Todd Heisler/NYT
Todd Heisler/NYT

A nova cara da Times Square em tempos de pandemia

Fluxo constante de visitantes desapareceu da famosa área de Nova York, e agora o vazio é inquietante

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 07h00

NOVA YORK – Um agente de uma empresa de turismo tentava desesperadamente distinguir entre os transeuntes quais eram nova-iorquinos e quais eram de fora. Recém-casados de Maryland, na esperança de comemorar as suas núpcias com um jantar especial, tiveram de se contentar com o McDonald’s. Quatro sem teto estavam sentados na calçada, compartilhando cigarros e um cachimbo de maconha.

Esta é a Times Square, em um silêncio chocante embaixo do pisca-pisca dos outdoors. Times Square precisa da multidão, ela constitui parte do seu caráter tanto quanto as luzes que piscam incessantes.

“Olhe à sua volta”, disse Ronnie Boyd, de 54 anos, do Brooklyn, que vende bonés de lembrança e camisetas na calçada na área desde 2004. “Sem os shows da Broadway, sem os funcionários de escritório, os turistas, as multidões, não há Times Square”.

As multidões de visitantes – a marca registrada da praça famosa há mais de um século – desapareceram. O ar não é mais denso pelos aromas dos cachorros-quentes e das nozes tostadas. Os teatros da Broadway estão fechados. Os edifícios de escritórios, praticamente vazios. E há este vazio inquietante, contribuindo para fazer aflorar o ligeiro temor de que Times Square possa voltar ao que era nos anos 70, um lugar esquálido conhecido pela criminalidade escancarada, as drogas e os shows eróticos.

A sua transformação – de um lugar agressivo para “Disney” – foi um capítulo significativo na requalificação da cidade, mesmo que os detratores criticassem a praça  porque estaria perdendo o seu caráter. Times Square costuma fervilhar com uma parcela descomunal da atividade econômica da cidade, embora ocupe apenas 0,1% da sua superfície, disse Tim Tompkins, presidente da Times Square Alliance, para o avanço dos negócios da região.

Antes da pandemia, a praça, onde a Broadway cruza a Sétima Avenida, contribuía para atrair massas de turistas para a cidade. Em 2019, foram 66,6 milhões, muitos deles a caminho de algum show, ou para assistir ao espetáculo da bola que cai na Véspera de Ano Novo ou somente para ficar embaixo daquelas luzes. Este nível de turismo provavelmente não voltará até 2024, segundo uma previsão.

Times Square é agora um microcosmo da luta da cidade para sobreviver à pandemia, com os restaurantes e as empresas fechadas e os moradores desempregados.

Desde agosto, segundo os cálculos da Times Square Alliance, o número de pessoas que dormiam na rua na avenida é aproximadamente dobro dos patamares de 2019, e muitas são “bem mais agressivas com os transeuntes ou ignoram o distanciamento social”, acrescentou.

Apesar da escassez de turistas, Ruth Njuguna, uma agente de ônibus de turismo, ainda procurava os possíveis clientes, distribuindo folhetos com a placa no pescoço com o seu nome, “Miss Ruth”. “As pessoas vinham do mundo inteiro para Times Square, e agora deixaram de vir”, ela disse.

Antes da pandemia, os turistas compravam até 100 passagens por dia, permitindo que ela sustentasse seus dois filhos no Bronx e enviasse algum dinheiro para casa, aos parentes no Quênia. Agora, há dias em que ela vende apenas duas ou três passagens.

Os visitantes voltaram aos poucos, principalmente à noite e nos fins de semana. E o local recuperou sua fama de ponto de encontro central por ocasião de eventos, como os protestos do movimento Vidas Negras Importam, e para as comemorações depois que foi declarada a vitória do presidente eleito Joe Biden.

No entanto, o distrito parece vazio segundo os padrões de Times Square. Cerca de 108 mil pedestres passam agora pela área diariamente, em comparação com 380 mil antes da pandemia. No fim de semana prolongado do Dia de Ação de Graças, Times Square teve um terço do trânsito normal de pedestres, disse a Aliança.

Segundo Tompkins, ainda não se sabe ao certo se dezembro trará um feriado magro, dadas as restrições da pandemia.

Os arranha-céus de escritórios continuam em grande parte vazios, e a maioria dos hotéis da área fechou, pelo menos temporariamente, inclusive o Hilton Times Square, de 478 quartos, e lojas como a Old Navy e a U.S. Polo Association. Restaurantes como Planet Hollywood, Hard Rock Café, e Dave and Buster’s ainda não reabriram.

De março até o fim de outubro, cerca de 26 dos 46 hotéis da área de Times Square fecharam, pelo menos temporariamente, informou a Aliança, assim como 39 das 151 lojas de varejo, e 84 dos 162 restaurantes. Dos dois multiplex da Rua 42, o Regal fechou permanentemente e o AMV Empire 25, o cinema com a maior bilheteria do país, permanece fechado por causa das restrições impostas pela prefeitura aos cinemas. O espetáculo anual da bola que cai na Véspera de Ano Novo, que costumava atrair multidões de mais de um milhão de pessoas, este ano se realizará sem a presença de espectadores. Os teatros da Broadway continuarão fechados pelo menos até junho, e poucos acreditam em uma volta substancial na área antes disso.

A pandemia afetou profundamente o quarteirão da Rua 42, entre a Sétima e a Oitava Avenida, que é uma sombra do que era antes da pandemia. Ali, houve um declínio de 70% do trânsito dos pedestres em comparação com o ano passado, segundo um estudo realizado pela aliança.

Aproximadamente 80% das empresas agora estão fechadas ou inativas. Inclusive os teatros onde Aladdin e Harry Potter eram exibidos quando foi decretado o lockdown.

“Não há um quarteirão que tenha passado tão rapidamente e tão violentamente da prosperidade para o fechamento total", disse Tompkins. “A cidade e o Estado levaram dois anos e dezenas de milhões de dólares na transformação desta área. Era um importante motor econômico, e fechou completamente.”

As pessoas que não têm moradia foram tiradas do metrô desde que ele começou a fechar todas as noites de 1h da madrugada até as 5h da manhã para a limpeza. Para combater a disseminação do novo coronavírus, a prefeitura retirou milhares de pessoas dos abrigos superlotados e os colocou em hotéis onde não há turistas.

Os defensores dos movimentos sociais afirmam que muitos da população de rua deixaram os abrigos lotados por conta própria, arriscando-se a ficar nas ruas durante a pandemia. Nos hotéis, dois estrangeiros em geral compartilham um quarto, arranjo que também pode espalhar o vírus.

Um desses novos residentes que vivem na rua em Times Square é Shakeem Lofton, de 45 anos. Ele estava reclinado sobre um cobertor azul com um travesseiro encostado em um quiosque na Sétima Avenida, perto da Rua 44 West. Ele disse que saiu de um abrigo em Uptown Manhattan por causa do medo do vírus e havia escolhido este lugar porque parecia o melhor para pedir esmola. “Eu pensei que estaria mais seguro arriscando morar na rua do que dormir perto de todas aquelas pessoas”, afirmou.

Ismael Guillen, de 25, e Jennifer Medrano, de 19, de Pasadena, Maryland, estavam em uma praça de pedestres perto da Rua 44 num dia da semana. Talvez nada é mais impressionante na Times Square do que o estranho vazio em que se encontra, em comparação com o que era antes. Algo que não passou despercebido para os noivos em lua de mel.

O casal tirou uns raros dias de folga do emprego na Chick-fil-A para uma breve lua de mel na Times Square. “Sem dúvida não é o que esperava, em comparação com a Times Square lotada de gente que vemos nos filmes e nas fotografias”, lamentou Jennifer. Guillen contou que já a havia visitado várias vezes, como em 2018, na Véspera do Ano Novo.

Conhecendo a fama da Times Square pela atividade tarde da noite, o casal saiu recentemente depois das 21 horas para jantar e tentou o Hard Rock Cafe, o Red Lobster e o Olive Garden, mas todos estavam fechados. Comeram no Mc Donalds. “É o mesmo lugar, mas é uma experiência totalmente diferente”, disse Guillen. “É exatamente o oposto do que costumava ser”. / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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