A multiplicação de cegos, mortos e extremistas

Análise: Gilles Lapouge

O Estado de S.Paulo

06 Maio 2012 | 03h07

A Grécia lança a caça aos cegos e aos mortos. Depois que o país foi submetido a uma austeridade cruel por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, em troca de uma gigantesca injeção de euros fornecidos a Atenas em dois anos, as administrações iniciaram cerco aos fraudadores.

Entre eles há duas famílias: a dos cegos e dos mortos. Há dois meses foi verificado que 40.000 mortos continuam a receber benefícios sociais. E que o número de cegos recebendo pensões do Estado aumentou. Em certos vilarejos mais distantes, calcula-se que a metade da população era cega. O fisco encorajou as pessoas a recobrar a visão.

O escrutínio marca o encerramento de um longo período de calma, após 1974, depois do fim do regime despótico dos coronéis. Quanto à Europa, a Grécia é um teste. Bruxelas, Paris e Berlim desejam saber se os países da Europa corroídos pela pobreza e o endividamento conseguirão suportar o receituário aterrorizador prescrito pelos médicos de Bruxelas e Berlim.

A eleição também responderá à pergunta: é o fim do bipartidarismo na Grécia? Depois de seu retorno à democracia, há 38 anos, o país foi governado por duas grandes agremiações: a Nova Democracia, de centro-direita, e o Pasok, de centro-esquerda. Os dois juntos reuniam 80% dos votos. Domingo, de acordo com as pesquisas, juntos não deverão obter mais de 45% dos sufrágios.

Estes dois grandes partidos, que hoje coabitam num governo de coalizão, estão pagando pela "crise" que provocaram em razão da sua cegueira, sua nulidade, sua frivolidade, sua imoralidade, e também pelo remédio para a crise, ou seja as poções drásticas que a Grécia tem sido obrigada a engolir. Remédios que além de amargos não salvaram a Grécia, como também fizeram o país mergulhar um pouco mais na desgraça. Para que lado os que abandonaram os dois partidos no governo irão se voltar? Evidentemente, para as alas extremistas de esquerda ou de direita. A imagem da chanceler alemã é insultada nas ruas de Atenas com referências nauseabundas ao nazismo.

Como em todas as tempestades observamos que vêm se formando uma onda de xenofobia, de racismo. E um novo partido de extrema direita avança respaldado nesses ódios. Ele se intitula Chryssi Avgi (Aurora Dourada). Seus métodos são infames. Uma noite, em abril, no bairro de Kallithea, um grupo de motoqueiros vestidos de preto atacou um entregador de pizza paquistanês e o espancou a golpes de cassetete. Os transeuntes protestaram. O bandidos responderam: "Não fiquem inquietos. Somos da Aurora Dourada".

Qual o programa desse grupo violento? "Nossa ideologia tem origem no nosso passado glorioso, da Antiguidade a Bizâncio e o general Metaxas." O fundador do partido, Nikos Michaloliakos foi eleito para a câmara municipal de Atenas em 2010. Ao entrar pela primeira vez na prefeitura, ele fez a saudação nazista. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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