A nova contenção

Seja quem for o novo presidente americano, ele terá de frear a China

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2015 | 08h10

Qual é o desafio mais grave com que terá de se deparar o próximo presidente dos EUA? Como lidar com a China. As relações entre o país emergente e esta duradoura superpotência é o maior problema geopolítico do nosso tempo. Se Washington e Pequim não encontrarem uma solução, haverá uma guerra em algum país da Ásia, em algum momento da próxima década.

Em comparação, a Rússia de Putin e a brutalidade do Estado Islâmico parecem desafios regionais de médio porte. A mudança climática e a economia mundial não poderão ser administradas sem a cooperação sino-americana. Tudo isto exige uma grande estratégia bipartidária para os próximos 20 anos, mas a política dos EUA parece incapaz de criar algo mais do que uma citação nos próximos 20 minutos.

No Mar do Sul da China, por meio de maciças operações de dragagem, a China transformou recifes submersos em ilhas artificiais e está concluindo uma pista de pouso de mais de 3 quilômetros. O presidente Xi Jinping presidiu recentemente uma enorme parada militar da China no estilo das do Kremlin, tendo Vladimir Putin ao seu lado como hóspede de honra.

Reforçando sua reivindicação de uma vasta área do Mar do Sul da China, Pequim expulsou barcos de pesca filipinos e interceptou um avião espião americano. Enquanto isso, os EUA anunciam aos seus aliados asiáticos que enviarão patrulhas para garantir a “liberdade da navegação” sobre as ilhas em disputa.

Tudo isto ocorre enquanto Xi está no controle do país, sem nenhuma crise interna imediata. Entretanto, o Partido Comunista Chinês enfrenta uma crise de legitimidade de longo prazo. Durante décadas, ele baseou sua legitimidade política num impressionante crescimento econômico, que começa a declinar. A tosca tentativa de exigir que os mercados acionários chineses se recuperassem este ano, como o Rei Canuto da Dinamarca querendo mandar na maré, não é nada encorajadora.

Quase certamente, eles lutarão com todas as forças, mas como sempre acontece com o adiamento de reformas imprescindíveis, a crise acabará se tornando muito maior. Àquela altura, a tentação da liderança do PC de jogar a cartada nacionalista, talvez com uma ação militar real contra uma as Malvinas da China, seria exagerada.

Provavelmente, não se trataria de um confronto direto com um aliado formal dos EUA, mas os riscos de um erro de cálculo e de uma escalada seriam grandes. Com a opinião pública nacionalista irritada, em ambos os países, nem o líder chinês nem o americano poderão perder, e é preciso levar em conta que ambos têm armas nucleares. Não se trata de alarmismo fútil, é algo em que os militares, a inteligência e os especialistas americanos pensam o tempo todo em evitar.

Pelo fato de o rumo da China depender das forças que atuam no próprio país, fora do controle de Washington, os EUA precisam de uma mobilização estratégica cautelosa, coerente, de todos os instrumentos a sua disposição. Deverá ser algo semelhante à estratégia de duas vias adotada pelo Ocidente nos últimos 20 anos da Guerra Fria.

Não deve haver dúvida nas mentes chinesas do que os EUA serão capazes de fazer. A política americana teria de ser o oposto do que Barack Obama fez em relação à Síria: estabelecer uma linha vermelha e depois permitir que Bashar Assad a transpusesse impunemente. Neste caso, os EUA não deveriam marcar nenhuma linha publicamente, apenas nas comunicações privadas, e, por meio de ações concretas, deixar claro que ela existe.

Além disso, Washington deve buscar um engajamento construtivo. É preciso encontrar terreno comum na questão da mudança climática, economia e geopolítica. Os fortes laços comerciais que já existem deveriam respaldar a relação. Esta estratégia deveria ser coordenada com aliados que mantêm importantes relações com a China, como Austrália, Alemanha e Grã-Bretanha. Estes países receberão o presidente Xi na próxima semana.

Tudo isto, porém, parece utópico. Os candidatos presidenciais republicanos fazem comentários imprecisos sobre a China. Ben Carson tuíta foto de uma porta-aviões americano com as palavras “É assim que competimos com a China”. Com uma mescla de ignorância e fanfarronice, Donald Trump sugere que o problema é o fato de os chineses não respeitarem Obama, mas que se Xi tomasse umas cervejas com ele tudo se acertaria.

E Hillary? Esta semana, ela simplesmente inverteu sua posição a respeito da Parceria Trans-Pacífico, acordo comercial com a Ásia que ela apoiou durante anos. Sua reviravolta tem razões oportunistas: atrair os votos protecionistas e dos sindicatos, que estão indo para seu rival democrata Bernie Sanders.

Esta é a tragédia de uma política da qual tanto dependemos. Os EUA têm políticos sofisticados, mas desenvolveu uma maneira de fazer política que torna impossível sustentar uma estratégia coerente. Adaptando a famosa observação do marido de Hillary, Bill Clinton: “É a política que é estúpida”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA OXFORD UNIVERSITY E PESQUISADOR DA HOOVER INSTITUTION

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