar.

Christian Drosten, o virologista mais renomado da Alemanha, notou que o país finalmente terá de se mobilizar para tratar o vírus como endêmico. “Coloquemos desta maneira: não devemos escancarar completamente as portas”, afirmou ele na semana passada em entrevista a um podcast. “Mas em algumas áreas temos de abrir um pouco as portas ao vírus.”

A Itália também está lutando contra alguns dos índices diários de infeção mais elevados desde o início da pandemia. Mas nas semanas recentes o país enrijeceu as restrições, tornando a vacinação obrigatória para pessoas com idades a partir dos 50 anos e incluindo a exigência de um passe de saúde na utilização do transporte público.

Um porta-voz do Ministério da Saúde da Itália afirmou que o país “ainda está numa fase delicada” e que a elevação recente no número diário de casos continua a pressionar as UTIs. Cientistas italianos tenderam a concordar que é cedo demais para declarar a situação do coronavírus endêmica, mesmo que tenha chegado a hora de “começar a pensar a respeito de um novo normal” na coexistência com o coronavírus, afirmou Fabrizio Pregliasco, especialista em vírus da Universidade de Milão.

Esse tipo de cautela é evidente entre uma ampla gama de profissionais de saúde e cientistas de toda a Europa, alguns deles publicaram um apelo esta semana no British Medical Journal por melhor coordenação no combate à pandemia. Eles argumentaram que ainda existe uma necessidade urgente de “reduzir as infecções, para evitar sobrecarregar os sistemas de saúde e proteger a vida pública e a economia”.

“Mesmo segundo as considerações mais otimistas”, escreveram eles, “permitir à Ômicron espalhar-se de maneira descontrolada arrisca consequências potencialmente devastadoras”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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