A necessidade de um terceiro candidato

Os EUA precisam de reformas e, para o bem do país, Michael Bloomberg deveria lançar-se na corrida presidencial como candidato independente

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h07

Artigo

Na semana passada, peguei um trem em Washington. A rua na rotatória da Union Station está em estado tão ruim que me senti numa montanha russa. Viajei no Amtrak Cela, nossa triste versão de um trem rápido, onde perdi muitas chamadas no celular. Parecia que estava numa ilha deserta, não viajando de Washington para Nova York. Quando retornei à Union Station, a escada rolante do estacionamento estava quebrada. Talvez você já esteja acostumado a tudo isso e não ligue mais. Eu não. Os EUA precisam de uma reforma.

Por isso, espero que Michael Bloomberg reconsidere a possibilidade de disputar a presidência como candidato independente. Mesmo que somente para participar dos debates e dar ao nosso sistema bipartidário o choque que necessita. O presidente Barack Obama realizou muita coisa importante. Fez um trabalho consistente, controlando a crise econômica. Trabalhou bem na administração da segurança interna e iniciou reformas importantes.

No entanto, com a Europa em perigo, China e EUA cambaleantes, o mundo árabe em turbulência, os preços da energia subindo e a mudança climática, algumas tempestades reais estão a nossa frente. Precisamos impermeabilizar nossa casa americana para garantir que os EUA continuem sendo uma rocha de estabilidade para o mundo. Para isto, temos de tomar decisões difíceis e importantes, o que exigirá um líder do mais alto calibre na presidência nos próximos quatro anos.

Essa eleição tem tudo a ver com a adoção dessas medidas difíceis, investimentos inteligentes e sacrifícios compartilhados para colocar nossa economia numa rota clara no curto prazo, melhorando infraestrutura e educação, que aumentarão o nível de emprego. No longo prazo, o esforço é na direção de uma reforma fiscal, tributária e no campo das dotações orçamentárias. O próximo presidente deve ter um mandato para fazer tudo isto.

Aumento de impostos. Hoje, nenhum dos partidos reivindica esse mandato: falando sério sobre os impostos que têm de ser aumentados ou os gastos com verbas orçamentárias que devem ser cortados. Sem falar numa visão inspirada de uma renovação americana que motivará tais sacrifícios.

Por isto, acho que o debate se beneficiaria com a entrada de um candidato independente sólido como Bloomberg, um político franco, moderado ao tratar das questões sociais e um conservador em termos de política fiscal, que pode aperfeiçoar a retórica dos candidatos dos dois grandes partidos, falando honestamente sobre o que é necessário para restaurar os fundamentos da liderança global dos EUA, antes de implodirmos.

Mitt Romney não pode fazer isso por causa de sua ridícula oposição a qualquer aumento de impostos. Obama, que tem um programa de cortes, taxação e investimentos - embora insuficiente - até poderá liderar, mas, no momento, parece preocupado com questões menos importantes, preferindo propostas como "o imposto Buffet", em vez de uma ampla reforma fiscal que permita diminuir as alíquotas, eliminar deduções e aumentar a receita.

Sebastian Mallabir, especialista em economia global, estava certo ao escrever no Financial Times, semana passada, que os ricos devem arcar com impostos mais altos, mas que "uma manobra de campanha inteligente não se compara a um proposta séria. "Concentrando seus argumentos na proposta fiscal de Warren Buffet, Obama está desperdiçando sua melhor chance de conseguir um mandato para realizar uma reforma inteligente", disse Mallabir.

Bloomberg não precisa vencer para ser bem sucedido. Não necessita nem mesmo permanecer na disputa até o fim. Simplesmente concorrendo, participando dos debates e tendo um desempenho respeitável nas pesquisas - de 15% a 20% -, ele conseguirá mudar a dinâmica das eleições e, mais importante, o curso do próximo governo, seja lá quem for o presidente.

Entrando na disputa e levantando temas importantes, oferecendo programas sensatos para solucioná-los e mostrando que tem o apoio de um número crescente de americanos que se qualificam como independentes, ele obrigaria os dois candidatos a adotarem algumas de suas posições. Ao participar dos debates na TV, ele conseguiria trazer um pouco de realidade para a eleição, que está sendo esquecida. O Congresso teria de ficar mais atento.

"O tipo certo de candidato independente explicaria que a questão dos impostos, quando a economia estiver de novo nos trilhos, é esta: diante do fato de que esses tributos devem aumentar, como podemos aumentar a receita que necessitamos de um modo que seja o melhor para a economia?", escreveu na semana passada o colunista Matt Miller no Washington Post. "A resposta está numa redução de impostos na folha de pagamentos e da renda corporativa e uma tributação maior sobre o consumo e a energia poluente."

Filantropia. Depois do término do seu mandato como prefeito, em 2013, Bloomberg, aparentemente, dedicará mais tempo administrando a sua fundação. O que é louvável. O maior ato de filantropia que ele pode fazer pelo país, porém, é disputar a presidência como candidato independente, pelo menos participando de todos os debates.

Se não o fizer, a campanha se transformará em uma disputa presidencial cujo denominador comum será o mesmo no caso de ambos os candidatos. Bloomberg poderá doar cada dólar que possuir para solucionar os problemas e eles serão desperdiçados ou, mais precisamente, serão esmagados pelos nossos crescentes problemas. O ato mais patriótico que Bloomberg pode fazer é se tornar um lobista não remunerado a favor do país e para a próxima geração de americanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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