Acervo/Estadão
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A noite que mudou um século e cunhou uma potência

Em 1917, nasceu o Estado capaz de derrotar o nazismo, inspirar utopias e dizimar milhões com um resiliente autoritarismo

Cristiano Dias / Enviado Especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 05h00

Passava de 2 horas de uma madrugada fria em Petrogrado, hoje São Petersburgo. No segundo andar do Palácio de Inverno, alguns ministros do governo provisório esticavam as canelas nos sofás. Lá embaixo, gritaria e tiros. Os passos pesados na escada eram sinal de que os bolcheviques se aproximavam da porta. A ordem era a rendição. O primeiro a entrar foi o jornalista Vladimir Antonov-Ovseenko, um baixinho magrelo, secretário do comitê revolucionário. “Vocês todos estão presos”, anunciou. Cem anos atrás, terminava assim, com pouca fanfarra, a noite que mudou o século 20.

100 anos da Revolução Russa: um olhar sobre o 'século soviético'

Em pouco tempo, um Estado agrário, pobre e analfabeto se modernizou, derrotou o nazismo e se tornou uma potência nuclear com presença nos quatro cantos do mundo. No meio do caminho, deixou um rastro totalitário e violento, com 20 milhões de mortos de fome, executados ou vítimas de conflitos internos. O que veio depois da Revolução Russa divide o pensamento de acordo com o espectro político. O consenso é raridade. 

Para o historiador Stephen Cohen, da Princeton University, a Revolução de Outubro carrega o mito de uma insurreição organizada, o imaginário de uma luta sangrenta que levou a alma de milhares de heróis. “Isso não aconteceu”, diz. Rex Wade, da George Mason University, também fala de um ar de normalidade nas ruas da cidade. “O fato mais curioso daquela madrugada de 7 de novembro de 1917 é que, enquanto ela se desenrolava no Palácio de Inverno, a vida seguia em Petrogrado.”

Há muitos relatos parecidos. Bondes e táxis rodavam como de costume. O povo circulava desavisado pela Avenida Nevski. Às 21 horas, pouco antes da investida final dos bolcheviques, o jornalista americano John Reed tomava placidamente uma sopa no Hotel France, a poucos quarteirões do Palácio de Inverno. Lojas e cinemas não fecharam as portas. No Teatro Marinski, era encenada a ópera Boris Godunov, de Modest Mussorgski. No Palácio do Povo, o cantor Feodor Shalyapin apresentava Don Carlos, de Giuseppe Verdi.

Origem

Nada disso significa que a população estivesse alienada. Antes de terminar seu jantar, John Reed ouviu do garçom um pedido para que ele se mudasse para a parte interna do restaurante, porque as luzes do salão principal seriam apagadas quando começassem os tiros. Havia tensão no ar. Tanto que o primeiro-ministro do governo provisório, Alexander Kerenski, decidiu fugir após perceber a movimentação de tropas no centro da cidade.

A esta altura, os bolcheviques já controlavam os correios, as comunicações telefônicas, a rede elétrica, as delegacias de polícia e as estações de trem. Incapaz até de conseguir um táxi, a comitiva de Kerenski saiu pelas ruas de Petrogrado à procura de um carro. O grupo roubou dois, um deles um Renault estacionado diante da embaixada americana. O segundo, furtado no Ministério da Guerra, estava com o tanque seco e foi preciso surrupiar gasolina de um hospital.

O ataque bolchevique à sede do governo provisório terminou com uma cornija lascada e uma vidraça quebrada no terceiro andar. O Palácio de Inverno continuava de pé. O mundo, nem tanto. A 1.ª Guerra se arrastava na Europa. Foram 40 milhões de mortos. O Exército russo estava exaurido. Segundo Cohen, três revoluções cozinhavam em fogo brando na Rússia. “Uma no Exército, com os soldados abandonando a farda. Outra rural, de camponeses insatisfeitos. Outra industrial, no chão das fábricas, controlada pelos operários”, diz.

Por isso, a missão do comando não era fácil, mas estava evidente: costurar interesses. Naquela madrugada do dia 7, Vladimir Lenin chefiaria o congresso dos sovietes, espécies de conselhos deliberativos dos revolucionários. O encontro foi no Instituto Smolny, palacete escolhido como quartel-general bolchevique à beira do Rio Neva, hoje residência oficial do governador de São Petersburgo. 

Para chegar ao Smolny, Lenin botou uma peruca e escapou da polícia passando-se por bêbado. Após conseguir todo o poder para os sovietes, ele decretou a distribuição das terras para os camponeses e um armistício, tirando a Rússia da guerra. Logo, as três revoluções viraram uma.

A liberdade, no entanto, nunca chegou. O escritor parisiense Alexis de Tocqueville comparou a ascensão de americanos e russos no ensaio Da Democracia na América, em 1831. “Para alcançar seu objetivo, o americano aposta no interesse individual. O russo concentra em um só homem todo o poder da sociedade”, escreveu. Um ensaio visionário, um século antes de EUA e Rússia dividirem o mundo em dois.

A ficha corrida do autoritarismo na Rússia é longa. Dois séculos de domínio mongol (1240-1480) foram trocados por quase 400 anos de regimes absolutistas. Quando a família Romanov, na figura de Nicolau 2.º, saiu de cena, os russos foram engolidos pelo período totalitário comunista. Nos anos 90, todos acreditaram que das cinzas da União Soviética nasceria um novo país, apenas para descobrir mais tarde que ele era feito do mesmo material da velha Rússia dos czares.

Chegou o novo século, mas a KGB nunca desapareceu. Virou FSB. De lá, saiu um agente alçado a presidente. Explorando o longo histórico de opressão, Vladimir Putin forjou um nacionalismo esquizofrênico construído sobre os temores da população. Para Andrew Jenks, historiador da California State University, os russos associam a liberdade individual ao caos político, que leva à guerra civil ou à invasão estrangeira. “Líderes como Putin e Stalin souberam jogar com essa psicose para justificar a concentração de poder.” 

Poucas alegorias simbolizam tão bem a força do patriarcado russo quanto o triângulo riscado no centro do mapa de Moscou. Atrás dos muros castanhos e das 20 torres do Kremlin, está um complexo de cinco palácios e quatro igrejas. Foi a cidadela dos czares até a mudança da capital para São Petersburgo, em 1732, um devaneio que durou quase dois séculos. 

Kremlin

Em março de 1918, quatro meses depois da madrugada revolucionária, os alemães bombardearam Petrogrado. Convencidos de que o inimigo planejava derrubar o governo bolchevique, Lenin e Trotski decidiram se encastelar na velha fortaleza de Moscou. A autocracia russa voltou para o seu refúgio e nunca mais abandonou suas muralhas.

Cem anos depois, a revolução bolchevique deixa um legado cheio de curvas, mas fundamental para entender o século 20. Alguns historiadores citam o primeiro sistema universal de saúde pública, a participação da mulher no mercado de trabalho, a transformação educacional, a planificação da economia. Outros mencionam coisas mais prosaicas, normalmente associadas a lembranças de infância, como o lançamento do satélite Sputnik, o romance Doutor Jivago ou o Tetris, joguinho-sensação que chegou a ser o maior sucesso comercial durante o canto do cisne da União Soviética. 

“A revolução bolchevique levou o mundo para uma nova direção”, diz Kirill Solovyov, do Instituto de História da Rússia. A madrugada fria de Petrogrado teve um impacto no comportamento e no pensamento de muitas gerações. A rivalidade com os EUA redirecionou o compasso da bússola ocidental mais para a esquerda. 

A repercussão foi tão grande que, quando a União Soviética desapareceu, alguns pensadores, como Francis Fukuyama, chegaram a decretar o fim da história.

“O sistema de partido único serviu de paradigma para muita gente. É um modelo que, em nome da busca da utopia na Terra, queria carta-branca para decidir qual tipo de comportamento seria tolerado pela sociedade”, afirma o historiador Joshua Tucker, da Universidade de Nova York. “O problema é que, com o tempo, a coletivização causou a morte de milhões de pessoas em expurgos violentos que ocorreram em nome do bem maior que seria o comunismo.”

Hoje, pelas ruas da capital, não há nada que lembre o centenário da revolução. Volta e meia, um forte aparato policial fecha as entradas da Praça Vermelha e milhares de jovens em uniforme militar chegam apressados de mochilas nas costas para ensaiar os movimentos de um desfile. Um palco foi montado diante de um shopping center em frente ao Kremlin. As comemorações previstas, no entanto, são para homenagear a parada militar de 7 de novembro de 1941, quando Moscou estava sitiada pelos nazistas.

Nos cafés de Kitai-Gorod ou nos restaurantes ao redor da estação Prospekt Mira, os russos acham curioso o interesse dos turistas estrangeiros. Alguns mais críticos, que normalmente não simpatizam com o governo, explicam que o tema ainda causa discussões incendiárias. Por isso, Putin não criou uma narrativa oficial e simplesmente ignora a data. Qualquer revolução contra a autocracia não é uma ideia bem aceita no palácio presidencial - nem mesmo se o líder da revolta for o sujeito embalsamado em um mausoléu diante do próprio Kremlin.

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