Andrei Netto/Estadão
Andrei Netto/Estadão

A muralha europeia contra imigrantes

No Marrocos, clandestinos aguardam em grutas chance do sonho europeu

ANDREI NETTO, enviado especial a Nador, Marrocos, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h11

Passava das 22 horas de 17 de setembro quando Condé Karouno, de 18 anos, recebeu o sinal. Depois de três meses de espera e duas tentativas frustradas, uma massa humana de centenas de imigrantes, como ele, correu montanha abaixo, saltou as valas escavadas na areia e se jogou sobre as grades que demarcam a fronteira entre Nador, no Marrocos, e Melilla, enclave da Espanha no Norte da África.

Assediado por um helicóptero da polícia e correndo contra o tempo, escalou os sete metros da primeira barreira, superou os quatro da segunda, mas, quando subia os sete metros da terceira grade, despencou junto com dezenas de outros sobre uma teia de arames farpados. Três de seus colegas morreram pisoteados.

Condé é um dos milhares de imigrantes que ilustram a crise humana que bate às portas da Europa. Sob o argumento de que precisa se proteger do assédio da imigração, Bruxelas e os governos de países como França, Itália, Espanha e Grécia reforçaram a repressão e vêm erguendo muralhas e grades nos mais visados pontos de acesso ilegal ao continente. O resultado são mortes, pobreza extrema e um crescente número de redes de tráfico de pessoas em torno do "eldorado" europeu.

Da Polônia, no extremo leste, à Espanha, no extremo sul, pelo menos oito pontos da Europa se transformaram em rotas de peregrinação de imigrantes ilegais, a maioria africanos e árabes. Ao longo da última semana, o Estado percorreu um trecho de uma dessas rotas, a do Mediterrâneo Ocidental, e encontrou subsaarianos refugiados nas florestas de eucaliptos do Marrocos à espera de uma oportunidade de tocar o solo espanhol.

Escondidos da polícia marroquina, eles são os miseráveis dentre os miseráveis que tentam a imigração na África. Munidos apenas da roupa do corpo e sem dinheiro, não podem pagar os € 2 mil a € 3 mil exigidos pelas redes de tráfico que realizam as travessias em barcos pelo Mar Mediterrâneo, partindo da Tunísia ou da Líbia, em direção à ilha de Lampedusa, na Itália. A opção de milhares tem sido cruzar vários países, de carro ou a pé, até a fronteira entre Nador e Melilla, onde arriscam a vida forçando a passagem por terra em direção à Espanha.

No discurso dos imigrantes, fica claro o que buscam: fugir da fome, da miséria e de guerras, como na Líbia ou no Mali, e buscar um trabalho em que ganhem em euro, tirando suas famílias da pobreza. Com esse fim na cabeça, se organizam em grupos e atacam de uma só vez, de forma a sobrecarregar a segurança espanhola.

"Passar as grades sozinho é impossível. Então, 'criamos a massa' e vamos todos, às vezes 100, 150, 200, 400 clandestinos", explica o guineano Condé, referindo-se aos imigrantes que assaltam as grades da fronteira. "Fazemos assim porque é muito difícil. A polícia vem e manda helicópteros. Muitos caem, se ferem ou morrem. Mas eu tenho de ir para a Europa para ajudar a minha família."

O grupo de Condé vive na floresta de Gourougou, nas montanhas que cercam as cidades de Nador e Melilla. Monitorados pela polícia marroquina, esses jovens, a maioria com idades entre 16 e 30 anos, se esconde em grotas na mata entre as 7 horas e as 19 horas, quando ocorre o patrulhamento. Por temerem os espancamentos, a prisão ou a deportação pelas autoridades do Marrocos, raros são os que se aventuram nesse horário à caça ou à busca de água e alimentos no lixo deixado pela população das cidades vizinhas.

Na floresta, diz Omar Diko, pastor de ovelhas de 30 anos, vivem entre animais - e como animais. "Às vezes, recebemos ajuda, mas, na maioria dos dias, juntamos comida do lixo. Faz muito frio também e não temos cobertores, nada", conta. Omar, um malinês que há 14 meses vive na mata, já conseguiu entrar duas vezes, mas acabou expulso e com um braço fraturado.

Agora, ele espera com paciência o melhor momento. Desde o ataque de 17 de setembro - que deixou seis mortos pisoteados quando a barreira desmoronou -, a Espanha reforçou o policiamento e ampliou a grade, aumentando a altura da segunda barreira.

Por isso, explica Omar, também aumentou o risco de mortes, amputações, desfigurações, fraturas e toda sorte de lesões graves, comuns entre os que despencam das grades sobre redes de arame farpado. "Depois daquela noite ficou muito mais difícil e ainda não tentamos de novo, porque a segurança aumentou. Mas continuaremos até entrar", afirma Ibrahim Coné, de 32 anos, encanador também do Mali.

O aumento da segurança em Melilla não é um ato isolado. Pressionada pela fluxo de imigrantes e pelos discursos xenofóbicos de partidos de extrema direita, a Europa está se transformando em um bunker. Uma das medidas adotadas é reforçar a Agência de Vigilância de Fronteiras (Frontex), cujo papel repressivo é denunciado por ONGs.

Futuro. No primeiro semestre de 2013, a agência esteve por trás de 80 mil expulsões de ilegais realizadas por autoridades de países como França, Itália, Espanha ou Alemanha. No mesmo período, a agência afirma ter "socorrido" 16 mil imigrantes. "Se vemos pessoas em dificuldade, nós as salvamos. É uma responsabilidade humana", garantiu Gil Arias Fernandes, diretor adjunto da Frontex.

Para ONGs como a Associação Pró-Direitos Humanos da Andaluzia (APDHA), na Espanha, as iniciativas da União Europeia para bloquear a passagem pelos postos de alfândega empurraram os imigrantes para rotas ilegais, sujeitas ao tráfico de seres humanos e cada vez perigosas. Em 2012, 225 pessoas morreram apenas na fronteira sul da Europa - Espanha, Itália e Grécia. Destas, 156 na travessia pelo Marrocos. Cego de esperança, Condé Karouno sabe dos riscos, mas não os teme. "Não vou desistir. Vim para buscar o meu futuro."

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