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A neve em Paris

Um mesmo assassino atinge tanto os ursos polares da Groenlândia quanto os flocos de neve: o aquecimento global

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2018 | 14h05

A neve está sobre Paris, sobre a França. É preciso aproveitar isso. É uma visão rara. A neve, como os rinocerontes e as borboletas, como leões e tartarugas, é uma espécie ameaçada de extinção. Um mesmo assassino atinge tanto os ursos polares da Groenlândia quanto os flocos de neve: o aquecimento global.

A França, que é rica em montanhas, tem uma indústria de neve de alto desempenho (esquis, resorts de inverno, etc.), próspera. Se a neve não voltar, o país perderá recursos financeiros significativos. A neve é responsável pela geração de 120 mil empregos nas estâncias de esqui dos Alpes e dos Pireneus - representa € 9 bilhões por ano. No entanto, uma grande parte dessas estações desaparecerá se o aquecimento não for contido. Os cientistas calcularam que das 21 cidades que hospedaram até agora as Olimpíadas de Inverno, oito estarão muito quentes em 2050 para recebê-las de novo. Por exemplo: Chamonix na França, Innsbruck na Áustria, Squaw Valley nos EUA, Sarajevo na Bósnia, Vancouver no Canadá, etc.

Em Paris, os 15 centímetros de neve que caíram no começo desta semana tiveram efeitos devastadores. Poderíamos pensar em uma cidade em ruínas, louca ou atingida por um ataque quase metafísico, lançado pelos Poderes Superiores não se sabe para punir qual obscuro pecado desconhecido. Um povo inteiro pisa na lama e no gelo, desliza, cai de costas e quebra o colo do fêmur. A neve foi metamorfoseada em uma lâmina de lodo infame e pegajosa. Todas as estradas que convergem para Paris ficaram cheias de milhares de carros que não conseguem sair do lugar. Paris é uma cidade cercada.

Há cinquenta anos, uma queda de neve não perturbava tanto a vida de uma grande cidade. Mas a raridade de nevascas nos últimos 20 anos desmantelou gradualmente os serviços públicos. E acima de tudo, as mentes e os corpos dos cidadãos esqueceram-se da neve, não se sabe o que fazer com esse fenômeno meteorológico. O que nesta semana foi um espetáculo de beleza, um momento de luxo, brincadeiras e loucura, agora é encarado como a sequência de um "filme de terror".

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Quanto a mim, eu gostaria de comemorar esse retorno inesperado de uma verdadeira tempestade de neve. Há muito tempo fui fascinado, como todas as crianças, por esse fenômeno insólito: a terra de um instante para outro torna-se toda branca e as estátuas dos parques, os ramos desnudos das árvores cobertas de cristais cheios de centelhas e também na imaculada virgindade do mundo, aparecem os traços de pequenos animais furtivos dos quais geralmente ignoramos a presença discreta, invisível e divina.

Eu escrevi um livro sobre neve e sua magia há 40 anos. Le Bruit de la neige (O Barulho da neve). Compilei, nesta ocasião, algumas imagens da literatura universal, que Luis de Gongora escreveu: "O amor não sabe qual é sua cor: arroxeado tom de neve ou neve arroxeada". No século 17, o clima conhece um ciclo de grande frio. A neve cai continuamente no enorme Palácio de Versalhes, residência do rei Luís XIV. Ela endureceu tanto que, no final, o belo castelo ficou envolto em uma armadura transparente de gelo de 4O cm de espessura, um castelo de conto de fadas.

Em 22 de janeiro de 1944, Pedro de Médicis, o mestre de Florença está aborrecido porque é domingo e neva, neva. Médicis convoca seu melhor artista, Michelangelo. E lhe diz: "Estou entediado. Faça-me um boneco de neve". Muitas vezes sonho com este homem de neve, esculpido por um gênio do Renascimento, com este Michelangelo que sempre escolheu para suas obras o material mais duro e incorruptível (mármore de Carrara) e é obrigado a agradar seu Príncipe usando desta vez o material mais leve, o mais frágil, o mais perecível. O mais próximo do "nada", a neve. Michelangelo buscava a eternidade. Sem dúvida, ele sentiu a carícia furtiva neste pátio dos Medici enquanto esculpia o efêmero. Se este fabuloso boneco de neve viesse a ser lançado hoje, na Sotheby's, que preços fabulosos alcançaria? 

Emily Brontë, sobre sua irmã Maria, morta: "Nesse frio sob a terra, e sobre você, esta pilha de neve". Chateaubriand fala da neve que os soldados de Napoleão enfrentaram, depois de serem obrigados a abandonar a cidade de Moscou: "Eles caem. A neve os cobre... Nós não sabemos para que lado os rios fluem. Temos que quebrar o gelo para saber qual o caminho a seguir. Perdidos na vastidão, os vários corpos fazem fogos para chamar uns aos outros e reconhecer-se, da mesma forma como os navios em perigo disparam os fogos de alerta".

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Em seu romance A Saga de Gösta Berling, Selma Lagerlöf conta um crime de neve. Uma menina, Marianne, aceitou um beijo de um sedutor. Quando volta para a casa dos pais, à noite, as portas estão fechadas. Seu pai a condenou a morrer de frio para puni-la pelo pecado da luxúria. Marianne foge, corre pela planície. Deita-se na neve, com seu vestido de veludo preto, brilhando na infinita brancura. Dois vadios, mais tarde, a encontram. São dois saqueadores, arruaceiros. Esfregam o corpo azulado pelo frio. A mesma neve que estava prestes a matar Marianne, a ressuscita.

Em 1985, para uma reportagem de O Estado de S. Paulo, passei alguns dias em Moscou no inverno. Eu vi dignitários cheios de medalhas, travessas transbordando de caviar, casas de czares ou mujiques, e Michael Gorbachev ... Esqueci toda essa tralha. Só lembrei das imensas florestas brancas. Crianças multicoloridas atirando bolas de neve umas nas outras.

No século 18, as damas diziam que Voltaire era um "amante da neve". Um poema japonês diz: "Em qualquer época, meu jardim é tão bonito. Seja no inverno Sob as pétalas de cerejeira da neve, Ou na primavera, sob a neve das pétalas de cerejeira".

Toda as neves ficam na memória. O grande poeta soviético Mandelstam, que Stalin mais tarde levou à morte, conecta a neve e a infância: "A neve cheira a maçãs, como outrora".

Mas preciso parar, mesmo que eu ainda tenha milhões de flocos na minha sacola. Eu deixarei a neve cair sozinha neste artigo. Eu simplesmente queria, caso o aquecimento global nos prive dessa joia da Criação, enviar um adeus um tanto melancólico à beleza, à bondade da neve. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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