A nova cara dos britânicos

A Grã-Bretanha vota no dia 6. Será o fim do reinado dos trabalhistas? Em 2 de maio de 1997, Tony Blair subiu no palco do Royal Festival Hall e clamou: "Ganhamos. Iniciamos uma nova era." Alguns anos mais tarde, o jovem brilhante e arrogante Tony Blair, desonrado pela guerra no Iraque, iniciada por seu amigo George W. Bush, deixou o cargo de primeiro-ministro e cedeu lugar para seu colega de partido Gordon Brown. Ao todo, o reinado trabalhista durou 13 anos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Três candidatos estão na disputa: o trabalhista Brown, o conservador David Cameron e o temido azarão Nick Clegg, o liberal-democrata que se apresenta como o Barack Obama britânico ou como o Winston Churchill do século 21. Vamos evitar prognósticos e colocar a seguinte pergunta.

Em qual estado o vencedor das eleições encontrará o país? Em 2010, qual é a cara da velha Grã-Bretanha? A resposta dos conservadores é rápida: uma nação quebrada.

É verdade que a economia sofre, como ocorre em toda a Europa. A City, motor da Grã-Bretanha, está em pane. A recessão durou seis trimestres, mais do que em todos os outros países do G-7. O índice de endividamento do Estado em relação ao PIB é colossal. O déficit orçamentário atingiu 167 bilhões de libras (US$ 254 bilhões), um recorde.

Mas, apesar de tudo, mesmo a conservadora revista The Economist mostra menos pessimismo, observando que, antes do colapso econômico, os ganhos de produtividade eram mais robustos na Grã-Bretanha do que em qualquer outro lugar.

Os franceses fazem pouco dos britânicos, que vivem em um "país sem indústria". Mas se a Grã-Bretanha deixou de fabricar carros é porque preferiu caminhar para o setor do futuro, o de biotecnologia. Quanto à vida cotidiana, Londres, e o país em geral, não sabe o que é declínio. Pelo contrário, há uma explosão de energia, ideias, inovação.

Um em cada dois britânicos diz que a vida melhorou depois de 1997. E acrescenta que não foi por causa do governo trabalhista. "Melhoramos por nossos próprios atos, e não pela atuação de nossos dirigentes", dizem.

Se procurarmos os sinais desse estranho dinamismo, que parece vencer todos os dissabores econômicos e políticos, o que eles indicam? Londres tornou-se a cidade mais cosmopolita do mundo, uma outra Nova York. Tem celebridades negras e asiáticas. As pessoas estão mais abertas e tolerantes do que antes. Os preconceitos praticamente desapareceram.

Apenas dois perduram: as piadas ridicularizando as pessoas da "classe alta" e o sotaque de Eton, que ainda é motivo de chacota. Além disso, uma das degenerações da história local começa a desaparecer, a nulidade ancestral de sua cozinha. O responsável é um chefe genial, Jamie Oliver, que se qualifica como "o chefe nu" e cujo programa de TV dá aulas para uma população de analfabetos culinários. Graças a Oliver, de 34 anos, ser convidado para jantar numa casa londrina já não é mais um calvário.

A vida cultural da capital continua uma maravilha. Não está mais reservada a uma casta de letrados e ricos. Há dez anos, uma usina elétrica desativada, à margem do Tâmisa, foi transformada em museu, abrigando a Tate Modern Gallery. No dia da sua inauguração, 5 mil visitantes fizeram fila. À noite 40 mil tinham visitado a exposição. No final do mesmo ano, a Tate tinha recebido 5 milhões de visitantes, um recorde mundial. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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