Adriana Carranca/Estadão
Manan Ansari, de 18 anos, trabalhou em mina ilegal na Índia dos 6 aos 13 anos Adriana Carranca/Estadão

A nova face da escravidão

Em 4 perfis, 'Estado' retrata alguns dos tipos mais comuns de servidão aos quais milhões de pessoas ainda estão expostas nos dias atuais

Adriana Carranca, Enviada Especial / Londres, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2014 | 05h01

O nepalês Deependra Giri lembra-se do frio, da escuridão e do cheiro de excremento no galpão onde era mantido em cativeiro com outros 600 homens traficados para trabalhar na construção civil no Qatar. Durante dois anos ele foi mantido em condições desumanas e obrigado a trabalhar dia e noite. Viu colegas caírem doentes - um cometeu suicídio -, enquanto ouvia dos "patrões" que só sairia dali morto.   

Dois estudos recentes mostram que as ameaças feitas a Deependra não eram vazias. Mais de 400 imigrantes nepaleses morreram em canteiros de obras no Qatar desde que o país venceu a disputa ara sediar a Copa do Mundo em 2022 e iniciou as obras para o evento. O estudo, do Pravasi Nepali Coordination Committee, organização de direitos humanos respeitada no Nepal, foi feito com números oficiais de Doha. Mas os nepaleses representam apenas 20% da força de trabalho composta por imigrantes no Qatar. Em janeiro, números disponibilizados pela Embaixada da Índia no Qatar apontaram a morte de 500 trabalhadores indianos do mesmo setor desde 2012.

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Eles (embaixada do Nepal) não me ajudaram. Eles sabem muito bem o que está acontecendo com os trabalhadores nepaleses no Qatar e não fazem nada
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"A comida era horrível, não havia eletricidade nem água potável. No verão, o calor era tão insuportável que nós dormíamos amontoados no telhado do galpão e acordávamos cobertos pelo pó cinza de cimento", disse Deependra ao Estado. Deependra pagou do próprio bolso a passagem até Doha. Ao desembarcar no aeroporto, foi recebido por um homem que lhe tomou o passaporte. Ele só recebeu o documento de volta quando conseguiu escapar sob a proteção de um antropólogo estrangeiro que pesquisava a escravidão moderna nos países do Golfo. 

Os dois se conheceram após Depeendra ganhar a confiança dos patrões. Como ele era professor e conhecia computação, passou a trabalhar no escritório e a receber cerca 1 mil rials, algo como R$ 700, para a própria sobrevivência, dinheiro que procurava guardar para comprar a passagem de volta ao Nepal. Seu passaporte, no entanto, continuou retido. 

Em uma das vezes que teve a autorização do patrão para sair e fazer compras, escapou para a Embaixada do Nepal. "Eles não me ajudaram. Eles sabem muito bem o que está acontecendo com os trabalhadores nepaleses no Qatar e não fazem nada", disse Deependra. Em uma outra oportunidade, ele conheceu o professor Andrew Gardner, que fazia pesquisas para o livro City of Strangers (Cidade de estranhos, em tradução livre), sobre imigrantes nos países do Golfo. Gardner ajudou Deependra a deixar o país. "Eu nem sabia que a isso se dava o nome de escravidão, até conhecer o professor", diz Deependra. "Tive muita sorte. Mas muitos não têm". Depois de voltar ao seu país, Deependra fundou a organização Safety First, que luta contra o tráfico de pessoas e o trabalho forçado no Nepal.

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Evelyn Chumbow, traficada para os EUA pelo próprio tio

Aos 9 anos, menina foi vendida para família camaronesa que morava no estado americano de Maryland por US$ 2 mil; foi mantida em cativeiro por 7 anos

Adriana Carranca, Enviada Especial, Londres, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2014 | 05h00

Aos 9 anos, Evelyn Chumbow foi vendida por um tio a traficantes por US$ 2 mil. À família, vulnerável e pobre, o intermediário prometeu que Evelyn seria adotada. Ele convenceu a mãe, sozinha e grávida, de que a adoção seria melhor para o futuro da menina. Assim, garantiu também que ela nunca tentasse procurar a filha. 

Os traficantes obtiveram documentos falsos para Evelyn. Ela foi levada para Londres e, de lá, negociada para uma família de Camarões - mesma nacionalidade que a sua -, que vivia no estado americano de Maryland. Evelyn entrou nos EUA na companhia de um homem. Ela ainda era uma criança e estava assustada demais para guardar memórias detalhadas da viagem, mas se lembra de não ter tido problemas quando passaram pela imigração. 

Evelyn foi mantida em cativeiro pelo casal que a recebeu em Maryland e obrigada a fazer todo o trabalho doméstico, entre outras obrigações sobre as quais não gosta de falar. "Ainda não fiz as pazes com essa parte do meu passado", disse ao Estado, respondendo à pergunta sobre ter sido vítima de abuso sexual. Ela cuidava de duas crianças pequenas, que frequentemente assistiam enquanto a mãe a espancava. "Eles riam. Ela os entretinha com isso", disse Evelyn, que era mantida em um pequeno quarto, onde dormia no chão. Ela raramente deixava a casa - nunca sem a companhia do casal. 

Pelo menos 5,5 milhões de crianças estão escravizadas hoje no mundo. É uma tragédia diretamente ligada à pobreza e à vulnerabilidade de famílias como a de Evelyn, da zona rural de Camarões. Muitas das crianças traficadas não são roubadas. Suas famílias são convencidas a entregar os filhos por traficantes disfarçados de assistentes sociais ou agentes de adoção. Muitas vezes os traficantes têm como intermediário alguém conhecido e de confiança das próprias famílias.

"Eu pensei que nunca sairia de lá, a não ser que estivesse morta", diz Evelyn. Em cativeiro, ela perdeu a noção do tempo. Só mais tarde, quando foi libertada, deu-se conta de ter sido escravizada por 7 anos. Perto do fim deste período, outra menina, também traficada de Camarões, juntou-se a ela. As duas começaram a planejar a fuga. Uma noite, conseguiram escapar para a igreja do bairro. O padre as manteve escondidas até serem resgatadas pelas autoridades. 

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O mundo precisa saber que milhões de crianças continuam escravizadas e isso não é justo
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Evelyn retomou os estudos - ela mal sabia ler e escrever quando foi traficada e nunca tinha ido para a escola até ser salva. Hoje, ela estuda trabalho humanitário e segurança doméstica na Universidade de Maryland. "Houve um momento que eu pensava em desistir de tudo. Você imagina o que é para uma menina descobrir de repente que foi vendida pelo tio por US$ 2 mil. Ele acabou com a minha vida", diz. 

No meio do processo de recuperação, Evelyn largou a escola e começou a trabalhar. Queria comprar uma passagem para Camarões. "Eu precisava ir, eu tinha que buscar respostas, não conseguia mais viver sem pensar nisso. Eu queria saber por que eles fizeram aquilo comigo." O tio pediu-lhe perdão. "Eu disse que perdoava, mas leva muito tempo para alguém se recuperar do trauma como o que eu vivi", explica.

Evelyn ainda tem pesadelos. Sonha que ainda está no cativeiro e as imagens aparecem como flashbacks. "Eu sinto como se estivesse vivendo tudo de novo. Todas as noites sonho com os traficantes, penso que eles virão para matar meu filho", diz Evelyn, que está casada e é mãe de um menino de 9 meses. 

Ela ainda chora quando descreve o que viveu. "Foi um milagre eu conseguir escapar. Eu fui colocada em um abrigo, mas muitas pessoas quando conseguem fugir não têm para onde ir e acabam de novo nas mãos de traficantes." 

Evelyn, que criou uma rede na Internet - a National Survivor Network -  onde sobreviventes de tráfico e escravidão podem se comunicar e pedir ajuda. O casal que a manteve em cativeiro foi condenado a 17 anos de prisão.  "Mas o mundo precisa saber que milhões de crianças continuam escravizadas e isso não é justo. Não foi justo o que fizeram comigo."

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Manan Ansari, forçado a trabalhar em uma mina na índia

Jovem resgatado de mina de cristais de mica sonha virar advogado para defender crianças em situação de escravidão

Adriana Carranca, Enviada Especial / Londres, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2014 | 05h00

Manan Ansari tem 18 anos, mas exibe a fragilidade de uma criança. Ele tinha 6 anos quando foi escravizado junto com o pai em uma mina de cristais de mica, em um vilarejo escondido na floresta de Jharkhand, no leste da Índia. Ansari passou a infância dentro dos túneis escuros e gélidos cavados pelos exploradores. Os deslizamentos eram comuns e, um dia, ele viu o melhor amigo, da mesma idade que ele, morrer ao sofrer uma queda quando quando os dois entravam na mina. 

"Mica só pode ser coletado a 300 ou 400 metros abaixo da terra. Eles cavavam com máquinas improvisadas e nós tínhamos de descer. Lá embaixo era muito escuro, frio, e faltava oxigênio. Muitos foram soterrados. Meu melhor amigo escorregou nos primeiros degraus e eu o vi cair naquele buraco, na frente dos meus olhos", disse Ansari em entrevista ao Estado, com uma voz quase inaudível. Ele ainda tem problemas físicos decorrentes dos anos sem luz e da comida insuficiente. Ele luta contra uma doença nos pulmões causada pelo ar contaminado da mina e exibe nas mãos as marcas do trabalho forçado ao qual foi submetido.

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Crianças são traficadas dos vilarejos para a cidade porque não há escolas ou hospitais na zona rural
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Em 2007, quando tinha 13 anos e após 7 em cativeiro, ele foi resgatado pela organização Bachpan Bachao Andolan (Movimento para Salvar a Infância), do Nobel da Paz Kailash Satyarthi, e passou a viver em um dos abrigos mantidos pelo grupo. Hoje com 18 anos, Ansari estuda direito em Nova Délhi e diz querer tornar-se advogado para defender os direitos das crianças. "Kailash é meu pai, um homem de grande alma. Graça a ele eu fui resgatado, mas as condições nas minas não mudaram. O mundo precisa fazer alguma coisa porque toda criança deve ir para a escola e receber amor", diz. "Crianças são traficadas dos vilarejos para a cidade porque não há escolas ou hospitais na zona rural." 

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Mulheres são traficadas para prostituição em países ricos

Ao pedirem ajuda para autoridades locais, muitas das vítimas recebem ameaças de deportação; em casos extremos, acabam presas

Adriana Carraca, Enviada Especial / Londres, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2014 | 05h00

A colombiana Marcela Loaiza tinha 21 anos quando foi abordada por um estranho que lhe prometeu emprego como dançarina fora do país. Marcela, que já trabalhava como dançarina para sustentar a filha que criava sozinha, decidiu partir quando a menina foi internada com um problema respiratório. "Eu não tinha como pagar a conta. Pedi à minha mãe que cuidasse dela e prometi que voltaria logo com dinheiro para pagar a dívida."

Marcela foi mandada para o Japão e obrigada a se prostituir nas ruas de Tóquio. Ela conseguiu escapar com a ajuda de um cliente. "Muitas mulheres como eu, ao invés de receber ajuda, são tratadas como criminosas. Eles (as autoridades) nos culpam por nossas decisões, enquanto os traficantes continuam soltos e enriquecendo com os bordeis.  

Outra vítima de traficantes, Ellie* viveu com a família no leste da África até os 6 anos, quando o pai a entregou para uma família que ele julgava ter melhores condições para cuidar da menina. No entanto, Ellie passou a viver como escrava na nova casa. Na adolescência, o pai "adotivo" passou a abusar sexualmente dela e, mais tarde, vendeu-a para outro homem. Ellie foi traficada para a Inglaterra e forçada a se prostituir.

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Muitas mulheres como eu, ao invés de receber ajuda, são tratadas como criminosas
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Um ano depois, Ellie conseguiu escapar. A primeira coisa que fez foi ligar para a polícia, mas em vez de ser protegida foi presa pelas autoridades de imigração por estar no país ilegalmente - as autoridades ameaçavam deportá-la. Ellie passou quase um ano na prisão até ser solta graças ao trabalho pró-bono do advogado de uma organização britânica chamada Projeto Poppy, que assumiu o seu caso.

Na semana passada, o novo comissário do governo britânico para o programa contra a escravidão, Kevin Hyland, fez um pedido público de desculpas a Ellie. Ele disse que "a reação da polícia, de procuradores e juízes ao apelo da vítima colocava em dúvida a intenção das autoridades em ajudar pessoas traficadas para o país". "O que aconteceu com Ellie foi errado e meu papel é garantir que um erro como este não ocorra mais."

"Eu fui espancada e obrigada a me prostituir. Quando achei que seria salva, me colocaram em uma prisão", disse Ellie. "Eles não acreditaram em mim."

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